Mercado aguarda com pessimismo resultado do PIB do trimestre

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deve divulgar nesta quarta-feira o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre em relação ao trimestre anterior. É possível que esta seja a primeira retração na comparação com o trimestre anterior, após oito períodos consecutivos de crescimento. Pesquisa da Agência Estado junto a 20 analistas aponta que o mercado financeiro espera um resultado entre uma queda de 0,50% até uma alta de 0,20%. Neste grupo, no entanto, prevalece o tom mais pessimista, com 75% das projeções contando com uma retração da atividade no período. Parte do mercado já previa no mínimo uma estagnação do crescimento no terceiro trimestre há alguns meses, mas foi logo após a divulgação da produção industrial de setembro em relação a agosto (de -2% com ajuste sazonal), que os economistas se renderam ao ?efeito manada? e deslocaram suas previsões para o terreno negativo do período quase que ao mesmo tempo. O mercado financeiro ainda acredita em um crescimento do PIB no terceiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. De acordo com o grupo de analistas consultados pela Agência Estado, a expansão nesta base de comparação será de 1,5% a 2,5%, bem mais baixa do que a de 3,9% registrada no segundo trimestre ante os mesmos meses de 2004. Para o ano, o cenário com que trabalha o mercado financeiro atualmente é de um crescimento do PIB de 2,7% a 3,3%. Mesmo o teto das estimativas é bem inferior ao resultado obtido em 2004, quando a expansão (já revisada) foi de 4,90%. E esta diferença pode ficar ainda maior depois dos dados de hoje. Pesquisa indica pessimismo A pesquisa Focus, por exemplo, mostrou nesta semana um ajuste médio das estimativas de 3,09% para 3,00%. Mesmo assim, o governo prefere manter sua projeção de crescimento de 3,4%, como explicou na semana passada o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, alegando que ainda é cedo para se falar numa taxa menor. "Acho que teremos um resultado modesto no terceiro trimestre, mas os dados preliminares mostram que em outubro e novembro houve uma aceleração grande da economia", argumentou ele, em entrevista à jornalista Renata Veríssimo, da Agência Estado. Na véspera, o secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, dissera que aguardaria a divulgação do PIB do terceiro trimestre pelo IBGE para decidir se faria alguma revisão na projeção do crescimento do PIB neste ano. Divergências no governo Este cenário negativo reforça a briga entre o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. O jornal Financial Times destacou nesta semana que a resistência da economia brasileira diante da crise política, as altas taxas de juros e a valorização do real, "pode finalmente estar chegando a um final". Segundo o diário financeiro, a economia cresceu durante oito trimestres consecutivos, mas muitos economistas prevêem que os números do terceiro trimestre vão mostrar, no mínimo, uma estagnação. "Na semana passada o ministro Antonio Palocci venceu um embate emergindo fortalecido em seu cargo. Uma economia em queda o colocaria novamente na linha de tiro", afirma o jornal britânico. O FT observa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva insistiu na semana passada que a economia continua nos trilhos para atingir meta de crescimento do governo de 3,4% do PIB. "Mas membros do governo afirmam nos bastidores existir pouca possibilidade que a meta de Lula será cumprida", afirma o jornal. Uma das causas para isso é o escândalo político. "O governo vem sendo alvo nos últimos seis meses de acusações de compra de votos e financiamento ilegal de campanha, tornando os consumidores e investidores compreensivelmente cautelosos". O FT afirma, no entanto, que o maior impacto é causado pelos elevados custos dos empréstimos e do fortalecimento do real. Segundo o jornal, em dólares, o custo para a produção de um caminhão no Brasil é o mesmo que na Suécia, e maior do que no leste europeu. A alta do real também representa uma ameaça às exportações do País. O FT observa que se os indicadores que serão divulgados hoje forem negativos como alguns analistas esperam, isso poderá também ter um impacto negativo extra. "Antônio Palocci, campeão da austeridade que tem garantido a estabilidade e respeitabilidade internacional do Brasil, está sob crescente ataque de outros ministros ansiosos em incentivar expansão com a aproximação da temporada eleitoral no próximo ano", disse. De acordo com essa avaliação, o BC "errou na mão" ao elevar a taxa de juros até 19,75% ao ano e mantê-la nesse nível durante quatro meses. Essa elevação teria inibido a retomada dos investimentos das empresas. Reforço para Dilma A queda na atividade fortalece a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que tem argumentado a favor de uma redução mais forte dos juros. Dilma seria fortalecida também, segundo essas avaliações, porque não são poucas as vozes no governo que defendem a ampliação dos gastos públicos justamente para ajudar na retomada do crescimento econômico a partir do último trimestre. Os dados disponíveis no governo indicam que houve uma melhoria da atividade econômica nas três primeiras semanas de novembro. A análise que está sendo feita, no entanto, é que, mesmo com um bom desempenho no último trimestre, o crescimento de 2005 ficará, na melhor das hipóteses, em torno de 3%. O resultado é considerado "muito ruim" por líderes da base aliada, pois a expectativa criada para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela equipe econômica, argumentam, foi de que o PIB aumentaria 4% este ano. Lula chegou a falar nos 4% em recente viagem ao exterior. A crítica mais contundente que está sendo feita ao ministro Palocci por outros integrantes do governo é que os outros países emergentes estão em ritmo de crescimento muito mais acelerado. A China deve crescer mais de 8%; a Índia, de 7%; a Malásia e a Rússia, de 6%; a Tailândia, a Indonésia e as Filipinas, de 5%; e os vizinhos Chile e Argentina, acima de 6%. "Esse é o problema da política econômica de Palocci", resumiu um informante. Ajuste fiscal de longo prazo O ministro da Fazenda tem argumentado, nas discussões internas do governo, que é preciso criar condições para uma queda mais rápida dos juros. Somente assim, diz o ministro, será possível retomar o crescimento em ritmo mais acelerado. As condições para a queda dos juros seriam dadas, na opinião de Palocci, pela aceitação, pelo conjunto do governo, do programa de ajuste fiscal de longo prazo, elaborado conjuntamente com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. Esse programa prevê a fixação de um limite para as despesas correntes não financeiras da União, que cairiam 0,2% do PIB ao ano, pelo prazo de 10 anos. Esse plano foi considerado "rudimentar" pela ministra Dilma Rousseff.

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