Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

Mercado cobra critérios ESG mais claros de companhias e gestoras de fundos e de recursos

Mesmo empresas com tradição em sustentabilidade falham ao medir impacto social e econômico de suas iniciativas, dizem especialistas consultados pelo 'Estadão'

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 05h00

RIO - A importância crescente dos indicadores ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) nas decisões de investidores põe em xeque a consistência das informações prestadas por companhias, gestoras de fundos e de recursos. Especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast apontam que ainda faltam metodologias e padrões que permitam uma cobrança uniforme pelo investidor. Na prática, os dados não são inteiramente confiáveis.

A carta que endereçou questões climáticas, escrita pelo presidente da BlackRock – maior gestora do mundo, com US$ 7,2 trilhões sob gestão –, Larry Fink, foi um alerta sobre a má qualidade dessas divulgações. No documento, lançado em janeiro, ele pede transparência e padronização não só na questão ambiental, mas também no que se refere ao tratamento da força de trabalho e aos cuidados com a proteção de dados.

Fink prega a adoção das diretrizes do Sustainability Accounting Standards Board (SASB), organização que fornece padrões para relatar informações de sustentabilidade que tenham maior potencial de afetar a performance financeira de uma companhia. Para avaliar e relatar riscos relacionados ao clima e questões de governança essenciais para gerenciá-los, menciona as recomendações da Força Tarefa Sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD). 

A sopa de letrinhas dá uma ideia da complexidade do tema. A Organização Internacional das Comissões de Valores (Iosco) – que reúne reguladores do mercado de capitais – mapeou mais de 50 iniciativas diferentes de padronizações de dados. 

Segundo José Alexandre Vasco, superintendente de proteção e orientação a investidores da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os reguladores se preocupam de que a profusão de padrões, aliada à falta de uma definição comum de atividades sustentáveis, possa elevar o risco de “greenwashing” – investimentos que são feitos para dar reputação à empresa, mas que não podem ser medidos de forma confiável.

Trilhões

Os números atestam que ignorar as demandas “sustentáveis” não é uma opção. A BlackRock é só uma das 3.038 instituições signatárias do programa Princípios para o Investimento Responsável (PRI). Juntas, elas têm US$ 103,4 trilhões em ativos sob gestão, contra US$ 6,5 trilhões do ano de 2006, quando o projeto foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU). A tendência é que o volume só cresça. 

Uma pesquisa da KPMG aponta que 85 das 100 maiores empresas brasileiras de capital aberto divulgam dados ambientais, sociais e de governança. Para o sócio da área ESG da consultoria, Ricardo Zibas, as companhias locais comunicam de forma eficiente essas questões – mas há espaço para melhorar. O descompasso entre a divulgação dos dados financeiros e as informações ESG, por exemplo, dificulta o cruzamento dos resultados das duas áreas.

Para a superintendente de sustentabilidade da B3, Gleice Donini, há uma busca de aprimoramento em curso. No entanto, as respostas ao questionário feito pela Bolsa às 30 companhias que compõem a carteira do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) revelaram que mesmo esse grupo seleto tem bastante espaço para melhorar. Apenas 52% desses negócios produzem relatórios com integração de dados econômicos e ESG.

Integrante do índice, a empresa de energia EDP publica relatório de sustentabilidade há 15 anos. Para Marília Nogueira, gestora de relações com investidores da EDP Brasil, a carta da BlackRock foi um marco por colocar as alterações climáticas como fator decisivo para as empresas no longo prazo. “Diretrizes como o SASB (de padrões de sustentabilidade) são fundamentais, pois permitem análises comparativas sobre aspectos e indicadores. A padronização e a transparência são cada vez mais exigidos pelo mercado.”

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