ALEX SILVA/ESTADAO
Mercado de carros deve atenuar quebra do comércio com a Argentina ALEX SILVA/ESTADAO

Mercado de carros deve atenuar quebra do comércio com a Argentina

Reação da indústria automotiva argentina e acordo das montadoras com o governo local para liberar importações pode recolocar o país entre os três maiores destinos das exportações brasileiras

Eduardo Laguna e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2020 | 16h56

A reação do mercado automotivo na Argentina, combinada a um acordo das montadoras com o governo local para liberar as importações de carros, pode ajudar a recolocar rapidamente o país entre os três maiores destinos das exportações brasileiras.

Frente à Argentina, a diferença de exportações a favor da hoje terceira colocada Holanda, que era de US$ 400 milhões até julho, caiu para US$ 205,5 milhões no mês passado em resultados acumulados desde janeiro.

Após zerar com a parada das fábricas em abril, a produção argentina de carros de passeio e veículos utilitários leves voltou a superar 25 mil unidades em agosto, enquanto as vendas, novamente acima de 28 mil, voltaram a níveis pré-pandemia.

Essa melhora decorre, segundo analistas, das próprias disfunções da economia argentina. A abertura do gap entre o câmbio paralelo e a cotação oficial da divisa, pela qual os preços dos carros são fixados, faz com que os automóveis sejam mais acessíveis aos argentinos que guardam dólares em casa.

Além disso, num país onde a inflação passa de 40% em 12 meses, os carros tornaram-se instrumentos de proteção patrimonial na Argentina, já que episódios históricos de bloqueio de saques de contas bancárias e de maquiagem da inflação oficial - base da remuneração das aplicações financeiras - geraram uma postura de resistência da população em investir pelo sistema financeiro.

No início do mês, o governo local acertou com a indústria automobilística um acordo para liberar as importações de 96 mil veículos até o fim do ano. A contrapartida das montadoras será exportar 15 mil carros além do que estava previsto para que a balança comercial de veículos da Argentina feche o ano com saldo positivo de US$ 1,8 bilhão.

Como a maior parte desses fluxos acontece dentro do arranjo de integração dos dois maiores parceiros do Mercosul, e levando-se em conta que carros e autopeças formam as principais categorias da pauta do comércio bilateral, a tendência é de reativação da corrente comercial nos próximos meses.

Pode ser o suficiente para devolver tanto ao Brasil quanto à Argentina as posições que passaram a ser ocupadas nas balanças dos dois países por fornecedores de fora do continente. Retomar a força que essa relação comercial tinha antes vai depender, contudo, da estabilização da economia argentina.

Na avaliação de analistas em comércio exterior, há motivos para otimismo em relação a um cenário melhor no ano que vem, sendo o principal deles o fato de a Argentina ter fechado um acordo com credores privados de uma dívida de US$ 100 bilhões, o que permitirá ao país sair da moratória.

O passo seguinte, espera-se, é um novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), com quem a Argentina tenta adiar em quatro anos o início do pagamento de um passivo de US$ 44 bilhões.

A partir desses acertos, será possível tirar a pressão sobre as contas externas que afeta a capacidade da Argentina de realizar transações comerciais com o exterior.

Segundo Welber Barral, estrategista de comércio exterior do banco Ourinvest, a própria retomada da economia brasileira deve ser um impulso importante para a Argentina voltar a embarcar produtos de sua indústria ao parceiro comercial. "Se o Brasil crescer 3% no ano que vem, como o Paulo Guedes (ministro da Economia) está falando, já é um sinal positivo para a Argentina", comenta Barral.

O argentino Federico Servideo, que preside a Câmara de Comércio Argentino-Brasileira, acrescenta que estão sendo debatidos no país estímulos tanto monetários quanto fiscais, como novas linhas de crédito para investimento e consumo, em paralelo a uma minirreforma tributária para simplificar o pagamento de tributos e melhorar a competitividade argentina.

"A Argentina precisa de dólares e, logo, precisa fomentar as exportações, em particular o Brasil. Essas medidas são outro elemento que vai incrementar o fluxo comercial entre os dois países", afirma Servideo.

Bolsonaro versus Fernández

Atribuída à recessão argentina e ao contexto de pandemia, a quebra nos fluxos comerciais entre Brasil e seu maior parceiro sul-americano tem motivos puramente econômicos, segundo especialistas em comércio exterior.

Eles alertam, porém, que os dois países precisam manter uma parceria pragmática para que o desalinhamento político entre os governos de Jair Bolsonaro e do peronista Alberto Fernández não se transforme em prejuízos comerciais e maior presença chinesa no mercado argentino.

"Se o Brasil não ajudar, quem vai ajudar é a China. Se não vamos ajudar, não devemos piorar", comenta José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

"Quem abriu crédito para financiar o comércio exterior da Argentina nos últimos anos foi a China. É o que explica o crescimento das exportações e importações entre esses dois países", complementa Mario Carvalho, economista da Funcex, fundação que realiza estudos sobre comércio exterior.

Segundo Carvalho, como não se espera que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre pesado no financiamento do comércio exterior, o grande ponto de interrogação está no que o Banco Central (BC) vai fazer em relação a instrumentos capazes de amenizar o problema da falta de dólares no país vizinho.

Sendo mais específico, ele se refere ao sistema que permite o pagamento em moeda local das transações feitas entre os países, além do convênio de crédito recíproco que, em cenários de escassez de divisas, facilita o intercâmbio comercial ao reduzir as transferências internacionais.

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Argentina perde lugar entre os três maiores destinos das exportações brasileiras

A China é agora o principal parceiro comercial dos argentinos e desde abril os dois países negociaram mais de US$ 1 bilhão

Eduardo Laguna e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2020 | 16h56

A relação dos dois maiores sócios do Mercosul não tem mais o brilho de antes. Se o Brasil deixou de ser o principal parceiro comercial da Argentina desde a chegada da pandemia de covid-19, o país vizinho, por sua vez, perdeu uma posição histórica entre os três principais mercados de produtos brasileiros no exterior.

A Holanda, uma porta de entrada na Europa e que vem comprando mais, principalmente, soja, petróleo e combustíveis, tirou da Argentina a terceira posição entre os destinos internacionais das exportações feitas pelo Brasil.

O parceiro sul-americano, agora em quarto lugar, não saía do top três nas rotas dos produtos brasileiros desde 2002. Na época, a Argentina, até então segundo maior comprador do Brasil, desceu para a sexta posição na esteira da maior moratória de sua história.

Do lado de cá da fronteira, também estão entrando menos produtos argentinos, o que permitiu à China tirar do Brasil o posto de principal parceiro comercial da Argentina.

Desde abril, quando o coronavírus passou a atingir mais fortemente as economias sul-americanas, as transações comerciais entre Argentina e China, na soma de exportações e importações, superam em mais de US$ 1 bilhão a corrente de comércio dos dois principais sócios do Mercosul. Os dados são do balanço mais recente, com números até julho, do instituto de pesquisas argentino, o Indec.

Abrindo a cifra acima, a Argentina comprou da China cerca de US$ 200 milhões a mais do que importou do Brasil. Ao mesmo tempo, exportou ao gigante asiático US$ 900 milhões a mais do que vendeu ao seu vizinho.

Por atingir em cheio a pauta comercial dos vizinhos continentais, mais concentrada em produtos manufaturados - em maior parte da indústria automobilística -, a pandemia acentuou a perda de dinamismo no comércio bilateral que já vinha acontecendo há dois anos.

O coronavírus não é, portanto, a explicação única de uma quebra de fluxo cuja raiz está na crise econômica argentina, com sua endêmica escassez de dólares, e que tem como pano de fundo o desalinhamento político entre os governos de Jair Bolsonaro e Alberto Fernández.

Como resume Welber Barral, estrategista de comércio exterior do banco Ourinvest e ex-secretário de Comércio Exterior, a pandemia representa um problema conjuntural que agrava os problemas estruturais históricos da Argentina.

A solução argentina para conter o esvaziamento de suas reservas internacionais, reduzidas a pouco mais da metade do que eram até um ano e meio atrás, é não só restringir o acesso da população a dólares, como também controlar a entrada de produtos importados.

A China consegue contornar essa situação financiando um déficit de mais de US$ 900 milhões do lado argentino nas transações com os chineses. Para os demais, incluindo o Brasil, a consequência tem sido produtos parados em portos argentinos à espera de licenças de importação.

Nas montadoras brasileiras, os relatos são de um grande número de carros ainda represados em portos pelo governo argentino. Em junho, estimava-se em 10 mil o total de veículos retidos.

Responsáveis pelo principal capítulo da pauta de comércio do Brasil com a Argentina, os embarques da indústria brasileira de veículos e autopeças a seu maior destino internacional ficaram abaixo de US$ 1,5 bilhão entre janeiro e agosto deste ano. Dois anos atrás, quando o ciclo recessivo atual estava começando na Argentina, o setor tinha exportado três vezes mais em igual período.

Quanto menos automóveis os argentinos compram, menos eles conseguem exportar ao Brasil, já que o acordo automotivo, para evitar grande desequilíbrio no comércio entre as partes, vincula as exportações às importações.

"Quando a Argentina deixa de comprar, automaticamente deixa de exportar", observa José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

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Holanda dobra compra de soja e vira terceiro destino de produtos do Brasil

País que é porta de entrada das exportações brasileiras na Europa aumentou também a compra de petróleo e combustíveis

Eduardo Laguna e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2020 | 16h56

Porta de entrada de produtos brasileiros na Europa, a Holanda tornou-se o terceiro maior destino das exportações feitas pelo Brasil ao dobrar as suas importações de soja e aumentar também significativamente as compras de petróleo e combustíveis.

De janeiro a agosto, os produtores de soja do Brasil embarcaram mais de US$ 1 bilhão a portos holandeses, o dobro do valor registrado em igual período do ano passado (US$ 532 milhões), segundo as estatísticas da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Na soma de petróleo e combustíveis, outros US$ 834 milhões foram exportados para a Holanda no período - no caso, três vezes mais do que nos oito primeiros meses de 2019.

Ex-secretário de Comércio Exterior, e atualmente estrategista de comércio exterior do banco Ourinvest, Welber Barral diz que a competitividade da logística holandesa faz com que o país seja escolhido como o ponto de desembaraço de produtos distribuídos ao restante da Europa.

"O correto é você colocar União Europeia. A Holanda é só a porta de entrada. É o porto, é a logística, é a questão financeira. Por isso, a gente analisa a Europa", observa o especialista, acrescentando que as exportações da Holanda, como são produtos que entram e logo saem, chegam a ser o equivalente a 130% do PIB holandês.

Ainda que os embarques para a Holanda tenham caído 7,5% nos últimos oito meses, o declínio é inferior ao das exportações à Argentina, cujo recuo foi de 25,4% em razão, sobretudo, do impacto mais forte da pandemia na pauta de comércio dos parceiros do Mercosul.

Destinos novos no top 10

Se a Holanda centraliza cargas distribuídas para a Europa, Cingapura é um megahub portuário de onde são despachados produtos a outros 600 portos, especialmente no sudeste asiático e na Oceania. Neste ano, o país ingressou na lista dos dez maiores destinos dos produtos brasileiros, ocupando a nona posição no acumulado desde janeiro.

Como deve inaugurar no ano que vem o maior terminal de contêineres do mundo, é grande a chance de Cingapura seguir entre as principais rotas das exportações brasileiras. Até o ano passado, era apenas o décimo sexto destino, mas subiu sete posições em razão, principalmente, do aumento de 86% dos embarques de petróleo e seus combustíveis.

O Canadá, para onde o Brasil vende mais ouro, aço semiacabado e açúcar neste ano, também entrou no top 10 das exportações brasileiras - agora na sexta posição. No ano passado, o vizinho dos Estados Unidos estava em décimo primeiro lugar.

Depois da China, que, de janeiro a agosto, comprou US$ 5,8 bilhões a mais do Brasil, em relação aos oito primeiros meses de 2019, Cingapura e Canadá são os destinos que, individualmente, mais contribuíram para o País amenizar o impacto da pandemia no comércio exterior.

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