Mensagens das urnas

As urnas falaram. Os eleitores, na economia, querem um próximo governo que não descuide da inclusão social, mas não ao custo de um desequilíbrio econômico que possa provocar retrocessos nesse campo ou mesmo reduzir o ritmo de ampliação do processo inclusivo.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2014 | 02h04

A divisão regional que aparenta ter emergido do pleito pode não dizer tudo sobre o desejo expresso na cabine eleitoral. A presidente Dilma Rousseff de fato cresce sobre o senador Aécio Neves à medida em que se sobe no mapa do Brasil e este ganha força na parte de baixo, com uma notável preferência em São Paulo. Mas a verdadeira fronteira dos votos pode ser definida pela sensação, presente e futura, de bem-estar proporcionada ou não pela ação do governo.

Pode-se imaginar como se construiu, desta vez, a racionalidade das escolhas eleitorais. Quem, de um lado, considera que sua eventual ascensão social se deu apenas por méritos próprios e se sente ameaçado pela inflação, que corrói o poder de compra, e pelo baixo crescimento, que dificulta o progresso pessoal, deu prioridade ao ajuste macroeconômico, optando pela alternância no governo. Quem, de outro lado, sente, direta ou indiretamente, os benefícios das políticas sociais turbinadas neste último governo e quer vê-los aprofundados, preferiu apostar na continuidade.

Parece claro, porém, que só com propostas de ajuste econômico ou só com mais inclusão não será possível somar os votos necessários para ganhar em 26 de outubro. O vencedor, na lógica sugerida pelos resultados das urnas, terá de compor uma narrativa crível mesclando as duas demandas principais. Marina apareceu com essa alternativa, apresentando um programa que tentava atender aos dois pontos, mas faltou-lhe capacidade para convencer o eleitorado de que reunia as condições para levar a bom termo tarefa tão complexa.

No discurso de confirmação da vitória no primeiro turno, Dilma antecipou o tom com o qual pretende iniciar sua campanha no segundo turno. Retomando uma troca de acusações com Aécio, que teve lugar no debate da Rede Globo, às vésperas do pleito de domingo, a presidente lembrou os índices econômicos ruins e a situação difícil da economia em 2002, quando os eleitores levaram Lula à Presidência, em oposição ao governo, em segundo mandato, de Fernando Henrique.

Essa vai ser uma constante do discurso de Dilma nos próximos 20 dias, mas a candidata derrapará feio caso se restrinja a enumerar obras e números, como fez no primeiro turno. Ela terá de encontrar novas respostas para os desequilíbrios econômicos atuais se quiser ser convincente aos eleitores, o que deveria obrigá-la a apresentar um programa factível, formal ou não, de retomada do crescimento. Em 2006, quando Lula foi reeleito e, mais ainda em 2010, quando Dilma ganhou a eleição, a economia vivia fases de alta, muito diferente da estagnação de hoje, ainda mais complicada pelo cenário externo adverso.

Aécio também não terá vida fácil para manter o vento mudancista favorável que o levou à virada sobre Marina e a se aproximar dos índices de Dilma na reta final do primeiro turno. Identificado com o mercado financeiro, seu desafio será superar desconfianças de que buscará o prometido reequilíbrio econômico às custas de uma austeridade fiscal incompatível com a manutenção das políticas sociais em que sua oponente se sustenta. Ele já deve saber que, para isso, não bastará acenar, como ensaiou no primeiro turno, com medidas desconectadas da realidade como a extinção pura e simples do fator previdenciário ou a extensão do Bolsa Família para famílias de renda mais alta.

Há os que acreditam que a campanha, no segundo turno, será sangrenta, com ataques pessoais e a predileção por temas negativos, denúncias de corrupção na linha de frente. Pode ser, mas até porque são grandes as chances de, nesse caso, o embate terminar numa soma zero, melhor seria se as duas campanhas se esforçassem para responder ao que as urnas estão solicitando.

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