Mercado de trabalho: os dois lados da moeda

Os dados da PME divulgados ontem mostram que o mercado de trabalho brasileiro continua aquecido, apesar do modesto crescimento do PIB. A taxa de desemprego em abril ficou em 5,8%, a mais baixa para o mês na série histórica, enquanto o rendimento real habitual aumentou 1,6% em relação a abril de 2012 e 3,1% no acumulado de doze meses.

ANÁLISE: Fernando de Holanda Barbosa Filho, ECONOMISTA, PESQUISADOR DO IBRE/FGV, ANÁLISE: Fernando de Holanda Barbosa Filho, ECONOMISTA, PESQUISADOR DO IBRE/FGV, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2013 | 02h02

O bom momento do mercado de trabalho está atrelado à expansão acima da média do PIB do setor de serviços. Como o setor é intensivo em mão de obra em relação aos demais, a demanda por trabalhadores aumenta mais do que se o crescimento fosse balanceado.

Essa dinâmica gera benefícios e custos, ainda que estes sejam pouco ressaltados no debate atual. Os benefícios são claros. A baixa taxa de desemprego, associada a um crescimento da renda real, insere milhões de pessoas no mercado de consumo, melhorando a sua qualidade de vida. O mercado de trabalho aquecido facilita a migração dos trabalhadores domésticos para outras ocupações e o emprego de trabalhadores com baixa qualificação. A maior massa salarial incentiva o consumo, principalmente no setor de serviços, gerando uma demanda ainda maior por trabalhadores e, com isso, novos aumentos reais de salários.

No entanto, esse ciclo virtuoso no mercado de trabalho tem seus custos. A elevação da renda real ocasionada obriga a indústria a pagar salários mais elevados. Os salários mais altos, combinados ao baixo crescimento da produtividade, elevam os custos, acentuando a perda de competitividade do setor, e com isso a redução dos investimentos. Ao mesmo tempo, a elevação do consumo de serviços, que demandam capital humano de baixa qualificação e, por isso, geram baixo valor agregado, compromete o crescimento econômico futuro, impedindo uma elevação mais rápida da renda per capita nacional.

Hoje, o mercado de trabalho é um gargalo ao crescimento. Nos serviços, por falta de gente. Na indústria, por falta de competitividade. Nesse cenário de escassez de mão de obra e salários mais elevados, a solução para a economia brasileira é elevar a produtividade do trabalho. No entanto, poucos setores podem obter ganhos de produtividade do trabalho em velocidade suficiente para relaxar significativamente a restrição imposta pelo aperto do mercado de trabalho. Dessa forma, políticas de qualificação da mão de obra e/ou uma recomposição setorial do crescimento são essenciais para que o país volte a crescer mais rápido. Nenhuma das duas, porém, parece provável no curto prazo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.