Mercado e governos debatem regulação do setor financeiro

O embate entre o mercado e os governos em torno da regulação do sistema financeiro ficou claro no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça). Enquanto diversos participantes aproveitaram o evento para criticar a recente proposta que taxa e limita a atuação dos bancos nos Estados Unidos, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, fez um forte discurso contra os abusos cometidos pelas instituições financeiras, a especulação e a elevada remuneração dos executivos.

DANIELA MILANESE, ENVIADA ESPECIAL, Agencia Estado

27 Janeiro 2010 | 17h58

"O papel dos bancos não é especular, é analisar os riscos e dar crédito", afirmou Sarkozy, apoiando a reforma do presidente dos EUA, Barack Obama. "Se o capitalismo financeiro deu tão errado é porque os bancos não estavam fazendo o seu trabalho."

A reforma de Obama foi um dos temas mais comentados no primeiro dia do Fórum. A avaliação de boa parte dos participantes é de que o plano está baseado no populismo e não impede que novos problemas financeiros voltem a ocorrer.

O ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e professor da Universidade de Chicago, Raghuram Rajan, acredita que, ao reduzir o tamanho dos bancos, o governo norte-americano não exclui a possibilidade de existirem uma série de instituições menores que precisem todas de um resgate eventualmente. Ele vê o risco de um "efeito ioiô", com uma reação forte em busca de muita regulamentação e depois um recuo no futuro. "Não estou seguro de que focar no tamanho dos bancos irá resolver."

O presidente da PricewaterhouseCoopers International, Dennis Nally, afirmou que os presidentes de empresas estão preocupados com um novo ambiente de regulação forte. Ele questiona se a reforma de Obama vai realmente atacar os problemas que levaram à crise. "Há ainda muitas questões de transparência para resolver."

Comentários sobre as motivações políticas de Obama para anunciar a reforma, em meio à queda de popularidade, também foram frequentes, assim como dúvidas sobre a aprovação das medidas pelo Congresso dos Estados Unidos.

Já para o economista Nouriel Roubini, que previu a crise, a reforma vai na direção certa, mas as restrições impostas aos bancos são insuficientes para impedir a alavancagem excessiva e novas bolhas. "Minha preocupação é que voltemos a fazer negócios como sempre, sem mudanças."

O megainvestidor George Soros também acredita que o plano não vai longe o suficiente e deveria incluir os mercados financeiros. No entanto, ele avalia que a proposta é "prematura" porque os bancos ainda não estão fora de perigo.

Foi nesse ambiente crítico à reforma de Obama que Sarkozy disparou contra o mercado financeiro e o imediatismo dos lucros de curto prazo. Ele disse que não se procura um sistema para substituir o capitalismo, mas sim uma forma de salvá-lo. "Não temos escolha: ou mudamos ou a mudança se abaterá sobre nós."

O presidente da França acredita que o atual sistema criou uma economia que funciona contra os valores nos quais deveria estar baseada e que é preciso trazer a economia de volta "ao serviço da humanidade".

Sarkozy criticou principalmente a remuneração dos executivos financeiros, algo que considera "moralmente inaceitável". Para ele, é natural que as pessoas que criam empregos ganhem muito dinheiro. "Mas o chocante é que elas continuem ganhando quando as coisas não vão bem", disse. Como o próprio presidente francês percebeu e comentou, somente uma parte da plateia levantou ao final do discurso para aplaudi-lo.

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