Mercado de trabalho em compasso de espera

Análise: José Paulo Kupfer

O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2012 | 03h04

Enquanto o volume de novas vagas de emprego formal, em agosto, apurado pelo Ministério do Trabalho, em seu Cadastro de Empregados e Desempregados (Caged), foi o menor desde 2003, a taxa de desemprego, para o mesmo mês, medida pelo IBGE, na Pesquisa Mensal de Emprego (PME), foi a mais baixa da série histórica, iniciada em 2002. As informações sobre a situação de momento no mercado de trabalho, divulgadas ontem, parecem completamente discrepantes. Mas não são.

Os dados, nos dois casos, apontam para uma tendência de relativa estabilização. Se o emprego resistiu, na fase descendente do ciclo de crescimento da economia, iniciado no primeiro trimestre de 2010, tende agora a se acomodar, no início da nova etapa ascendente, depois do primeiro trimestre de 2012.

Caso essa retomada não se confirme ou se mostre muito tímida e lenta, a lógica faz pressupor elevações futuras na taxa de desemprego e pouco dinamismo na criação de vagas. O raciocínio inverso, porém, não vale. Uma aceleração mais forte da atividade econômica encontrará um piso de resistência, devendo ocorrer mais uma inclusão de informais - fazendo crescer os números do Caged, sem afetar muito as taxas de desemprego do IBGE.

Os números muito baixos da taxa de desemprego em agosto não significam que esteja ocorrendo um aumento digno de nota na população ocupada. Comparando agosto com julho, o total da população ocupada ficou praticamente estável, devendo-se observar que ocorreram quedas nos dois meses anteriores.

Assim, a explicação para essa nova queda na taxa de desemprego pode ser mais bem localizada no avanço da população econômica ativa (PEA). Essa expansão, nada excepcional, diga-se, também depois de dois meses consecutivos de recuo, foi suficiente, de todo modo, para reduzir a taxa de desemprego ainda mais um pouco.

Uma evidência de que o mercado de trabalho se encontra numa espécie de compasso de espera pode ser encontrada na evolução do rendimento médio real. O avanço de agosto, em relação a agosto do ano passado, é pouco mais da metade da média de janeiro a julho, na mesma base de comparação. O ritmo mais lento na formação de preço, no mercado de trabalho, dá indícios de que a oferta de mão de obra começa a superar a demanda das empresas.

Detalhe interessante é que os maiores aumentos se deram na faixa dos trabalhadores com carteira assinada e os menores, para os sem registro formal. Mais um indicativo de que as empresas retiveram empregados no período de maior baixa da atividade econômica, tanto pelos custos de demissão, quanto pelo temor de não encontrar mão de obra adequada na retomada, e agora dispõem de gordura para utilizar, se a economia voltar a engatar.

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