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Mercado de veículos tem calote recorde

Dívidas com atraso de mais de 90 dias somam R$ 4,6 bi, segundo o BC

Fernando Nakagawa, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

Após recordes seguidos de produção e venda nos últimos meses, o setor automotivo bate mais uma marca. Só que, desta vez, a notícia não é boa e pode ser considerada um dos primeiros e mais dramáticos exemplos do efeito da crise econômica na vida das pessoas. Em setembro, a inadimplência nos financiamentos para a compra de veículos atingiu o maior patamar da série histórica: 3,83% dos empréstimos apresentavam atraso superior a 90 dias. Isso quer dizer que a dívida pendente dos brasileiros soma R$ 4,6 bilhões. Esse valor que os bancos têm a receber já é superior à ajuda dada recentemente pelo governo federal ao setor, de R$ 4 bilhões.Nas concessionárias e financeiras, o clima é de muita preocupação com a crise que parecia tão distante meses atrás. A sensação é que a roda do setor - que só andava para frente e em alta velocidade - desacelerou o ritmo e começa a dar sinais de que pode começar a dar ré. Números do Banco Central comprovam o clima de fim de festa.A inadimplência cresce sem parar desde janeiro e, se forem somados os atrasos mais curtos - superiores a 15 dias, a dívida pendente salta para R$ 13,4 bilhões, ou 11,23% de todos os financiamentos para compra de veículos. Além disso, os novos financiamentos estão rareando. Em setembro, os bancos concederam, na média diária, R$ 207 milhões em crédito para a compra de carros. O valor é muito menor que o recorde recente, visto em dezembro de 2007, quando os empréstimos somavam R$ 308 milhões por dia. Motivos para essa ressaca parecem não faltar: clientes com endividamento acima do razoável, consumidores que não previam gastos gerados pelo carro e a piora do mercado de crédito explicam a dificuldade em se manter o carnê em dia. "Com a situação mais difícil, o consumidor prefere deixar de pagar uma parcela alta e que não seja tão prioritária. Nesse caso, o carro se encaixa perfeitamente: as parcelas somam algumas centenas de reais e, no limite, a pessoa pode devolver o bem e usar o transporte público", diz o professor do Ibmec-SP, Ricardo José de Almeida. Para o especialista em finanças pessoais, é provável que a crise tenha atingido inicialmente o consumidor de menor renda - das classes C e D - que, muitas vezes, comprou seu primeiro carro nos últimos meses.Era exatamente esse cliente que era disputadíssimo por montadoras e bancos até o começo do ano. Nas concessionárias, além de balões coloridos e clima de festa, os consumidores sentiam-se atraídos por condições inéditas de financiamento. Houve parcelamento em até 100 meses. Com prazos elásticos, os pagamentos mensais diminuíram e muitos tiveram coragem de entrar, pela primeira vez, em uma concessionária para fechar negócio. "Esse cliente entrou no empréstimo porque a parcela cabia no bolso, mas ele passou a comprometer praticamente todo o orçamento. Numa situação desfavorável, como a atual, as despesas podem crescer, o salário continua o mesmo e surge a inadimplência", explica Ricardo Almeida.Para muitos desses novos motoristas, gastos corriqueiros gerados por um veículo - como um conserto eventual, seguro ou o IPVA - não estavam previstos e passaram a extrapolar o orçamento. Para quem estava nessas situações meses atrás, era possível pedir socorro aos bancos com o crédito pessoal ou o consignado. Mas a crise tornou bancos mais criteriosos na liberação desses recursos e o juro, mais alto."Há muitos casos de pessoas que estão usando o cheque especial para completar o salário ou famílias que pagam dívidas com novas dívidas. Isso é uma bola de neve que acaba virando inadimplência em algum momento", diz o assessor econômico da Serasa, Carlos Henrique de Almeida.Rodrigo Del Claro, diretor da Crivo, consultoria de análise de crédito que presta serviço à maioria do setor de financiamento automotivo, diz que os números do BC só não são piores porque parte das instituições continua, a despeito da crise, aumentando suas operações nas classes C e D, o que tem mantido o crescimento do crédito no setor. "Algumas financeiras, que estão mais dispostas a tomar mais risco, continuam crescendo principalmente nesse segmento."

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