Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Menos impostos e BNDES, de novo como solução

Pecuaristas do Mato Grosso trabalham em soluções de emergência, enquanto as definitivas para seus problemas não se concretizam

Cristiane Barbieri, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 05h00

ENVIADA ESPECIAL AO VALE DO ARAGUAIA (MT) - Os pecuaristas do Mato Grosso trabalham em soluções de emergência, enquanto as definitivas para seus problemas não se concretizam. A primeira delas é a negociação da redução do ICMS e da pauta, como é chamado o valor estabelecido para as mercadorias, pelo governo, para a cobrança de impostos. Se as alíquotas baixarem, frigoríficos de outras regiões do País, sobretudo de São Paulo, poderão ser uma saída para o gado parado no pasto, na mesma época em que o período de seca encarece sua criação.

“Percebemos que o governo do Estado tem se mostrado sensível à nossa necessidade de desafogar a produção”, diz Marco Junqueira, administrador da Fazenda Carpa Serrana, uma das maiores do Vale do Araguaia.

Uma segunda alternativa é negociar a abertura dos frigoríficos fechados nos últimos anos. Na quarta-feira, João Batista Vaz, prefeito de Nova Xavantina e alguns empresários organizavam uma ida a Brasília para pressionar pela retomada na produção de uma unidade da Marfrig, parada há três anos.

“Numa cidade pequena como a nossa, o frigorífico fechado quebrou uma série de outros negócios: do dono da concessionária, que havia financiado 150 motos para os funcionários, às transportadoras e várias lojas”, diz ele.

No longo prazo, há possibilidades como o cooperativismo e o associativismo, para os quais os empresários pretendem se organizar. Para Sérgio Lazzarini, do Insper, uma boa alternativa, comum em outras áreas do agronegócio.

“Do mesmo jeito que fez com os grandes, o BNDES poderia financiar pequenos e médios, para aumentar a concorrência e as alternativas”, diz Junqueira. Lazzarini discorda e afirma que o momento é de deixar o mercado se ajustar.

Maria Ester Fava, a Téia, da Fazenda Estrela do Sul e da Acrimat, a associação dos criadores do Estado, é uma das que está indo contra à maré. Investiu num pequeno confinamento, por se recusa a vender pelo preço atual, oferecido pela JBS. Dona de uma madeireira que vende eucalipto tratado, diz que ficou feliz quando as vendas deste mês empataram com as do mesmo período do ano passado. Deveriam, porém, ter crescido. Também está investindo para abrir uma empresa de peças industriais em inox: “Resolvi diversificar para ficar menos dependente.”

DEPOIMENTOS

Marco Junqueira, administrador

“Nossa atividade tem ciclos de baixa e temos planejamento para enfrentá-los. Na Carpa Serrana, começamos a cortar custos antes da Copa do Mundo, quando o Brasil ainda estava no primeiro mundo. Sabíamos que o crescimento era artificial e a economia não se sustentaria naquele patamar. Mas enfrentar tantas crises seguidas contaminou a atividade como um todo.”

Téia Fava, ​pecuarista

“O pecuarista empobreceu. Nós compramos e investimos na criação de um animal que custava muito mais caro do que hoje. Aprimoramos a genética, a qualidade da carne, a produtividade, a escala e de pouco valeu. Hoje, nem uma genética de primeira faz diferença: o boi vale apenas o que pesa. Se um rebanho de mil cabeças valesse hipoteticamente R$ 1,2 milhão, hoje ele não passaria de R$ 1 milhão.”

Altair Alves Salles, vaqueiro e capataz

“Até dois anos atrás, se você saísse de uma fazenda, em 15 dias já estava contratado em outra. Estou há cinco meses procurando emprego e só consigo trabalhar por diárias, como servente de pedreiro. Tenho dois filhos, contas que não param de chegar e pego o que aparece. Nas fazendas, o povo reclama que a ração está cara, que o insumo subiu, que o gado não vale nada e tiveram de abrir mão das vagas. ”

Vasco Mil-Homens, pecuarista

“Quando a JBS se tornou mundial, achamos que seria bom e, como brasileiros, seríamos prestigiados. Ela transformaria a carne de nelore num produto gourmet do Brasil para o mundo. Aconteceu o contrário: priorizaram quantidade e nossa carne ficou ainda mais barata. Pisaram na garganta do pecuarista, sem repassar a diferença de preço ao consumidor.”

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