Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Mercado projeta barril de petróleo a US$ 130; novo reajuste dos combustíveis pode sair esta semana

Estimativa de alta do petróleo leva em consideração a continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia, além da capacidade da China de vencer a covid-19

Wagner Gomes, Gabriel Vasconcelos e Denise Luna, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2022 | 10h30
Atualizado 14 de junho de 2022 | 17h22

SÃO PAULO E RIO - Enquanto o governo tenta encontrar saídas para a redução do preço dos combustíveis - como o projeto que limita a cobrança de ICMS em 17%, aprovado na segunda-feira, 13, no Senado -, o preço do petróleo segue elevado no mercado internacional, aumentando as pressões por um novo reajuste. Nesta terça-feira, 14, o preço do óleo tipo Brent fechou cotado a US$ 121,17, em queda de 0,90%, enquanto o petróleo WTI encerrou o dia cotado a US$ 118,93, em queda de 1,65%.

Bancos e corretoras acreditam que o preço do petróleo pode passar de US$ 130 o barril no médio prazo e chegar até o fim do ano em US$ 150, como previu o Morgan Stanley em relatório divulgado recentemente. O movimento leva em consideração a continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia, além da capacidade da China de vencer a covid-19.

Esse movimento de alta pressiona ainda mais os preços no mercado brasileiro. Atualmente, os preços do diesel e da gasolina acumulam uma defasagem de 16% em relação ao mercado externo. Além do preço do barril em alta, a cotação do dólar, que voltou a atingir a casa dos R$ 5,10, também acaba influenciando os preços no mercado interno.

Com esse cenário, a expectativa é que a Petrobras anuncie um reajuste, pelo menos para o diesel, ainda esta semana, segundo fontes ligadas às estatal ouvidas pelo Estadão/Broadcast. O governo federal, no entanto, vem fazendo todos os esforços para evitar isso. A gasolina está há 95 dias sem aumento, enquanto o diesel está congelado há 32 dias

O congelamento do preço dos combustíveis tem sido buscado pelo governo para tentar segurar a inflação. A economia é um dos fatores que têm prejudicado a campanha do presidente da República, Jair Bolsonaro, a reeleição. Bolsonaro tem sido um crítico feroz da política de preços da Petrobras, que acusa de ter lucros excessivos. Três presidentes da estatal já foram demitidos nos três anos e meio de sua gestão.

Mas, na Petrobras, segundo fontes, o clima é de que o aumento não pode passar desta semana, visto que a crise global ameaça o País de desabastecimento, principalmente de diesel a partir de agosto. Na semana passada, a companhia enviou uma nota à imprensa alertando para dificuldades no mercado global de diesel e reafirmou sua política de preços alinhados aos do mercado internacional, única forma de manter as importações ativas por outros agentes e assim evitar a falta do combustível no País.

Na manhã da última sexta-feira, 10, o diretor de relações Institucionais e Sustentabilidade da estatal, Rafael Chaves, criticou indiretamente, as tentativas de controle do governo. "Se a gente achar que tem alguém iluminado, no Legislativo, Executivo ou Judiciário, que é iluminado e usa a caneta para definir preços, estamos errados", afirmou.

"A defasagem dos preços dos combustíveis é grande e será difícil a Petrobras não fazer mais um repasse de preços. Se não fizer isso, o mercado enxerga como intervenção na estatal", diz Carlos Castrucci, sócio fundador da HOA Asset.

Preços futuros

Para Pedro Galdi, analista da Mirae Asset, apesar da guerra no leste europeu, o que vai comandar o preço do petróleo será, principalmente, a capacidade da China de conseguir vencer a onda de covid em Shangai e Pequim e voltar ao seu normal. "Trabalhar com o barril a US$ 150 é considerar que a oferta continue escassa de petróleo e a economia global se recupere. Mantidas as condições atuais, ficar entre US$ 120 e US$ 140 parece razoável", diz.

O banco Goldman Sachs diz que o Brent deve bater US$ 135 o barril para mitigar o problema de escassez da commodity. Para o Bank of America, O WTI deve em breve chegar a US$ 140.

João Frota, analista da Senso Investimentos, diz que a visibilidade é turva para se falar em preços futuros do Brent e WTI, já que a variável mais importante em jogo é a guerra da Rússia com a Ucrânia. Para Frota, na hipótese do conflito ser resolvido no curto prazo, a cotação da commodity deve ficar mais próxima de US$ 90 o barril. Na hipótese de um prolongamento da guerra, que é o cenário mais viável, o preço futuro do barril deve ficar entre US$ 125 e US$ 130.

"Temos de olhar não apenas a questão da oferta e demanda atual, que está ajustada e equilibrada. Os Estados Unidos estão voltados para a produção de energia limpa no governo de Joe Biden e puxa a demanda da commodity (além do preço). Mas a hipótese de um freio forte na economia dos EUA é bem plausível, visto a alta dos juros", afirma Frota.

Por aqui, diz o analista, o estatuto da Petrobras acaba blindando a empresa de intervenções mais exageradas nos preços. Para ele, o que o presidente da República pode fazer, e tem feito, é demitir o presidente da companhia.

Castrucci, da HOA Asset, diz que há muita coisa na mesa que dificulta estimar o preço do barril do petróleo. Ao mencionar a oferta, ele diz que há problema com a guerra no leste europeu, o que significa que, enquanto houver sanções à Rússia, haverá pressão nos preços.

"Mas não se sabe o dia de amanhã. Se o conflito for encerrado, é possível que a pressão sobre a oferta seja reduzida. Do lado da demanda, ainda estamos vendo aquecimento por petróleo e energia, mas estamos à beira de uma potencial desaceleração ou até recessão global", comenta.

Produção maior

Sobre a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) de elevar a produção da commodity em 648 mil barris por dia (bpd) em julho, Castrucci diz que a medida é insuficiente para equilibrar as relações de oferta e demanda. A medida foi tomada há uma semana, após o cartel observar a reabertura recente de grandes economias que estavam em quarentena, além da previsão de que o refinamento global do óleo "aumente após manutenção sazonal".

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