Mercado acredita em crescimento fraco no segundo semestre e estagnação no ano

No primeiro semestre, PIB recuou 0,5%, segundo cálculos do Goldman Sachs

Agência Estado , O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2014 | 10h19

Para algumas casas do mercado, o resultado do Produto Interno Bruto divulgado nesta sexta-feira, 29, está mais para estagnação do que para recessão. Hoje, o IBGE anunciou queda de 0,6% do PIB no segundo trimestre e revisão do primeiro para baixa de 0,2%.

A economia brasileira está tecnicamente em recessão, mas na avaliação do economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, trata-se, na verdade, de uma recessão estatística, devido à revisão do número do 1º trimestre por conta do cálculo de sazonalidade. "O número é 'exagerado' por conta do que aconteceu em junho e julho devido a menor quantidade de dias úteis", ponderou. "A situação atual está mais para estagnação do que para recessão", disse o especialista, ao comentar os resultados divulgados há pouco pelo IBGE.

Na perspectiva para os próximos meses, o economista do ABC Brasil acredita em melhora. "O segundo trimestre pode ter sido o fundo do poço", disse. "Já temos dados de julho mostrando número melhor, até porque a base comparativa está baixa". Segundo ele, a produção industrial do sétimo mês do ano deve ser positiva. No longo prazo, no entanto, um desempenho melhor da economia dependerá das ações do próximo governo, especialmente no tocante às expectativas, caso contrário o crescimento deve continuar baixo. "Se for no caminho errado, por até ser que não se entre em recessão profunda, mas pode-se ficar fadado a um crescimento baixo além de 2015 e 2016", ponderou.

A opinião é compartilhada por outros especialistas. A despeito dos números negativos, o País não enfrenta uma grande recessão, avaliou o economista-chefe da Icatu Vanguarda, Rodrigo Mello. Ele, no entanto, ponderou, que os indicadores do terceiro trimestre que já foram divulgados colocam em xeque se a economia irá retomar o crescimento neste período. "Ainda não trabalhamos com a hipótese de uma grande recessão. Alguns dados, como os de confiança, colocam em dúvida se o PIB irá crescer", disse, acrescentando que, por enquanto, aguarda alta de 0,50% do PIB fechado de 2014. "Mas está com cara que será menor", completou.

Crescimento zero. A queda de 0,6% dno segundo semestre somada à revisão da taxa relativa aos três primeiros meses do ano, de uma alta de 0,2% para um recuo de 0,2%, projetam um crescimento zero para a economia em 2014. "Não há mais como o PIB crescer nos terceiros e quarto trimestres a ponto de levar a economia a um crescimento superior a zero neste ano porque os investidores e os consumidores vão esperar para tomar decisões de investimentos e compras", disse o sócio-diretor da Global Financial Advisor e consultor econômico Miguel Daoud.

O baixo desempenho do PIB, que acaba de confirmar a situação econômica de recessão técnica, de acordo com Daoud, resulta da má gestão econômica por parte do governo e que tem levado os investidores e os consumidores perderam a confiança na economia. "O Ministério da Fazenda e Banco Central pisam no freio e no acelerador ao mesmo tempo. Só para dar um exemplo mais recente, o Copom aumentou a taxa de juros e o BC liberou compulsório", lembrou o consultor.

De acordo com ele, gestão econômica que leva ao crescimento requer coerência diante dos investidores e consumidores. "Estamos em uma recessão técnica e não me venha o ministro Mantega perguntar que recessão é essa em que o Brasil recebe US$ 60 bilhões de Investimento Estrangeiro Direto (IED) e a taxa de desemprego é uma das menores da história", criticou o consultor.

PIB semestral. O diretor de pesquisas para a América Latina da Goldman Sachs, Alberto Ramos, afirmou que com a magnitude da recessão que o País enfrentou de janeiro a junho sua projeção do PIB para este ano, que é de 0,75%, deve baixar para 0,25%. “O Brasil registrou uma retração de 0,5% no primeiro semestre em relação ao segundo semestre de 2013”, estimou. De acordo com o IBGE, a economia caiu 0,6% no segundo trimestre, na margem, enquanto ocorreu uma revisão do PIB do primeiro trimestre, de uma alta de 0,2% para uma queda de 0,2%.

“Chamou a atenção que diversos setores da economia apresentaram resultados ruins no segundo trimestre, inclusive serviços, que é responsável por uma grande contribuição de geração de postos de trabalho no Brasil”, apontou. “O que ajudou um pouco foi o setor externo. Sem ele, a retração do PIB entre abril e junho seria ainda maior”, destacou.

Os números do PIB do segundo trimestre de 2014 carecem de qualquer aspecto positivo, na avaliação do economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. "Foi pior do que se imaginava, ainda que já trabalhássemos com cenário provável de recessão", comentou. "Comprova que a economia está num cenário muito fragilizado e não sobra elemento positivo", acrescentou.

O economista considerou que o cenário para o terceiro trimestre pode não ser tão negativo e lembrou que houve neste segundo trimestre uma pressão em razão de um temor sobre possíveis efeitos danosos da Copa do Mundo. "Passado o medo do pré-Copa, esperamos um comportamento que seja pelo menos de estagnação", declarou. "Isso não significa que vai ser um resultado espetacular", completou.

(Dayanne Sousa, Francisco Carlos de Assis, Maria Regina Silva, Mário Braga e Ricardo Leopoldo)

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