Mercado de câmbio: quem quebrará a cara?

Em entrevista à Folha de S.Paulo no dia 19 de outubro, o ministro Guido Mantega afirmou que "quem apostar na alta do dólar vai quebrar a cara". Se isso for sinônimo de prejuízos aos agentes econômicos, num contexto em que houver insistência na atual política econômica, todos devem quebrar a cara, independentemente das posições assumidas.

Nathan Blanche, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2014 | 02h05

Em agosto de 2013, acompanhando os mercados internacionais, o real sofreu forte desvalorização, atingindo a taxa de R$ 2,45/US$. Para evitar uma escalada inflacionária, sem fazer uso dos instrumentos clássicos de política econômica, o governo, provavelmente por conveniência, resolveu mudar a política cambial. Não só tirou o IOF sobre algumas linhas de investimentos externos, para facilitar o ingresso de divisas, como passou a vender dólar futuro por pelo mecanismo de swaps cambiais. Desde então, o Banco Central (BC) interveio no mercado de câmbio, colocando cerca de US$ 250 bilhões em swaps. Hoje, o BC mantém uma posição líquida de US$ 105 bilhões.

É fácil concluir que fracassou a estratégia do governo ao fazer uso de políticas alternativas ante as opções clássicas de política monetária e fiscal para o combate da inflação. Basta ver que:

A taxa de câmbio voltou a superar os R$ 2,45/US$;

O IPCA acumulado em 12 meses está acima do teto da meta de inflação, de 6,5%;

As exportações estão em queda de 3,3%, ante 2013, e o saldo da balança comercial é deficitário;

O real está entre as moedas mais voláteis e de maior desvalorização no mercado internacional no período;

A diferença de prêmio de risco entre o Brasil e a média dos países latino-americanos do Pacto do Pacífico (México, Chile, Peru e Colômbia) é superior a 50 pontos. O prêmio do CDS de 5 anos do Brasil é de 150 pontos, ante os 100 pontos na média desses países;

O déficit em conta corrente deve encerrar o ano perto de 4% do PIB. Em 2011, representava 1,7%.

No discurso eleitoral do governo, o BC tem ligações com o mercado financeiro e, por isso, não poderia ser independente. Mas os grandes prejudicados pela confusa política cambial atual são, essencialmente, os empresários da economia real, principalmente os que têm passivos cambiais e necessidades de financiamento em moeda estrangeira.

Vale mencionar que, ao anunciar as reservas internacionais como garantia irrefutável de solidez, o governo se esquece de que o Brasil possui um substancial passivo externo de curto prazo, o que reduz o peso desse colchão. Ao subtrair dos US$ 380 bilhões de reservas a necessidade de financiamento em 12 meses (US$ 160 bilhões), restariam apenas US$ 220 bilhões. Há também a posição de US$ 100 bilhões em swaps, que, embora não envolva diretamente a entrega do principal, traz consigo o risco da variação cambial. Ademais, deve-se considerar o equivalente a US$ 260 bilhões em ações no País detidas por estrangeiros, que podem ser rapidamente retirados (ainda que em parte) no caso de uma crise aguda de confiança.

Por fim, é importante atentar para a questão dos fundamentos que determinam as expectativas dos agentes e, em última instância, a formação dos preços dos ativos. Há uma contínua piora dos fundamentos econômicos do País nos últimos anos, que já resultou na redução do rating brasileiro neste ano e gera a ameaça de perda do grau de investimento se tal trajetória não for revertida. Ainda que não se repita o evento traumático de 2002, quando o dólar alcançou R$ 4,00/US$, uma desvalorização intensa do câmbio é um risco evidente, o que agregaria novas pressões inflacionárias e na curva de juros futuros. Tal cenário se agrava ao considerarmos a necessidade do Brasil de atrair poupança externa para financiar investimentos, bem como a participação não desprezível dos estrangeiros no financiamento da dívida pública, em torno de 15%.

Em suma, declarações oficiais como a do ministro não contribuem para aliviar o quadro atual de perda de confiança. Se for mantida a atual política econômica, tudo indica que quem vai quebrar a cara é o Brasil.

*Nathan Blanche é sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada 

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