Mercadante cobra de Meirelles explicação sobre Copom

"Ministro Meirelles, o que aconteceu na sala do Copom, que a minoria vira maioria e depois vira consenso?"

Adriana Fernandes e Renata Veríssimo, da Agência Estado,

18 de dezembro de 2008 | 12h47

O presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o petista Aloizio Mercadante (SP), fez uma dura cobrança ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sobre a última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa de juros inalterada em 13,75% ao ano.   Veja também: Bancos terão R$ 95 bi a mais para emprestar Juro para empresas fica nos 6,25%   Segundo Mercadante, com a divulgação nesta quinta-feira, 18, da ata do Copom, ficou ainda mais difícil entender a decisão, que parece ainda "mais fantástica". O documento mostra que a maioria dos integrantes do Copom apoiava uma redução da Selic em 0,25 ponto porcentual, mas, depois, a decisão unânime do Comitê foi pela manutenção da taxa Selic.   Meirelles rebateu, dizendo que era preciso evitar que a audiência se tornasse uma reunião pós-Copom. "Não podemos transformar essa reunião em réplica da reunião do Copom. Isso geraria uma grande confusão em termos de sinais para os mercados. Precisamos ter cuidado para não fazer desta audiência um pós-Copom", afirmou.   Segundo Meirelles, ao comentar a ata da reunião do Copom, ele poderia inadvertidamente dar sinalizações futuras, o que não é o caso. Ele destacou que estava tendo todo o cuidado para que uma palavra, que tenha sido falada com uma vírgula diferente da ata, não venha gerar sinalizações para o mercado. "Não podemos fazer um pós-Copom porque é altamente inadequado", disse.   Mercadante afirmou ainda que os dados da demanda são importantes, mas mostram um "olhar de retrovisor". O senador disse que há uma recessão global instalada, com o PIB dos Estados Unidos despencando, as economias asiáticas em desaceleração forte e as demissões de trabalhadores já são feitas inclusive no Brasil.   Num discurso duro, que deixou constrangido o presidente do BC, Mercadante afirmou: "se nós continuarmos com uma posição de, quando se pode fazer mais se faz menos, podemos agravar o custo social". Em seguida, perguntou ao presidente do BC: "Ministro Meirelles, o que aconteceu na sala do Copom, que a minoria vira maioria e depois vira consenso?".   Segundo o senador, uma situação dessa seria muito perigosa no Senado Federal com a oposição. Mercadante ponderou que a redução dos juros ajudaria a amenizar a política fiscal e daria mais margem ao governo para fazer uma política anticíclica. Ele disse que, depois da decisão do Copom, vai propor ao Congresso Nacional um projeto para que o voto nominal de cada integrante do Comitê de Política Monetária seja revelado no futuro. Segundo o senador, essa proposta é melhor que a defendida por ele mesmo de transmitir a reunião do Copom.   Crise   Mercadante elogiou a atuação do BC para resolver o problema de liquidez gerado pela crise financeira internacional, mas disse que, mesmo com as explicações de Meirelles, ainda considerava que não ficou claro o que motivou a mudança da maioria dos diretores do Copom, que queriam a redução da taxa Selic. Segundo o senador, essa maioria, que defendia um corte de 0,25 ponto porcentual, foi pulverizada por uma minoria. Mercadante disse que outros bancos centrais do mundo estão fazendo uma ação sincronizada de redução dos juros, o que significa que o spread no Brasil está subindo. Para ele, a queda na Selic daria mais convergência à política econômica. "A ata (do Copom) mostra que não eram só os analistas que queriam uma redução da Selic", disse o senador.   Meirelles insistiu que o fato de se discutir a possibilidade de queda da taxa de juros não quer dizer que houve uma decisão. Segundo ele, em março de 2008, o Copom chegou a discutir uma mudança de rumo na Selic e colocou na ata essas sinalizações, que, de acordo com ele, outros bancos centrais menos transparentes optam por não explicitar na ata. "O que não é o caso do BC brasileiro. Foi a maioria que discutiu a redução de juros, mas não todos", destacou.   Ele discordou da afirmação de Mercadante de que a redução da taxa básica reduziria os spreads. Segundo ele, já houve momentos da economia brasileira em que a Selic caiu e as taxas do mercado subiram. Meirelles destacou, no entanto, que o mercado acredita na atuação do BC para garantir uma inflação cadente e a redução do prêmio de risco. Segundo ele, é essa credibilidade que tem feito com que as taxas de mercado tenham uma trajetória cadente.   Condições da economia   Antes de responder às perguntas de Mercadante, Meirelles havia feito uma avaliação do quadro econômico brasileiro, destacando que o Brasil entrou na crise crescendo de forma firme até o 3º trimestre de 2008. Segundo ele, esse crescimento foi liderado pela demanda interna e que o mercado interno é uma vantagem neste momento para o Brasil para enfrentar a crise. A demanda doméstica, destacou Meirelles, é influenciada pelo aumento do consumo das famílias e pelo crescimento da formação bruta do capital fixo (investimento).   O consumo, a demanda, destacou o presidente do BC, impulsionaram as vendas, o emprego e a massa salarial, posicionando a economia brasileira para continuar a crescer. Ele destacou ainda que as operações de Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACC) estão começando a se regularizar e a oferta de moeda estrangeira.   Segundo Meirelles, as medidas adotadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) ontem vão permitir um aumento dos recursos disponíveis ao mercado de R$ 130 bilhões. Entre as medidas, está a que permite aos bancos que créditos tributários chamados intertemporais possam ser contabilizados como ativos para o cálculo de patrimônio de referência.

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