Mercado de trabalho dificultará a reeleição de Dilma

Em 1962, o economista norte-americano Arthur Melvin Okun publicou célebre artigo com simulações que relacionavam a taxa de desemprego nos EUA com o crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB). Na versão mais simples (chamemos de versão 1), utilizando dados trimestrais de 1948 a 1960, Okun estimou uma relação estatística entre as mudanças nas taxas de desemprego e nas taxas de variação do PIB. Tais variáveis se mostraram negativamente correlacionadas, como era esperado. Na versão mais complexa (versão 2), procurou relacionar as variações da taxa de desemprego com o diferencial entre o PIB potencial (o nível máximo do PIB que não gera pressões inflacionárias) e o efetivamente observado, ou seja, o chamado hiato do produto. A correlação agora se mostrou positiva (quanto maior o hiato, maior o desemprego) e a taxa de desemprego compatível com a estabilidade de preços estaria, na época, em torno de 4%. Tais relações ficaram conhecidas, com certa impropriedade, como Lei de Okun. No Brasil, o crescimento econômico vem se desacelerando desde 2011, mas a taxa de desemprego tem permanecido historicamente baixa, variando entre 5,5% e 6%, após os ajustes sazonais. Mais intrigante é que, além de baixa, até meados do ano passado essa taxa continuava declinante.

Claudio Adilson Gonçalez*, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2013 | 14h41

Análises açodadas chegaram a preconizar a "revogação" da Lei de Okun ou, dito mais seriamente, que ela não funcionaria no Brasil, em razão de certas características particulares de nossa economia (mais uma jabuticaba?). 

Talvez por cultivar tal crença, a área política do governo se mantinha tranquila, dado que o baixo crescimento não seria ameaça à reeleição da presidente. Ora, mesmo com as fracas taxas de expansão da economia, o mercado de trabalho seguia apertado, os salários reais cresciam e os trabalhadores não temiam perder seus empregos. Assim, a aprovação do governo se manteria elevada até as eleições. Ledo engano.

Para entender melhor a dinâmica do desemprego no Brasil, voltemos à Lei de Okun. De acordo com ela (versão 2), é possível a convivência de pífias taxas de crescimento econômico com níveis também baixos de desemprego. Para tanto, basta que se parta de uma situação de superocupação da mão de obra e que o nível do PIB efetivo seja maior que o potencial, com ambos crescendo a taxas pequenas. E este parece ser o caso brasileiro, pelo menos até 2012.

De fato, em função da modesta taxa de investimento, da estagnação ou mesmo da queda da produtividade geral dos fatores de produção e da redução da taxa de crescimento da população em idade ativa (atualmente em torno de 1,2% ao ano), dificilmente o crescimento potencial brasileiro é hoje muito superior a 2,5% ao ano.

A média de crescimento no biênio 2011/2012 foi de 1,8%, inferior, mas não tão distante de nossa estimativa de crescimento potencial. Se levarmos em conta que em 2010 o PIB brasileiro cresceu 7,5%, é muito provável que seu nível era superior ao do potencial, pelo menos até o início do ano passado.

Mas por que a taxa de desemprego continuou declinante, pelo menos até meados do ano passado, enquanto o crescimento econômico se enfraquecia? Para responder a essa questão não é necessário recorrer à revogação de nenhuma lei econômica. Basta interpretar de forma cuidadosa os dados estatísticos e o que preconiza a teoria.

Atualmente se utilizam modelos estatísticos com versões dinâmicas da Lei de Okun. Em tais modelos, a taxa de desemprego corrente não depende apenas do crescimento do PIB do mesmo período, mas também de variações verificadas no passado, tanto no crescimento real do PIB como na própria taxa de desemprego. Ou seja, como em muitas outras relações econômicas, constatam-se os importantes papéis exercidos pela inércia e pelas defasagens.

Quanto mais rígidas forem as normas trabalhistas, maior será a defasagem com que a taxa de desemprego reagirá a mudanças no ritmo de crescimento. Ninguém desconhece os elevados custos de demissão, não só em razão das verbas indenizatórias, mas, sobretudo, por passivos contingentes impostos pela ultrapassada e pretensamente protecionista legislação trabalhista brasileira. Além disso, a escassez de mão de obra qualificada torna também caro o processo de recomposição do quadro de pessoal nos períodos de retomada do crescimento, dado que, em geral, é preciso um longo período de treinamento para que o novo empregado

alcance nível adequado de produtividade.

Se nossa projeção para o crescimento econômico em 2013 (em torno de 2%) estiver correta, este será o segundo ano consecutivo em que o PIB brasileiro se expandirá abaixo de sua taxa potencial. E, também para 2014, as perspectivas não se prenunciam  alvissareiras, dados o necessário aperto da política monetária doméstica, o reduzido espaço para o governo continuar com o expansionismo fiscal, a elevação dos juros norte-americanos, a queda das cotações das commodities e, acima de tudo, a forte deterioração da confiança na economia, tanto dos empresários como dos consumidores.

Assim, a situação no mercado de trabalho tende a piorar. Como vimos, o desemprego reage com atraso à deterioração da economia, mas tudo indica que a defasagem já foi vencida.

A taxa de desemprego, a partir de junho, começou a superar a registrada em igual mês do ano anterior. A geração líquida de vagas formais no mês passado (41,5 mil) foi a mais baixa registrada para os meses de julho desde 2003. Os salários reais, tanto pelos dados do Ministério do Trabalho relativos ao setor formal (Caged) como do IBGE (PME), que em 2012 cresciam entre 4% e 6%, em bases anuais, agora mostram modesta elevação, entre 1% e 2,5%, dependendo da estatística que se utilize.

O governo certamente acordou para o problema e tenta por todos os meios (quase sempre ineficazes) reverter esse quadro. Mas agora navega contra o vento e dificilmente chegará às eleições de 2014 com a economia jogando a favor da reeleição da presidente Dilma Rousseff.


*Economista, diretor-presidente da MCM Consultores, foi consultor do Banco Mundial, subsecretário do Tesouro Nacional e chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda

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