Carl de Souza/AFP
As mulheres foram mais afetadas pelo desemprego na pandemia do que os homens. Carl de Souza/AFP

Mercado formal de trabalho fecha 2020 no azul, mas mulheres perdem vagas com carteira assinada

Enquanto houve abertura de 230,3 mil vagas para homens, as empresas fecharam 87,6 mil postos ocupados por mulheres; pandemia ajudou a aumentar a desigualdade do mercado, apontam especialistas

Idiana Tomazelli e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 19h02

BRASÍLIA - No ano em que o mercado de trabalho formal mostrou resiliência diante da pandemia de covid-19, com abertura de novos postos, as mulheres acabaram empurradas na direção contrária. Enquanto houve abertura de 230,3 mil vagas para trabalhadores homens, as empresas fecharam 87,6 mil postos até então ocupados por mulheres.

A desigualdade também é observada conforme a qualificação e a faixa etária do profissional. O mercado encolheu para quem tem ensino médio incompleto ou formação abaixo disso, mas expandiu oportunidades a quem tem ensino médio completo ou ensino superior. Na análise por idade, a abertura de vagas se concentrou em trabalhadores até 29 anos. Para profissionais acima de 30 anos, houve fechamento de postos.

Representantes do governo admitem que a pandemia acirrou as desigualdades, mas defendem uma observação da tendência de recuperação do mercado de trabalho para identificar a real necessidade de políticas voltadas ao combate dessas diferenças.

A coordenadora-geral de Cadastros, Identificação Profissional e Estudos da Secretaria de Trabalho, Mariana Eugênio, disse que o quadro tem relação com “questões estruturais”. Segundo ela, grande parte da força de trabalho feminina está no setor de serviços, um dos mais afetados pela crise provocada pela pandemia. “A expectativa é que, uma vez que a situação do mercado de trabalho volte à normalidade, mulheres também sejam beneficiadas nesse sentido”, afirmou.

Em relação aos trabalhadores mais velhos, Mariana ressaltou que muitos fazem parte do grupo de risco e enfrentaram restrições durante a pandemia.

O secretário de Trabalho do Ministério da Economia, Bruno Dalcolmo, reconheceu que a crise da covid-19 tende a acirrar questões de desigualdade no mercado de trabalho em todos os Países. “No nosso caso, principalmente, setores que se mantiveram muito ativos durante a crise são historicamente caracterizados por mão de obra masculina, como construção, por exemplo, e indústria e agricultura em menor sentido”, observou.

Por outro lado, Dalcolmo ressaltou que o programa emergencial para preservar empregos beneficiou principalmente o setor de serviços – que tem maior fatia de mão de obra feminina. Ele lembrou ainda que esses trabalhadores têm garantia provisória de emprego até meados deste ano, enquanto quem ficou livre de reduções em 2020 não têm a mesma proteção.

O secretário negou que o governo conte apenas com a recuperação do mercado de trabalho para atenuar essa desigualdade, mas ponderou que “não se faz política pública para situações pontuais, ocasionais”. “É preciso ter um diagnóstico mais concentrado de como o mercado de trabalho reagirá na saída dessa pandemia e como ele encontrará o novo normal. Se distorções forem geradas em demérito de públicos específicos, é claro que precisaremos avaliar”, disse.

O secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco, avaliou que o governo precisará analisar o impacto da crise em cada setor e, então, analisar o caso específico das mulheres. Ele defendeu também um olhar cuidadoso para a qualificação dos trabalhadores, em geral e especificamente de jovens e mulheres.

“Temos que olhar de maneira muito sensível para a qualificação profissional, e isso já estamos pensando, para recolocação em novos postos de trabalho. isso é fundamental. qualificação desse público específico, no caso mulheres e todos os outros, redução do custo de contratação, melhoria ambiente de negócios e maior segurança jurídica”, disse Bianco.

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Brasil abre 142 mil vagas de trabalho com carteira assinada em 2020

Foi o terceiro ano seguido com geração de empregos formais, segundo o Caged, mas foi o pior resultado para um ano fechado desde 2017

Eduardo Rodrigues e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 10h40
Atualizado 28 de janeiro de 2021 | 12h05

BRASÍLIA - O Brasil criou 142.690 empregos com carteira assinada em 2020, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados nesta quinta-feira, 28.

Foi o terceiro ano seguido com geração de empregos formais, mas foi o pior resultado para um ano fechado desde 2017 - quando foram fechadas 20.832 vagas com carteira assinada.

Esses números referem-se apenas ao trabalho com carteira assinada.  O mercado de trabalho brasileiro é formado, na sua maior parte, pelo trabalho informal - daí a diferença com os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que também foram divulgados nesta quinta.

Nos quatro meses de auge da pandemia de covid-19 - de março até junho -, o Caged registrou 1,618 milhão de demissões a mais do que contratações. Já entre julho e dezembro, 1,418 milhão postos formais foram recriados. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, comparou os resultados do mercado de trabalho formal de 2020 - ano marcado pela pandemia de covid-19 - com os resultados dos anos de 2015 e 2016, também afetados por uma recessão.  "Em 2015 foram fechadas 1,5 milhão de vagas e em 2016 foram destruídos outras 1,3 milhão de empregos".

"Fechamos o ano (2020) com 30 milhões de emprego com carteira, e 11 milhões de vagas preservadas pelo Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm)", afirmou. O BEm é o programa criado no ano passado que permitiu às empresas cortarem jornada e salário dos funcionários, que receberam um complemento da remuneração pago pelo governo.

O desempenho positivo no ano era esperado pelo ministro e pela maior parte do mercado financeiro. O resultado do Caged em 2020 ficou dentro do intervalo das estimativas de analistas consultados pelo Projeções Broadcast.  As projeções eram de fechamento de 94.000 vagas à criação de 323.425 vagas no ano passado, sendo a projeção mais comum criação de 170.410 postos de trabalho.

Em dezembro, quase 68 mil vagas cortadas

Após cinco meses em que a geração de vagas superou as demissões, o mercado de trabalho brasileiro interrompeu em dezembro a sequência de recuperação no emprego formal. Foram fechadas 67.906 vagas com carteira assinada no mês passado, de acordo com os dados do Caged.

No entanto, esse foi o melhor resultado para o mês desde 1995, segundo o órgão, já que o último mês do ano é normalmente de fechamento de vagas de trabalhadores temporários. O resultado de dezembro decorreu de 1.239.280 admissões e 1.307.186 demissões.

Em dezembro de 2019, houve o fechamento de 307.311 vagas com carteira assinada. Tradicionalmente, os desligamentos costumam superar as contratações no último mês do ano, cujo resultado médio no Caged é negativo em 370 mil vagas.

A maior parte do mercado financeiro já esperava uma retração no emprego no mês passado. O desempenho do Caged em dezembro ficou dentro do intervalo das estimativas de analistas consultados pelo Projeções Broadcast.  As projeções eram de fechamento lde 347.600 vagas a 25.000 vagas em dezembro, sendo a mais comum corte de 150.000 postos de trabalho.

Construção civil e indústria puxam geração de vagas em 2020

A abertura de 142.690 vagas de trabalho com carteira assinada em 2020 no Caged foi impulsionada pela construção civil. O setor liderou a criação de vagas em 2020 com a abertura de 112.174 postos formais.

A indústria, com forte recuperação na segunda metade do ano, criou 95.588 vagas em 2020, enquanto houve um saldo positivo de 61.637 contratações na agropecuária . No comércio foram recuperadas 8.130 vagas no ano passado.

Apenas o setor de serviços - ainda afetado pelas medidas de distanciamento social - obteve resultado negativo no Caged em 2020, com o fechamento de 132.584 postos de trabalho formais

No ano passado, 19 Estados registraram resultado positivo e apenas oito tiveram saldo negativo. O melhor resultado foi registrado em Santa Catarina com a abertura de 53.050 postos de trabalho. Já o pior desempenho foi do Rio de Janeiro que registrou o fechamento de 127.155 vagas em 2020.

Salário médio na contratação ficou em R$ 1.777

O salário médio de admissão de trabalhadores com carteira assinada ficou em R$ 1.777,30 de janeiro a dezembro de 2020, segundo dados do Caged. De acordo com o Ministério da Economia, houve um aumento real de R$ 62,66 no salário médio, uma variação de 3,65% em relação ao ano passado.

A alta foi verificada em praticamente todos os setores avaliados pela pasta, exceto em transporte, armazenagem e correio (-0,24%) e em serviços domésticos (-0,71%).

O Caged também traz informações sobre as novas modalidades de emprego criadas na reforma trabalhista de 2017. O trabalho intermitente (o profissional é contratado, mas recebe a remuneração de acordo com o número de horas trabalhadas, que pode variar de um mês para o outro) registrou um saldo positivo de 73.164 vagas em 2020. Já o trabalho em regime parcial ficou negativo em 13.143. Houve ainda 176.376 desligamentos mediante acordo entre empregador e empregado.

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Desemprego cai para 14,1% no trimestre encerrado em novembro

No trimestre encerrado em outubro taxa foi de 14,3%; segundo o IBGE, País tem 14 milhões de desempregados

Vinicius Neder e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 09h19
Atualizado 28 de janeiro de 2021 | 17h03

RIO e SÃO PAULO - A criação de vagas de trabalho no fim de 2020, passado o pior momento da crise causada pela covid-19, manteve a taxa de desemprego em 14,1% no trimestre móvel encerrado em novembro. No período foram abertas 3,912 milhões de vagas, conforme os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada nesta quinta-feira, 28, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A taxa ficou ligeiramente abaixo dos 14,3% de outubro, mas se manteve elevada. É o maior nível para trimestres encerrados em novembro desde o início da série histórica da Pnad Contínua, em 2012. Em termos absolutos, são 14,023 milhões de brasileiros na fila do desemprego, perto do recorde, de 14,105 milhões, registrado no início de 2017, fundo do poço da recessão de 2014 a 2016.

Na passagem do trimestre terminado em agosto para o encerrado em novembro, são 229 mil desempregados a mais e economistas estimam que esse contingente seguirá crescendo, num ritmo até mais forte, durante o ano. Parte dessa alta já ocorreu ao longo dos meses de pandemia. No auge do isolamento social, no segundo trimestre, o total de desocupados estava em 12,791 milhões.

Esse crescimento é paulatino porque grande parte dos trabalhadores que perderam seus empregos na crise, num primeiro momento, foi para fora da força de trabalho. Por causa das medidas de isolamento social, muitos que perderam suas ocupações, tanto formais quanto informais, ficaram em casa e evitaram procurar novas vagas.

Assim, não são considerados desempregados - pela metodologia internacional seguida pelo IBGE, só é considerada desocupada a pessoa que tomou alguma atitude para buscar ativamente um trabalho. À medida que as atividades reabrem, esses trabalhadores voltam a procurar emprego e entram para as estatísticas do desemprego.

Segundo o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, o ritmo do crescimento da busca por emprego vai aumentar. Com o fim do auxílio emergencial, pessoas que ficarão sem o recurso deverão voltar a procurar emprego, pressionando a taxa de desocupação, que deverá atingir o pico em torno de 15%. Depois, a taxa deverá cair lentamente, com a recuperação da atividade no segundo semestre deste ano.

“A recuperação está lenta, vai voltar a cair por causa da pandemia, não é bem em 'V', tem percalços. O governo deveria reforçar essa mensagem da importância da flexibilização do mercado de trabalho, em vez de repetir que a recuperação está em 'V', pois não está”, afirmou Vale.

Ao mesmo tempo, a volta da criação de vagas, após a destruição de 8,876 milhões de postos de trabalho, entre formais e informais, na passagem do primeiro para o segundo trimestre, ajuda a moderar a alta do desemprego.

A geração de 3,912 milhões de postos de trabalho em um trimestre se deu tanto no setor formal quanto no informal, mas está longe de recuperar tudo o que foi perdido na crise. Conforme a evolução do total da população ocupada, o trimestre encerrado em novembro ainda tinha 8,838 milhões de vagas a menos do que um ano antes.

Mesmo assim, Adriana Beringuy, gerente da Pnad Contínua, viu uma “inflexão” nos dados apresentados nesta quinta. “Os resultados foram um ponto de inflexão, por causa do aumento da ocupação e por causa de onde esse aumento ocorreu”, afirmou, ressaltando que o aumento da ocupação se deu de forma disseminada entre as atividades econômicas.

Segundo Adriana, a recuperação se deve a dois movimentos. De um lado, houve flexibilização nas regras de restrição ao contato social. De outro, mesmo com a pandemia, “era de se esperar” alguma reação no emprego por causa da sazonalidade do fim do ano, que impulsiona, tradicionalmente, alguns setores, como o comércio.

O setor foi o destaque na geração de vagas, com 854 mil postos a mais em um trimestre. O setor de alojamento e alimentação, um dos mais atingidos pela pandemia, abriu 400 mil vagas em um trimestre. Construção civil (457 mil vagas a mais) e indústria (465 mil postos a mais) também viram aumentos na ocupação na passagem de um trimestre móvel para o outro.

No geral, o setor informal, o mais atingido pela crise causada pela covid-19, puxou a geração de vagas em um trimestre, com 2,445 milhões de vagas a mais. Segundo Adriana, do IBGE, 66% do total de 3,912 milhões de vagas criadas são em ocupações tidas como informais - no total, eram 33,488 milhões de brasileiros em ocupações tidas como informais.

Adriana viu aí uma melhoria “qualitativa” no crescimento da ocupação, pois, no trimestre móvel encerrado em outubro, 88% do total de vagas criadas, na comparação com o trimestre móvel imediatamente anterior, foram em ocupações tidas como informais. “Embora a informalidade seja preponderante, essa reação na carteira de trabalho passa a ajudar também no crescimento da ocupação total”, afirmou Adriana.

No lado formal, foram 895 mil postos com carteira assinada no setor privado a mais em um trimestre. O número ainda está longe de recuperar as perdas da pandemia. Na comparação com a situação do trimestre móvel até novembro de 2019, há uma queda de 10,3%, sinalizando para o fechamento de 3,458 milhões de vagas formais em um ano.

Apesar da geração de vagas, o economista Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), destacou que houve uma desaceleração no ritmo do crescimento. Quando se calcula os dados da Pnad Contínua de forma “mensalizada” - conta que estima os dados em base mensal, em vez da base trimestral -, o aumento da ocupação em novembro foi menor do que nos meses anteriores.

Além disso, o quadro é preocupante porque falta trabalho para 32,162 milhões de pessoas, que estavam na população subutilizada (que inclui desocupados, subocupados por insuficiência de horas e a força de trabalho potencial). Esse contingente tem 5,586 milhões de pessoas a mais na comparação com um ano antes. Com isso, a taxa composta de subutilização da força de trabalho, espécie de taxa de desemprego ampliada, ficou em 29,0%, abaixo dos 30,6% do trimestre móvel imediatamente anterior.

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