Adriano Machado/ Reuters
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E-Investidor: como a queda do PIB afeta o mercado financeiro

Mercado financeiro passa a estimar queda de 3,76% para o PIB e inflação abaixo de 2%

Entre as instituições ouvidas pelo Banco Central pelo menos uma projeta retração de 7% no PIB deste ano por causa dos impactos da pandemia de covid-19 na economia

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 10h15

BRASÍLIA - Economistas do mercado financeiro ouvidos pelo Banco Central reduziram outra vez a previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e, também, sua estimativa para a inflação - que passou a ficar abaixo da marca dos 2%. 

No Sistema de Expectativas do BC, atualizado nesta segunda-feira, 4, juntamente com o Relatório de Mercado Focus, já existe pelo menos uma instituição que projeta retração de 7% do PIB este ano.

Os analistas dos bancos também passaram a projetar um corte maior da taxa básica de juros no decorrer de 2020 e elevaram para R$ 5 a previsão para a cotação do dólar no fim deste ano. Os dados do relatório foram levantados na semana passada em pesquisa com mais de 100 instituições financeiras.

Para o PIB de 2020, a expectativa de redução passou de 3,34% para 3,76%. Essa foi a 12.ª semana seguida de revisão para baixo do indicador.

Apesar da nova queda, a previsão do mercado para a contração do PIB brasileiro em 2020 ainda está abaixo da divulgada pelo Banco Mundial, que estima um tombo de 5%, e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que prevê queda de 5,3%.

A nova redução da expectativa para o nível de atividade foi feita em meio à pandemia do novo coronavírus, que tem derrubado a economia mundial e colocado o mundo no caminho de uma recessão.

Nos últimos meses, tanto o Ministério da Economia quanto o Banco Central revisaram suas estimativas e passaram a prever estabilidade (sem alta, mas também sem contração) do PIB neste ano.

Para o próximo ano, a previsão do mercado financeiro para o crescimento do PIB passou de 3% para 3,20%.

Inflação abaixo de 2%

Segundo o relatório divulgado pelo BC, os analistas do mercado financeiro reduziram de 2,20% para 1,97% a estimativa de inflação para 2020. Foi a oitava redução seguida do indicador.

A expectativa de inflação do mercado para este ano segue abaixo da meta central, de 4%, e também do piso do sistema de metas, que é de 2,5% neste ano.

Pela regra vigente, o IPCA pode oscilar de 2,5% a 5,5% sem que a meta seja formalmente descumprida. Quando a meta não é cumprida, o BC tem de escrever uma carta pública explicando as razões.

A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para alcançá-la, o Banco Central eleva ou reduz a taxa básica de juros da economia (Selic).

Para 2021, o mercado financeiro reduziu de 3,40% para 3,30% sua previsão de inflação. No ano que vem, a meta central de inflação é de 3,75% e será oficialmente cumprida se o índice oscilar de 2,25% a 5,25%.

Taxa básica de juros

O mercado passou a prever corte maior da taxa básica de juros da economia brasileira nos próximos meses. Atualmente, a taxa Selic está em 3,75% ao ano.

A previsão dos analistas para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, colegiado que define o nível da taxa de juros, foi mantida em uma redução de 0,5 ponto percentual, para 3,25% ao ano. A reunião acontece nesta semana, entre terça, 5, e quarta-feira, 6.

Entretanto, para a reunião seguinte do Copom, marcada para meados de junho, o mercado passou a projetar um corte também de 0,5 ponto percentual na taxa Selic - para 2,75% ao ano. Até então, os economistas vinham prevendo um corte menor, de 0,25 ponto percentual, para 3% ao ano.

Para o fim de 2021, a expectativa do mercado caiu de 4,25% para 3,75% ao ano. Isso quer dizer que os analistas seguem estimando alta dos juros no ano que vem, embora em menor intensidade.

Rombo fiscal

O aumento dos gastos do governo durante a pandemia, somado à crise política, levou o mercado financeiro a projetar um rombo primário recorde para o Brasil em 2020. A expectativa de déficit primário do setor público para o ano saltou de 6,20% para 7,20% do PIB. Este é o maior porcentual da série histórica do BC, iniciada em dezembro de 2001.

No pior resultado registrado até hoje, em 2016, o setor público consolidado registrou um déficit primário equivalente a 2,48% do PIB. Na época, o rombo ainda era consequência do descontrole fiscal verificado nos anos do governo da presidente Dilma Rousseff.

A expectativa de déficit primário recorde para 2020 é consequência direta da crise provocada pela covid-19. Desde março, o governo tem anunciado uma série de medidas econômicas para evitar o fechamento de empresas e o aumento descontrolado do desemprego. As ações representam um aumento de despesas para o governo, com impacto direto sobre o resultado primário.

Outro fator que contribui para o rombo maior é a crise política, que se intensificou após a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça. Nas últimas semanas, os economistas do mercado financeiro vêm revisando sistematicamente suas projeções para o PIB brasileiro, em meio às dúvidas sobre o futuro do governo de Jair Bolsonaro.

O resultado primário reflete o saldo entre receitas e despesas do setor público, antes mesmo do pagamento dos juros da dívida pública. Os avanços nas projeções refletem a expectativa de que, com o aumento das despesas do governo durante a pandemia do novo coronavírus e o recuo do PIB, o País terá um cenário fiscal muito difícil em 2020.

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