Mensagem a dois jovens que odeiam o celular

Caros leitores Ernesto e Ricardo: Com o idealismo típico dos jovens, vocês estão indignados com o sucesso mundial da telefonia móvel. E me escrevem para dizer que "os celulares não deveriam existir, porque são utilizados por bandidos, causam câncer e conduzem à perda de horas e horas de conversas vazias". Até a morte de um amigo vocês atribuem ao celular, sem dar mais detalhes.Discordam de meu entusiasmo diante do desenvolvimento incrível desse serviço em diversos países europeus, onde a densidade média é superior a uma centena de celulares por 100 habitantes. E me criticam: "Não entendemos como você acha vantagem para um país ter tantos celulares por 100 habitantes. As pessoas gastam fortunas em papos furados, milhões de baterias são jogadas no meio ambiente, sem falar nas ondas que nos afetam diariamente."Espero que, depois de ler minha resposta, vocês façam as pazes com o celular e com a tecnologia em geral. Vamos lá.A história do câncer é velha. A cada semana surgem denúncias sobre supostos efeitos cancerígenos do celular. Será que existe mesmo essa relação causal, num mundo com quase 3 bilhões de celulares em serviço e em que 100 milhões de pessoas utilizam o aparelho há mais de 15 anos? Não lhes parece estranho que, nesse período, a ciência jamais tenha comprovado esse efeito cancerígeno?SEGURANÇAExaminemos agora o uso do celular por criminosos. É verdade que terroristas têm usado celulares como gatilho remoto para explodir trens, como aconteceu em Madri, em 2004. Culpa do celular? Ou dos terroristas? É triste saber que um avanço tão útil quanto o celular pode transformar-se em arma nas mãos de bandidos. Mas assim acontece.E quanto ao uso do celular nas penitenciárias? A maioria das autoridades de segurança pública pede o bloqueio do funcionamento do celular nos presídios e suas imediações. É uma forma de fugir ao verdadeiro problema, pois o telefone só entra nas prisões porque há corrupção. Essa mesma corrupção ainda permite o ingresso e o uso de carregadores nas tomadas internas das penitenciárias.Lamento que tenham perdido um amigo por causa de um celular. Supondo que sua morte tenha sido causada por uma explosão de bateria de celular, lembro que esses casos são raríssimos. Depois de um acidente desse tipo, no ano passado, a Sony recolheu milhares de baterias potencialmente explosivas. Um dos grandes desafios modernos é adequar o uso da tecnologia aos interesses do ser humano. Vejam o caso da energia elétrica que, mesmo prestando excelentes serviços ao homem, pode eletrocutar pessoas ou causar incêndios. Ou do automóvel, que mata 40 mil pessoas por ano em acidentes de trânsito no Brasil.Como qualquer brasileiro, perdi amigos ou parentes em acidentes de trânsito. Embora seja o grande vilão do mundo moderno - por poluir as cidades, atravancar as ruas e matar tanta gente - o automóvel ainda não pode ser banido de nossa sociedade. Diante desse quadro, o melhor caminho é, sem dúvida, educar motoristas e pedestres, racionalizar o trânsito, ampliar a oferta de transportes coletivos de boa qualidade e aprimorar a legislação.Relembro meus interlocutores que a tecnologia, em si, não é boa nem má. Tudo depende de como a utilizamos. Vitaminas em doses cavalares podem matar. Vejam o caso da internet, com duas faces totalmente opostas: 60% de conteúdo positivo e 40% de lixo. No entanto, Ernesto e Ricardo confessam gostar da internet, apesar de seus 40% de conteúdo pornográfico, pedofilia, tentativas de fraude, propaganda nazista, preconceitos, difusão de calúnias e de coisas do mais baixo nível. Fico feliz, pois vejo que vocês separam o joio do trigo, e usam a parte positiva da web, que lhes proporciona informação, conhecimento e cultura. BANDA LARGAO Brasil caminha para a internet móvel de alta velocidade. Em breve acessaremos a rede mundial em qualquer lugar, a qualquer hora, graças ao celular de terceira geração (3G) e a outras redes sem fio de banda larga, como Wi-Fi e Wi-Max. Vocês dois - Ernesto e Ricardo - se recusarão a usar o celular 3G?Uma das maiores vantagens da nova internet é viabilizar a realização de projetos essencialmente colaborativos - como a Wikipédia ou MySpace, YouTube ou Second Life - como demonstra Don Tapscott, no livro Wikinomics (Nova Fronteira, Rio, 2007). É injusto culpar o celular pela perda de tempo das pessoas com conversas vazias. Isso nada tem a ver com tecnologia. É uma questão puramente comportamental, do mesmo modo que jogar bateria velha no lixo é falta de educação ambiental. Esses fatos nos mostram a necessidade urgente de ensinar as novas gerações a não poluir e a usar corretamente os recursos naturais. Por mais óbvio que pareça, o que falta à humanidade é educação. Meu apelo final: Ernesto e Ricardo, reconciliem-se com o celular e usem a comunicação móvel como bilhões de outras pessoas já o fazem no mundo, em busca de informações, notícias, conhecimento, cultura e bons negócios.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.