Mercado: Argentina e crise política dão o tom

Ontem os receios dos investidores foram agravados pelo noticiário. Na Argentina, enquanto o novo Ministro da Economia, Ricardo López Murphy, indicava sua equipe, acalorados debates políticos já davam a mostra das resistências, mesmo dentro da base aliada do governo, a novas medidas de austeridade. Murphy chegou prometendo cortes profundos nos gastos públicos e até algum alívio na carga tributária, mas a Argentina está em recessão há 30 meses com altas taxas de desemprego. Há pouca tolerância na sociedade para mais dificuldades. E os argentinos, com a memória de duas hiperinflações recentes, não estão dispostos a renunciar ao câmbio fixo em paridade com o dólar. Dois respeitados analistas de economia e política internacional declararam ontem ao Congresso dos EUA que o empréstimo de cerca de US$ 40 bilhões de dólares coordenado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em dezembro não fez mais do que adiar temporariamente uma crise financeira na Argentina. A crítica é que o principal entrave para a recuperação da economia do país é o câmbio fixo, e os créditos apenas aumentaram a dívida em moeda estrangeira e provavelmente não virá um segundo pacote de ajuda quando o doloroso ajuste cambial acabar sendo feito.O alerta de que uma crise no país vizinho é apenas uma questão de tempo piorou os ânimos no mercado, que já estava apreensivo. O agravamento da crise política envolvendo o Executivo federal e sua base no Congresso também preocupa. O governo pode ficar paralisado e 2002 é ano eleitoral. Como a economia norte-americana está muito desacelerada, também não há grande perspectiva de um entusiasmo de investidores estrangeiros reverter os humores. O mais provável é que, enquanto a situação argentina continuar precária e a crise política não ficar para trás, os mercados mantenham a cautela.

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