Mercado de capitais deixou de ser alternativa para empresas

Recursos levantados pelas companhias no mercado tiveram queda de 82,5% no 1º trimestre ante o mesmo período de 2014

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

03 Maio 2015 | 22h16

A situação das grandes empresas também não tem sido fácil nos últimos meses. Depois de surfar na onda do mercado de capital nos últimos anos – com emissão de ações, debêntures, comercial papers e bônus –, em 2015 elas pisaram no freio. As operações no mercado doméstico e internacional tiveram o pior resultado dos últimos sete anos, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

O total de recursos levantado pelas companhias brasileiras no mercado no primeiro trimestre deste ano apresentou queda de 82,5% em relação a 2014 e foi inferior até mesmo ao resultado de 2009, que já tinha sido ruim. De janeiro a março de 2014, foram captados R$ 66 bilhões. Neste ano, o volume foi de R$ 10,1 bilhões.

A preocupação é com as empresas que têm vencimento de dívidas (especialmente em dólar) neste ano – da ordem de R$ 150 bilhões. Normalmente, as companhias não pagam esses valores. No jargão do mercado, dizem que elas “rolam” as dívidas. Ou seja, emitem novos papéis para pagar os antigos.

“Ainda há interesse do investidor estrangeiro pelo Brasil. Mas eles estão aguardando para ver se o plano de ajuste do governo vai dar certo ou não”, afirma o economista Ernesto Lozardo, professor da FGV São Paulo. “O cenário de ajuste é difícil. Não vamos crescer este ano, mas a expectativa é de melhora. Nos próximos dois anos, o País estará mais arrumado.”

Segundo ele, hoje há um descompasso entre o ajuste econômico proposto pelo governo e a disposição política no Brasil. “A rivalidade de partidos no Congresso contra o governo cria uma expectativa negativa para aprovar o plano.”

Além disso, diz ele, a taxa de juros em alta desincentiva as operações no mercado de capitais. Se o papel do governo paga uma taxa alta, porque o investidor vai se arriscar comprando o papel de uma empresa privada, questiona ele.

Nesse cenário, a preocupação da Associação Brasileira de Infraestrutura (Abdib) é com o programa de concessão que o governo federal promete lançar ainda neste ano. “Estamos trabalhando nesse assunto e o que mais chama a atenção é o crédito. Hoje, o quadro é bem diferente de um ano atrás. As condições estão mais difíceis”, afirma o vice-presidente executivo da associação, Ralph Lima Terra.

Segundo ele, o governo terá de criar condições para garantir a atratividade para o investidor privado. A tarefa não será fácil, especialmente porque o governo terá de atrair não só o investidor nacional como o estrangeiro. Com as grandes construtoras envolvidas na Operação Lava Jato, o desafio será encontrar substitutos para arrematar os empreendimentos incluídos no programa de concessão.

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