Mercado aposta na queda dos juros

Com a significativa melhora do cenário externo e a acomodação da inflação doméstica, boa parte do mercado passou a acreditar que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai cortar os juros na reunião dos dias 19 e 20, de 16,5% para 16% ao ano. Essa aposta ficou mais clara ontem, quando as instituições financeiras pediram taxas bem menores do que na semana passada para comprar os títulos do Tesouro. O diretor-vice-presidente do Banque Nationale de Paris (BNP) Paribas, Carlos Calabresi, é um dos que apostam na queda dos juros. Ele lembra que os problemas que vinham impedindo o recuo das taxas nas últimas reuniões do Copom estão bem encaminhados, ainda que não completamente resolvidos. Calabresi destaca a forte queda dos preços do petróleo, ocorrida nas últimas semanas, e a expectativa de que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) poderá começar a derrubar os juros até o fim do primeiro trimestre do ano que vem. "Os mercados futuros apontam queda das taxas nos Estados Unidos." Ele também acredita que o acordo entre a Argentina e o FMI deve sair em breve, tranqüilizando o mercado. Com um cenário externo mais calmo e uma inflação acomodada, o quadro seria bastante propício para a redução da Selic, a taxa básica referencial da economia para 16%. Outro indicador que mostra a aposta num corte de juros é o comportamento da taxa das operações prefixadas de um ano, que recuou de 18,39% no fim de novembro para 17,52% no fechamento de ontem.O diretor-executivo de Tesouraria do Banco Fator, Sérgio Machado, também crê na queda da Selic. Como a melhora no cenário externo foi bastante acentuada, o Copom deve aproveitar a oportunidade para reduzir os juros, afirma ele. Machado lembra que as declarações do presidente do Fed, Alan Greenspan, indicando que poderá cortar as taxas para evitar uma desaceleração excessivamente brusca da economia norte-americana, foram decisivas para a redução da instabilidade nos mercados internacionais.Mas há quem acredite numa opção mais conservadoraMas nem todo os analistas acreditam no recuo da Selic. O economista-chefe do Chase Manhattan Bank, Luís Fernando Lopes, diz que, se a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) fosse hoje, a instituição optaria por manter os juros, indicando apenas o viés de baixa, autorização para o presidente do Banco Central reduzir a Selic quando julgar conveniente, sem necessidade de reunião do Copom.Segundo ele, a decisão dos deputados argentinos de excluir do orçamento o corte de salários dos funcionários públicos pode adiar a aprovação do acordo com o FMI, mesmo que o presidente Fernando de la Rúa vete a medida. Foi essa notícia, aliás, que levou a taxa das operações prefixadas de um ano a fechar estável ontem, em 17,52%, depois de bater na mínima de 17,35%. Além das incertezas em relação à Argentina, Lopes lembra que o orçamento argentino para 2001 ainda não foi aprovado. Essas indefinições podem impedir uma melhora na percepção do risco de investir no Brasil. Com isso, o câmbio tenderia a continuar um pouco pressionado. Se essas incertezas permanecerem, o Copom deve ser mais conservador do que o mercado imagina, entende Lopes. O sócio-diretor da Roserberg & Associados, José Augusto Savasini, também acredita na adoção do viés de baixa se o acordo com a Argentina não sair nos próximos dias. Mas, se essa dúvida for dissipada, o Copom poderá baixar os juros.

Agencia Estado,

13 de dezembro de 2000 | 08h11

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