Mercado interno livra empresas e o País de crise pior

Fundamentos econômicos e medidas de estímulo foram essenciais, mas o gasto público preocupa

Renato Andrade e Edna Simão, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Antonio Paulo Chicaroni, empresário da cidade de Franca, no interior paulista, não esperava que a quebra de um banco de investimento nos Estados Unidos, o Lehman Brothers, o obrigasse a mudar a estratégia de negócios de sua empresa de calçados.

Quando o sistema financeiro mundial ruiu e o crédito sumiu, o empresário viu-se forçado a demitir 10% dos funcionários e a reduzir em 20% a produção. As exportações da Chicaroni, que chegavam a 31 países antes da crise, caíram para 12. Os EUA, até então o principal destino dos sapatos produzidos em Franca, foram substituídos por Chile, República Dominicana e Emirados Árabes.

A salvação da Chicaroni e de muitas outras empresas foi o mercado doméstico, que absorveu parte das perdas com o tombo das vendas para o exterior. "Essa crise foi um aprendizado. Mostrou que precisamos ser cada vez mais competentes", diz o empresário, que produz sapatos há 47 anos.

"Uma das principais vantagens do Brasil é que o consumo doméstico não sofreu tanto como em outras arenas, como a do G-7", diz Alvise Marino, analista de Mercados Emergentes da IdeaGlobal em Nova York. "Isso é algo que coloca o Brasil em uma posição diferenciada, especialmente em termos de perspectivas para o próximo ano."

Para Francisco Pessoa, da LCA Consultores, os fundamentos macroeconômicos é que possibilitaram que o governo adotasse com rapidez medidas anticíclicas, evitando um tombo maior da economia.

Na avaliação do economista-chefe da Mauá Investimentos, Caio Megale, o pânico explica, em boa medida, os primeiros efeitos da crise no País. "A máquina Brasil é boa, só que tiraram ela da tomada. A economia parou, foi um apagão", diz.

Uma das principais medidas adotadas pelo governo para estimular a economia foi a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de produtos como carros, geladeiras e fogões. "A ação rápida possibilitou que alguns setores, como a vendas de carros, tivessem resultados bons. Isso criou um circulo virtuoso nas expectativas", ressalta Pessoa.

GASTO PÚBLICO

Mas as medidas anticíclicas deixaram evidente a preferência do governo por elevar gastos com pessoal, em vez dos investimentos. "Cerca de 60% da alta dos gastos não é anticíclico, é aumento de salário de servidores e pensões. Países como Chile e Peru também estão ampliando as despesas, mas com investimento em infraestrutura. O efeito multiplicador desse tipo de despesa para alavancagem da economia é bem maior do que com elevação de salário e pensão", avalia Rafael Guedes, diretor executivo da Fitch Ratings.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, acrescenta que o governo Lula está engessando cada vez mais seus gastos e o próximo presidente terá de reavaliar a política de despesas para que seja possível investir em áreas fundamentais para o crescimento.

Na visão de críticos da política fiscal, muitas das medidas adotadas pelo governo visam à sucessão presidencial. "Essa é uma questão que preocupa, especialmente porque estamos indo para um ano eleitoral", afirma Alvise Marino.

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