Mercado ainda está calmo sobre consequências no País

Brasil sentiria impacto inicial, mas analistas não creem que a turbulência traria desvalorização [br]significativa do real

Fernando Dantas / RIO, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2011 | 00h00

O mercado financeiro está relativamente calmo quanto às possíveis consequências no Brasil de uma não elevação do teto do endividamento americano. É claro que o País não ficará imune no caso de uma grande turbulência financeira global, que poderia ser provocada pela suspensão de pagamento de algum título da dívida pública americana ou pela ameaça de que isso venha a ocorrer. Por outro lado, o Brasil tem hoje alguma gordura para lidar com o agravamento da situação internacional.

O risco maior, para o Brasil, vem pelo canal financeiro e cambial. A crise de 2008 e 2009 mostrou que mesmo países que não passaram pelo processo de formação de bolha e seu posterior estouro, como o Brasil, sofreram um forte impacto inicial da turbulência.

Isso ocorre, como explica Gino Olivares, economista-chefe da Brookfield Gestão de Ativos, por causa do aumento global da aversão a risco quando ocorrem crises muito intensas. Ele acha, entretanto, que se houver alguma pressão de desvalorização do real, o Banco Central poderia atenuar a política de intervenção, que tem sido justamente a de evitar que a moeda brasileira se valorize demais. As reservas de US$ 340 bilhões, claro, ajudam.

"Acho difícil que haja uma grande desvalorização do real", diz ele, frisando que o cenário de não elevação do teto de endividamento americano ainda é algo muito difícil de se imaginar.

Um aspecto que torna complicado prever consequências, de acordo com André Loes, economista-chefe para a América Latina do HSBC, é que normalmente o aumento da aversão global ao risco acarreta justamente uma corrida para o dólar e os títulos do governo americano. Mas se a crise viesse justamente do risco de um default nos Estados Unidos, não faria sentido fugir para ativos americanos.

Correr para o euro, dada a crise europeia, também não parece ser o caminho natural dos investidores neste momento, avalia Loes. Ele acha que pode haver uma corrida para o ouro, mas considera que a situação é tão inédita que seria difícil prever o comportamento dos mercados.

Corrida ao real. Em relação ao real, Loes não pensa que seria ainda o caso de haver uma corrida de capitais para o Brasil, apesar dos bons fundamentos econômicos do País. Por outro lado, como boa parte dos recursos que vêm para a economia brasileira é de longo prazo, como o investimento direto, Loes diz que uma crise externa mais forte não afetaria tanto os fluxos.

O impacto poderia até ser positivo, já que a atual crise nos Estados Unidos - mesmo que o teto acabe sendo elevado - sinaliza uma paralisia política no país, que pode ter consequências ruins para a economia em outros momentos decisivos no futuro. Assim, os capitais produtivos buscariam novos destinos, e o Brasil poderia se beneficiar. "Mas não seria uma chuva de dinheiro", ressalva, lembrando que, no curtíssimo prazo, no caso da não elevação do teto, o Brasil pode sentir a "sacolejada".

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