José Patrício/Estadão
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Dólar dispara 2,63% e fecha em R$ 5,07; Bolsa recua 1,15%, o pior nível desde janeiro

A moeda norte-americana avançou após queda em bloco das divisas emergentes, afetadas pela cautela em torno da decisão de política monetária do Fed na quarta-feira, 5, pelos temores de desaceleração da economia mundial

Silvana Rocha, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2022 | 11h44
Atualizado 02 de maio de 2022 | 19h10

O dólar disparou neste início de semana e fechou acima de R$ 5,00 pela primeira vez desde 17 de março (R$ 5,0343). Após operar com sinal positivo desde a abertura das negociações, com renovação sucessiva de máximas ao longo da tarde, o dólar encerrou o primeiro pregão de maio em alta de 2,63%, a R$ 5,0727 - você pode acompanhar a cotação no conversor de moedas do Estadão.

A alta foi registrada em meio à onda de fortalecimento global da moeda norte-americana, nesta segunda, 2. À cautela em torno da decisão de política monetária do Banco Central norte-americano na quarta-feira, 5, que pode trazer um tom mais duro ao mercado, somaram-se temores de desaceleração da economia mundial em momento de inflação elevada, a chamada estagflação.

Dados de atividade industrial abaixo do esperado nos Estados Unidos e, sobretudo, na China assustaram os investidores. Os lockdonws prescritos pela política de covid zero no gigante asiático traçam um cenário ruim para commodities, levando a uma queda em bloco das moedas emergentes.

Com o forte avanço, a desvalorização do dólar no ano, que chegou a superar 17%, voltou a ser de um dígito (-9,02%). O real liderou hoje as perdas entre divisas emergentes, seguido pelo rand sul-africano, com baixa na casa de 2%, e pelo peso chileno e colombiano, que caíram mais de 1%.

Cautela do BC

Apesar da escalada do dólar, o Banco Central não deu às caras no mercado hoje, talvez porque o movimento de valorização da moeda americana tenha sido global e não tenha havido "disfuncionalidade" na formação da taxa de câmbio. As duas últimas intervenções do BC foram no dia 22 (venda de US$ 571 milhões em leilão à vista) e no dia 26 (venda de US$ 500 milhões em contratos de swap cambial.

Já está na conta do mercado que o Comitê de Política Monetária (Copom) anuncie uma alta de 1 ponto porcentual da taxa Selic, para 12,75%, na quarta-feira à noite. Espera-se que o Banco Central deixe a porta aberta para uma elevação residual em junho, talvez de 0,50 ponto porcentual. Embora a taxa real doméstica seja a maior do mundo (à exceção da Rússia) e o diferencial de juros interno e externo tenda a se manter ainda em níveis elevados, investidores se mostram cautelosos e evitam aumentar exposição à moeda brasileira no curto prazo, dada a incerteza no ambiente externo.

Lá fora, além da provável elevação da taxa básica em 50 pontos-base, o BC americano pode acenar um ajuste monetário rápido e intenso. Já é grande a especulação de uma elevação dos Fed Funds em 75 pontos-base em junho. Além de caminhar para pôr a taxa básica rapidamente no nível neutro (talvez até acima dele), o Fed deve começar a reduzir seu balanço patrimonial, o que significa tirar dinheiro do sistema.

"O dólar segue bastante pressionado, principalmente por conta da reunião do Fed nesta semana. Dados de renda e consumo nos Estados Unidos ainda estão em alta, gerando pressão inflacionária. O rendimento dos Treasuries continua a subir e o fluxo estrangeiro para a nossa bolsa mostra reversão", afirma o economista Bruno Mori, da Planejar.

Bolsa

O mês de maio começou com mau agouro nos mercados globais, arrastando o Ibovespa de volta aos patamares de janeiro e minguando a alta do índice no ano. Com receio de que a atividade global já cambaleante seja ainda mais prejudicada pelo ambiente de aperto monetário e pelos novos lockdowns na China, os investidores retiraram recursos de ativos de risco e enxugaram investimentos em emergentes como o Brasil. Com isso, o Ibovespa encerrou o dia em queda de 1,15%, aos 106.638,64 pontos, nível não visto desde janeiro.

O cenário de elevação de juros nos Estados Unidos e no Brasil, na próxima quarta-feira, que já prometiam deixar o mercado cauteloso nesta semana, se somou a dados piores que o esperado da indústria nos Estados Unidos, na Europa e, principalmente, na China, consolidando o ambiente de aversão a risco.

"Hoje foi um resultado de um mix de coisas. Inflação altíssima no mundo, inclusive nos EUA, principal economia do mundo, e o ruído de que pode haver recessão com a retirada de estímulos à economia. Somado a isso tem a guerra, que gera impacto muito forte para a inflação mundial, principalmente energia. E para piorar, a China fechada por conta do covid. Foi a cereja do bolo", aponta Lucas Mastromonico, operador de renda variável da B.Side Investimentos.

A derrocada de hoje, aliada à sucessão de baixas das últimas semanas, minguou os ganhos tidos neste ano pelo Ibovespa. Em 2022, o índice acumula alta magra de 1,73%.

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