Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Projeção oficial do BC para o PIB deste ano é de variação zero. Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Mercado financeiro já prevê retração de quase 2% no PIB deste ano e inflação no piso da meta

Impactos negativos do novo coronavírus sobre a economia brasileira levaram a novo corte nas estimativas do relatório Focus, divulgados nesta segunda-feira pelo Banco Central

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2020 | 09h10

BRASÍLIA - Os economistas do mercado financeiro reduziram, pela nona semana seguida, a estimativa para o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e também revisaram para baixo sua estimativa de inflação, que ficou próxima ao piso do sistema de metas, de 2,5%.

Para o PIB de 2020, a previsão era de uma queda de 1,18% e passou a uma contração maior: de 1,96%. Há quatro semanas, a estimativa era de alta de 1,68%.

As projeções fazem parte do boletim de mercado, conhecido como relatório Focus, divulgado nesta segunda-feira, 13, pelo Banco Central (BC). Os dados foram levantados na semana passada em pesquisa com mais de 100 instituições financeiras.

Apesar da nova queda, a previsão do mercado para a contração do PIB brasileiro em 2020 ainda está abaixo da divulgada neste domingo, 12, pelo Banco Mundial, que estima um tombo de 5% para a economia brasileira, e, confirmada a projeção, será a maior recessão que o Brasil enfrentará em 120 anos. Segundo estatísticas históricas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não há registro de uma queda tão grande da atividade desde o início da série, em 1901.

Até hoje, o maior tombo na economia ocorreu em 1990, quando houve retração de 4,35% - foi o ano do Plano Collor I e do confisco do dinheiro que os brasileiros tinham em suas contas. A segunda maior queda já registrada foi em 1981, quando o PIB caiu 4,25% na esteira da crise da dívida externa brasileira.

O PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país e serve para medir a evolução da economia.

A nova redução da expectativa para o nível de atividade foi feita em meio à pandemia do coronavírus, que tem derrubado a economia mundial e colocado o mundo no caminho de uma recessão.

Nas últimas semanas, tanto o Ministério da Economia quanto o Banco Central revisaram suas estimativas e passaram a prever estabilidade (sem alta, mas também sem contração) do PIB neste ano. Em 2019, segundo dados do IBGE, o PIB cresceu 1,1%, o desempenho mais fraco em três anos.

Para o próximo ano, a previsão do mercado financeiro para o crescimento do PIB subiu de 2,50% para 2,70%.

Inflação perto do piso

Segundo o relatório divulgado pelo BC, os analistas do mercado financeiro reduziram a estimativa de inflação para 2020 de 2,72% para 2,52%. Foi a quinta redução seguida do indicador.

A expectativa de inflação do mercado para este ano segue abaixo da meta central, de 4%. O intervalo de tolerância do sistema de metas varia de 2,5% a 5,5%.

Com isso, a previsão do mercado para a inflação deste ano se aproximou do piso da meta (2,5% em 2020).

A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para alcançá-la, o Banco Central eleva ou reduz a taxa básica de juros da economia (Selic).

Para 2021, o mercado financeiro manteve a estimativa de inflação estável em 3,50%. No ano que vem, a meta central de inflação é de 3,75% e será oficialmente cumprida se o índice oscilar de 2,25% a 5,25%.

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Com crise, mercado financeiro projeta rombo fiscal recorde em 2020

Economistas estimam que o déficit primário do setor público, que reflete a diferença entre receitas e despesas antes do pagamento dos juros da dívida, passe de 1,65% para 4,14% do PIB, no pior resultado da série história do Banco Central

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2020 | 14h19

BRASÍLIA - Em meio aos esforços do governo federal para reduzir os efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre a atividade, os economistas do mercado financeiro avaliam que o Brasil encerrará o ano de 2020 com um rombo primário recorde. Dados divulgados nesta segunda-feira, 13, pelo Banco Central mostram que a expectativa de déficit primário do setor público para o ano saltou de 1,65% para 4,14% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse é o maior porcentual da série histórica do BC, iniciada em dezembro de 2001.

No pior resultado registrado até hoje, em 2016, o setor público consolidado registrou déficit primário equivalente a 2,48% do PIB. Na época, o rombo ainda era consequência do descontrole fiscal verificado nos anos do governo da presidente Dilma Rousseff.

Desta vez, a expectativa de déficit primário recorde para 2020 é consequência direta da crise provocada pela covid-19. Desde março, o governo tem anunciado uma série de medidas econômicas para evitar o fechamento de empresas e o aumento descontrolado do desemprego. As ações representam um aumento de despesas para o governo, com impacto direto sobre o resultado primário. Apenas o Ministério da Economia já anunciou mais de R$ 500 bilhões de auxílio.

O resultado primário reflete o saldo entre receitas e despesas do setor público, antes mesmo do pagamento dos juros da dívida pública. Os avanços nas projeções refletem a expectativa de que, com o aumento das despesas do governo durante a pandemia do novo coronavírus, o País terá um cenário fiscal ainda mais difícil em 2020.

Os dados do Relatório de Mercado Focus, divulgados nesta segunda pelo BC, mostram ainda que o resultado nominal do setor público apresentará um rombo de 9,02% do PIB em 2020. Se confirmado, será o pior desempenho desde 2015, quando o déficit nominal foi de 10,22% do PIB. O resultado nominal reflete o saldo entre receitas e despesas após o pagamento dos juros da dívida pública.

O avanço do déficit primário do setor público é uma preocupação para o governo e para os economistas do setor privado. Isso porque, para cobrir o rombo, o governo é obrigado a se endividar ainda mais, emitindo títulos públicos. O resultado é de alta na relação entre a dívida e o PIB.

Os números do BC mostram que, no fim de fevereiro, a Dívida Bruta do Governo Geral estava em 76,5% do PIB. Com a crise provocada pelo novo coronavírus - que eleva o rombo fiscal e reduz o PIB - a expectativa entre os economistas do mercado financeiro é de que esse porcentual supere os 80% nos próximos meses.

O cálculo sobre até onde vai a dívida, no entanto, é incerto. Isso porque o próprio governo não tem, neste momento, segurança sobre até quando as medidas de isolamento social vão continuar, com impactos negativos sobre a economia.

A Dívida Bruta do Governo Geral - que abrange o governo federal, os governos estaduais e municipais, excluindo o Banco Central e as empresas estatais - é uma das principais referências para avaliação, por parte das agências globais de classificação de risco, da capacidade de solvência do País. Na prática, quanto maior a dívida, maior o risco de calote por parte do Brasil.

Morro abaixo

Os dados do relatório Focus mostram que as projeções dos economistas para a atividade estão cada vez piores. A projeção mediana para o PIB em 2020 é de retração de 1,96%. No entanto, já existe pelo menos uma instituição financeira que espera retração de 6,00% da economia este ano.

Neste domingo, 12, o Banco Mundial indicou queda de 5,0% do PIB do Brasil em 2020 e, na quinta-feira passada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, havia citado possibilidade de retração de 4,0%.

O setor de serviços deve ser um dos mais afetados. A estimativa atual do mercado é de retração de 3,27% do PIB do setor este ano. A queda esperada para o PIB industrial é de 8,90%. No caso do PIB da agropecuária, a projeção é de alta de 0,90%.

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