Mercado de luxo com sotaque japonês

Fabricantes do Japão apostam no segmento de automóveis sofisticados no Brasil, hoje dominado por marcas europeias

CLEIDE SILVA, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h10

As fabricantes japonesas decidiram apostar no segmento de carros de luxo no Brasil, até agora dominado por empresas europeias, especialmente as alemãs. Depois de Honda e Toyota, que estão trazendo as marcas Acura e Lexus, a Nissan anunciou ontem a chegada ao País da Infiniti, sua marca top, com veículos na faixa de preço de R$ 150 mil a R$ 300 mil.

De olho numa classe de consumo ainda pequena, mas em ascensão, a Nissan escolheu o Brasil como primeiro mercado da América do Sul a receber carros da Infiniti, patrocinadora da equipe Red Bull, cujo piloto, Sebastian Vettel, pode ser tricampão mundial de Fórmula 1 hoje. Atualmente, a marca é vendida em 42 países, entre os quais Estados Unidos - onde nasceu -, Europa, Japão, Canadá, Reino Unido, México, Coreia, Taiwan, Oriente Médio e China.

"Temos uma estratégia recente de crescer globalmente, e o Brasil certamente é um dos mercados onde queremos estar", diz Johan de Nisschen, presidente da Infiniti. A marca quer estar em 72 países até 2017 e este ano vai vender volume recorde de 200 mil veículos. No Brasil, onde chegará apenas em 2014, a previsão é de 100 unidades ao ano. O grupo tem fábricas no Japão, EUA, vai inaugurar uma na China e em breve na Europa. "No futuro, vamos precisar de uma nova fábrica e não descartamos a América do Sul, incluindo o Brasil, mas não há nenhuma decisão ainda sobre isso", afirma Andy Palmer, vice-presidente global para a área de marketing e comunicação da Nissan.

O Brasil, tradicional consumidor de carros compactos e mais baratos, virou alvo das marcas premium em consequência da estabilidade econômica e do aumento do poder aquisitivo das classes média e alta. Também pela necessidade dessas marcas em buscar refúgio em economias emergentes, diante da crise nos países desenvolvidos.

As vendas totais de veículos no Brasil devem bater recorde este ano, com cerca de 3,4 milhões de automóveis e comerciais leves. O País é o quarto maior mercado mundial. O segmento de luxo, considerando modelos com preços a partir de R$ 100 mil, deve vender cerca de 275 mil unidades, segundo projeções da PricewaterhouseCoopers (PwC).

O sócio da consultoria, Marcelo Cioffi, pondera que a alta de 30 pontos porcentuais do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para importados pode influenciar os números deste ano, que ainda assim serão maiores que os de 2011, quando foram vendidos cerca de 250 mil carros nessa faixa de preço.

"Certamente chegaremos em 290 mil unidades em 2013", prevê Cioffi. "É um mercado que tem crescido bastante no Brasil, fruto do aumento de renda, inclusive da classe A". Ele lembra que, em 2009, a classe A (que está no topo da pirâmide social) representava 1,7% da população. Em 2015 deverá representar 2,2% e em 2020, 2,5%.

O presidente da General Motors América do Sul, Jaime Ardila, avalia que o segmento de luxo responde por 5% a 7% das vendas nos países mais desenvolvidos. Em mercados como o americano também são considerados carros de luxo aqueles acima de US$ 50 mil a US$ 60 mil (de R$ 100 mil a R$ 120 mil).

Ele ressalta, contudo, que os altos impostos no Brasil distorcem os preços locais, por isso um modelo vendido aqui nessa faixa é inferior ao americano. No País, Ardila coloca na categoria luxo os modelos acima de R$ 150 mil e acha que, em 2015, esse segmento deverá vender perto de 200 mil unidades ao ano, ou 5% do mercado, projetado em 4 milhões de veículos.

"É um mercado que está ficando muito interessante, por isso todas as montadoras estão olhando para ele, inclusive as marcas americanas, praticamente ausentes", diz Ardila. A própria GM avalia a importação de modelos de seu braço premium, a Cadillac, "mas por enquanto não há plano definido", ressalta.

Futuro. Um dos segmentos em que a Infiniti vai atuar, com produtos na casa dos R$ 300 mil, teve significativa desaceleração este ano, em razão da alta do IPI. As vendas de janeiro a outubro caíram de 4.945 unidades em 2011 para 2.710 neste ano.

A taxação maior, contudo, não reduziu o interesse das fabricantes no mercado brasileiro. "As empresas estão olhando para o futuro e a perspectiva é de crescimento desse mercado, mesmo que os volumes sejam pequenos", diz Julian Semple, consultor da Carcon Automotive.

Ele lembra que o custo para introduzir esse tipo de veículo não é elevado. "O investimento mais alto é na produção, e isso foi feito lá fora", afirma. Segundo Semple, os gastos são restritos à homologação e adaptações, espaços para venda e marketing. O imposto maior inibe o consumo num primeiro momento, "mas sempre há uma camada de consumidores disposta a pagar".

A Honda anunciou em outubro que vai importar modelos da Acura, produzidos apenas nos EUA, mas só a partir de 2015. Será a primeira vez que a marca pisará em território latino. Já a Toyota inaugurou em junho uma concessionária exclusiva da Lexus em São Paulo e vendeu até agora 20 veículos a preços entre R$ 218,5 mil e R$ 615 mil. A coreana Kia Motors vai trazer da Coreia, a partir de março, o Quoris, apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo em outubro e preço perto de R$ 300 mil.

Nysschen afirma que o início das vendas da Infiniti em 2014 é para preparar os carros para as condições brasileiras, formar uma rede de revendas - inicialmente serão apenas duas, uma em são Paulo e outra no Rio - e divulgar a marca. Inicialmente serão importados três modelos, os crossover FX e JX, e um sedã que está em fase de lançamento e ainda não teve o nome divulgado. O Brasil já tem cerca de 200 modelos da Infiniti, que foram trazidos por importadores independentes.

Para David Wong, da consultoria Kaiser Associates, o Brasil possui uma parcela de famílias com poder de compra significativo. "Esta população sempre existiu e o seu poder de compra só tem crescido. Não diria que seja um fenômeno, mas à medida que o País foi se abrindo para o comércio internacional, e a crise nos países ricos afetou os crescimentos das marcas de luxo, os olhos para os Brics (países emergentes) aumentaram a atratividade de investir nestes países."

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