Gabriela Biló/Estadão
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Coluna

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'Mercado doméstico só deve voltar ao normal em meados de 2021', diz presidente da Gol

Antes da pandemia, Gol operava 800 voos diários; hoje, são apenas 120, disse Paulo Kakinoff, que participou da série de entrevistas 'Economia na Quarentena', do 'Estadão'

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2020 | 10h00

Em um momento em que o Brasil ainda não conseguiu sair da primeira fase de controle do coronavírus, o setor de aviação tem dificuldade de projetar como será a retomada da demanda. De acordo com Paulo Kakinoff, presidente da companhia aérea Gol, o passageiro está voltando aos poucos. A companhia viu seu total de voos ser cortado de 800, antes da pandemia, para 50, em abril. Agora, são 120 trechos operados, disse o executivo nesta quarta-feira, 17, durante a série de entrevistas ao vivo Economia na Quarentena, do Estadão.

Para Kakinoff, o mercado de voos internacionais vai demorar para se recuperar, voltando ao patamar anterior ao coronavírus somente entre o fim de 2022 e 2023. Já os trechos nacionais, segundo ele, vão terão uma curva de retomada um pouco mais rápida: "Para o doméstico, que hoje é 100% da nossa receita, projetamos que vai demorar meses – estamos falando de meados de 2021 para termos números próximos ao pré-crise, considerada a média dos anos de 2017, 2018 e 2019."

O executivo também mencionou as dificuldades financeiras generalizadas do setor, a expectativa de fusões e aquisições entre aéreas em todo mundo e os protocolos que as companhias estão adotando em tempos de pandemia.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Como estão as conversas com o BNDES para um pacote de ajuda às companhias aéreas? Por que está levando tanto tempo para se chegar a um acordo?

É uma estruturação bastante complexa, pois os recursos viriam em 60% do banco de fomento (BNDES), 10% de um consórcio de bancos privados e 30% de investimentos captados no mercado. Num momento tão desafiador, estruturar uma linha com esse modelo ter boa chance de êxito leva algum tempo. Estamos em tratativas com o BNDES para que essa formatação ocorra com uma base de atratividade para todos as partes. Acredito em mais algumas poucas de semana deveremos ter isso estruturado.

Mais de 90% dos voos ficaram no chão depois da pandemia. Qual é a urgência da retomada para a Gol?

A retomada dos voos é urgente. Num primeiro momento, nos adequamos para respeitar as orientações técnicas das organizações de saúde. Estabelecemos a primeira fase a partir do primeiro caso do Brasil – na Quarta-Feira de Cinzas. Essa fase vai até o momento em que o Brasil faça um relaxamento mais generalizado nas medidas de isolamento social. Provavelmente agora estamos entrando na fase de transição para a segunda fase. Até agora, não demos estímulos para que mais pessoas viajassem para garantir a disciplina do que as autoridades vinham colocando (protocolos de segurança). Na fase mais aguda da crise, tivemos 50 voos diários, ante os 800 que tínhamos anteriormente. Agora, a gente já vê um aumento de procura. Hoje, nós já operamos 120 voos e planejamos algo entre 200 e 250 voos diários em julho.

A Gol tem caixa para aguentar essa situação de demanda reprimida até quando?

Não estamos fazendo projeção para 2021. Falando do horizonte que temos, a gente tem comunicado que temos caixa para chegar ao fim de 2020. A questão não é quanto o caixa vai durar, mas sim a nossa capacidade de conter a velocidade de queima de caixa. Temos de redesenhar a companhia para uma nova relação entre receitas e custos num cenário de demanda arrefecido por um tempo considerável. Falando de forma otimista, estamos nessa situação mais difícil até o fim do ano. Em dezembro, a demanda para o mercado doméstico brasileiro deverá estar entre 65% e 75% (do total anterior à crise).

E voltar ao normal, dá para prever quando isso pode ocorrer?

Separando os segmentos doméstico e internacional. O internacional representa 15% para a Gol. Isso é positivo neste momento, justamente porque os analistas projetam que a recuperação para patamares pré-crise vai demorar anos. Estamos falando de fim de 2022, talvez 2023. Para o doméstico, que hoje é 100% da nossa receita, projetamos que vai demorar meses – estamos falando de meados de 2021 para termos números próximos ao pré-crise, considerada a média dos anos de 2017, 2018 e 2019.

Como a parceria entre Latam e Azul, anunciada na terça-feira, afeta a Gol?

Teremos mudanças significativas na configuração dos players desse segmento. Haverá falências – e a gente já tem notícias de empresas que se inviabilizaram. Vimos também empresas diminuindo significativamente de tamanho. E também fusões de empresas que estão em níveis de dificuldade mais aguda são uma tendência. O codeshare (compartilhamento de voo) entre as duas empresas está dentro dessa tendência de viabilização econômica. Esse tipo de parceria induz à racionalização e ao equilíbrio de mercado, que é a busca principal da indústria nessa crise.  

A Gol está aberta a parcerias? Pode ser com uma companhia internacional?

As duas empresas (Azul e Latam) foram muito vocais em dizer que essa parceria não estava no radar antes da crise. E elas assim decidiram em função da necessidade nesse momento. A Gol não vê essa necessidade, mas sempre pode tomar uma decisão nessa linha por uma oportunidade. A situação é muito fluida – e nós mesmos podemos nos ver obrigados a tomar essa decisão mais adiante. A companhia tem um histórico de parcerias com empresas internacionais, que eventualmente podem resultar em participações acionárias.  

A Latam pediu recuperação judicial no exterior. A Gol descarta uma recuperação judicial neste momento?

Não é um item da nossa agenda a possibilidade de uma recuperação judicial. Não enxergamos um cenário que nos coloque nessa posição, assumindo as variáveis de hoje. Dentro desse conjunto mais provável de variáveis, descartamos a recuperação judicial. Trabalhamos para antecipar alguns dos “benefícios” que o processo de recuperação pode trazer com um relacionamento muito frutífero com os colaboradores, com as empresas que nos alugam aviões e os fornecedores. Temos tido muito êxito nas negociações para viabilizarmos a travessia dessa crise. É um deserto que a gente não consegue prever nem a extensão nem a temperatura. Nós fizemos um acordo com os colaboradores. Entre as 16 mil pessoas que trabalham na Gol hoje, já fizemos acordo com grupos importantes – pilotos, comissários e aeroviários –, com 90% de aprovação, concordando numa redução significativa das remunerações até o fim de 2021 em troca da estabilidade de emprego. 

Para o consumidor, existe um ecossistema que vai além da companhia aérea. Dá para dizer para o cliente que é seguro viajar?

Todos os agentes – aeroportos, hotéis, companhias aéreas... – visivelmente estão adaptando suas operações e elevando de forma significativa os padrões de sanitização. Falando especificamente da interação entre aeroportos e companhias aéreas, a integração está muito harmônica . Vemos o distanciamento no aeroporto, distanciamento na fila, processos mais lentos. O embarque começa pelas pessoas que estão no fundo do avião, para evitar o fluxo cruzado de pessoas. Suspendemos o serviço de bordo, para diminuir ao máximo a circulação interna. Também incentivamos o uso intensivo de máscaras. No avião, o ar é completamente filtrado a cada 4 minutos e 99% dos micro-organismos são eliminados.

E o preço da passagem? Como vai ficar?

O descasamento entre oferta e demanda trazem uma pressão negativa, reduzem a tarifa. Mas há outros dois fatores que ajudam a ampliar a tarifa: a taxa de câmbio e o preço do combustível. Hoje, ambos estão em patamares mais elevados do que há duas semanas, por exemplo. O setor agora é economicamente inviável com o total de voos atual. Mas, por outro lado, o voo só volta se for economicamente viável. 

O País vive a crise derivada da covid-19 e também uma crise política. Estamos lidando bem a situação?

O Brasil não desperdiçou completamente a vantagem de ser uma das últimas regiões afetadas pela covid-19. Estudamos a China, a Europa e os EUA. Tivemos mais tempo de agir. E um bom indicador é o próprio sistema de saúde, que não entrou em colapso de forma generalizada. De outro lado, o desafio aos governantes nas esferas federal, estadual e municipal é brutal – e não tem um manual de como resolver isso. Além disso, as realidades em diferentes regiões do País são diferentes. O que eu lamento é que não estamos aproveitando na totalidade a vantagem de tempo que tivemos. Uma dose considerável de energia, tempo, recurso e dinheiro têm sido gastos em disputas políticas altamente indesejáveis.

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