Patrick Straub/EFE
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Mercado agitado

Especialistas se perguntam se o período de prosperidade da arte está chegando ao limite

O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2015 | 02h05

Durante boa parte da semana que vem, a pista do aeroporto de Basileia ficará movimentada com os jatos particulares que trarão os super-ricos colecionadores de arte de todo o mundo para a feira Art Basel, a mais importante feira de arte moderna e contemporânea do mundo. O evento na cidade suíça, que vai durar até 21 de junho, é apenas uma das mais de 180 feiras internacionais de arte realizadas todos os anos, um aumento em relação às 55 feiras realizadas em 2000, de acordo com relatório recente da Fundação Europeia de Belas Artes (TEFAF).

O documento Art Market Report 2015 da TEFAF mostra que no ano passado o mercado global de obras de arte teve alta de 7% no seu valor, chegando a cerca de € 51 bilhões (US$ 68 bilhões), ultrapassando o auge anterior à crise, € 48 bilhões, registrado em 2007. Antes, havia duas maneiras de colecionar arte contemporânea: viajar pelas galerias de centenas de negociantes, ou participar de leilões. Mas as feiras de arte, onde os colecionadores podem ver e comprar obras de centenas de negociantes, têm respondido por uma fatia cada vez maior do mercado (ver gráfico). No ano passado, quase € 10 bilhões em arte mudaram de mãos nas feiras, representando dois quintos do total de vendas dos negociantes. O calendário de eventos de arte é tão saturado que fala-se cada vez mais em "exaustão de feiras" - um cansaço entre visitantes e expositores.

A firma de pesquisas Skate's diz ter números para comprovar a tendência. Empresas e indivíduos donos de feiras de arte não costumam informar números precisos, de modo que a pesquisa da Skate's teve como base os melhores dados que foi possível encontrar: o número do total de visitantes e expositores divulgado pelas 12 principais feiras realizadas no primeiro trimestre do ano. Revelou-se que, pela primeira vez em dez anos, os números tiveram aumento abaixo de 10%. A Skate's destaca a Armory Show, em Nova York (crescimento de 0% entre os visitantes, 9% de galerias a menos) e a irmã da feira Art Basel em Hong Kong (7,7% visitantes a menos, 4,9% galerias a menos). A conclusão: o mercado de belas artes parece estar "esfriando", principalmente porque as vendas de arte online estão invadindo esse espaço.

Desde a sua divulgação, em abril, o levantamento da Skate's parece ter colocado o dedo na ferida. Num relatório a ser lançado pelo Citigroup, The Global Art Market, Noah Horowitz, diretor executivo da Armory Show, diz que os números da Skater's "não convencem". Ele diz que a Armory recebeu um número recorde de inscrições de negociantes para o evento em março, mas optou por um menor número de cabines maiores, para manter a qualidade e evitar a superlotação. Horowitz diz que há uma regra prática segundo a qual um terço dos expositores lucra com as feiras, e outro terço evita o prejuízo. O restante ainda frequenta os eventos, ainda que suas vendas não cubram seus custos, para reforçar as relações com os colecionadores. Em relação à internet, Horowitz diz que a rede não está canibalizando o ramo das feiras de arte, já que muitas pessoas gostam de pesquisar antes de comprar, e serviria na verdade como veículo para vendas adicionais.

O diretor da Art Basel, Marc Spiegler, diz que a Art Basel Hong Kong teve menos visitantes esse ano porque o período de vendas de ingressos foi mais curto: a feira foi transferida de maio para março, e o local tinha menos dias disponíveis naquele mês. Além disso, diz ele, o número de visitantes representa apenas 10% da receita; as principais contribuições são a contratação de cabines e serviços (60%) e patrocínios (30%). Ele concorda que, "em algum momento", o número de feiras se tornará grande demais, e algumas vão falir. Mas esse momento ainda está distante. "Estamos falando de um mercado que ainda apresenta crescimento bastante rápido", destaca ele.

Nos anos mais recentes várias feiras novas foram anunciadas. Em 2012, a Frieze Art Fair, de Londres, inaugurou a Frieze Masters (com foco na arte histórica), também em Londres, e a Frieze New York. A diretora da Frieze, Victoria Siddall, diz que, com economias de escala, a lucratividade do negócio aumentou. Desde 2013, o empreendedor britânico Tim Etchells, do ramo de eventos, anunciou três novas feiras: Art15, em Londres (a primeira edição foi Art13, número do ano de realização), Sydney Contemporary e Art Central, em Hong Kong. Etchells diz que suas feiras são voltadas para o público de compradores de arte secundários: indivíduos ricos que compram poucos objetos por ano, mas são dados a compras impulsivas quando veem algo irresistível.

Independentemente disso, há indícios que o mercado tem limites. Quando a Art Basel decidiu montar uma feira em Hong Kong, ela comprou uma feira já existente - ArtHK, cofundada por Etchells - em vez de criar uma feira a partir do zero. A grande feira de arte de Paris, FIAC, adiou por dois anos o lançamento de uma filial em Los Angeles, planejado para este ano. Os negociantes de arte torceram o nariz para o local escolhido, um centro de convenções na região central da cidade, indicando que o apetite por novas feiras estaria diminuindo.

Clare McAndrew, da Arts Economics, que compilou os dados do relatório da TEFAF, prevê que o mercado de feiras de arte vai se consolidar, com um pequeno número de grandes concorrentes passando a dominá-lo, como ocorre com Christie's e Sotheby's no ramo dos leilões. Levando em consideração a força do mercado global de arte, talvez seja precipitado falar em cansaço das feiras. Mas não há dúvida que a indústria está amadurecendo, e seus maiores participantes estão agora se concentrando na qualidade, e não apenas no crescimento.

TRADUZIDO POR AUGUSTO CALIL, PUBLICADO SOB LICENÇA. O ARTIGO ORIGINAL, EM INGLÊS, PODE SER ENCONTRADO EM WWW.THEECONOMIST.COM

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