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Daniel Teixeira/Estadão
Alta da Selic pode ter impacto na estratégia de gestores e investidores Daniel Teixeira/Estadão

Mercado já prevê Selic a 6,5% no fim de 2021 após BC subir os juros

Depois de o Banco Central sinalizar que está comprometido de forma mais intensa a elevar a taxa de juros básica para conter a inflação, a maior parte dos analistas espera um aumento da Selic até o fim do ano

Cícero Cotrim e Guilherme Bianchini, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2021 | 07h01

SÃO PAULO - O tom mais duro contra a inflação adotado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) no seu comunicado de 16 de junho, no qual elevou a Selic - a taxa básica de juros do País - de 3,50% para 4,25%, aumentou a incerteza e deslocou para cima as apostas do mercado para a trajetória dos juros. Após a decisão, a mediana das estimativas para a Selic no fim de 2021 subiu a 6,50%, segundo a pesquisa Projeções Broadcast. No último levantamento, antes da reunião do Copom, a previsão era de  6,25%.

A estimativa mínima do mercado para a Selic avançou de 5% para 5,75%, enquanto o teto das projeções subiu de 7% para 7,25%. Agora, cinco de 37 instituições pesquisadas estimam que a taxa básica de juros deve ser, ao fim do ano, igual ou maior que 7%. Na pesquisa anterior, apenas uma das 52 instituições financeiras ouvidas previam esse nível de juros. 

No seu comunicado, o Copom agiu em linha com as expectativas do mercado ao substituir a menção a uma “normalização parcial” da Selic pela sinalização de “normalização para patamar considerado neutro” - isto é, em um nível que permita manter a inflação estável e mais próxima à meta de 3,5% no fim de 2022. Mas o colegiado ainda foi além e sinalizou a possibilidade de acelerar o ciclo de alta de juros caso haja deterioração das expectativas de inflação para o ano que vem.

Diante da sinalização do BC de que deve elevar novamente a Selic em 0,75 ponto porcentual, 35 de 37 casas preveem aumento dos juros a 5% na próxima decisão de política monetária em agosto. No entanto, duas instituições já esperam alta de juros de 1,0 ponto porcentual diante da afirmação do Copom de que uma deterioração das expectativas de inflação poderia levar a uma “redução mais tempestiva dos estímulos monetários”. 

Riscos de inflação

Para o economista-chefe do banco de investimentos Haitong, Marcos Ross, o comunicado do BC sinalizou um equilíbrio de riscos assimétrico, por causa das chances de aceleração da inflação. O analista manteve o cenário de aumento de 0,75 ponto porcentual da Selic em agosto, a 5,0%, e de juros em 6,75% no fim de 2021, mas reconhece que o texto indicou um risco de normalização mais rápida da política monetária.

“Acho que a chance de o Copom reduzir o ritmo não existe mais”, diz Ross, que prevê alta de 6,10% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2021 e inflação entre 3,50% e 3,60%, próxima ao centro da meta, para 2022. “Existe um risco de aceleração [do ciclo de alta de juros] com base na evolução das expectativas para 2022 e existe uma chance não desprezível de o BC, no meio do caminho, aumentar esse ritmo de alta para 1,0 ponto porcentual.”

Ross avalia que o BC parece ter ficado desconfortável com a expectativa do mercado para a inflação de 2022 em torno de 3,80% e afirma que um aumento dessa previsão a 3,90% ou 3,95% já pode ser suficiente para desencadear a aceleração do ciclo. Por outro lado, o movimento de apreciação do real em relação ao dólar, somada à alta de juros, pode ser suficiente para conter as expectativas de inflação e dar espaço para uma normalização mais lenta da política monetária. Das 37 instituições consultadas, 28 preveem fim do ciclo de alta ainda em 2021. 

O ASA Investments já incorporou ao seu cenário-base um aumento de juros de 1,0 ponto porcentual na reunião de agosto. Segundo o economista-chefe da instituição, Gustavo Ribeiro, a sinalização do BC de que uma deterioração das expectativas pode exigir aceleração da normalização praticamente contrata um aumento dessa magnitude em agosto, quando o cenário de inflação e atividade deve estar mais pressionado.

Ribeiro lembra que a inflação acumulada em 12 meses deve atingir o pico em agosto e afirma que essa medida tem forte correlação com as expectativas de inflação.

Já o Banco Inter aposta em um fim do ciclo de alta em outubro, com Selic a 5,75%. A economista-chefe, Rafaela Vitória, explica que essa é a taxa considerada neutra pela instituição, suficiente para manter uma inflação próxima da meta em 2022, para a qual estima 3,60%.

“A inflação corrente contamina as expectativas. Em junho do ano passado, a mediana no Focus (para o IPCA) chegou a ser de 1,5%. Hoje é o contrário, mas a inflação é de oferta, e, não, de demanda”, ressalta Vitória. “O choque está se dissipando, com commodities em queda, câmbio mais favorável e o próprio ajuste da política monetária.”

A economista acrescenta que o ambiente externo, com juros muito baixos em países como os Estados Unidos, é outro elemento que sustenta a Selic em nível menor. Como riscos, a economista-chefe cita a possibilidade de um superaquecimento americano e uma mudança da política de gastos por parte do governo brasileiro. “Se (o governo) fizer um Bolsa Família fora do teto e eleva despesas para 2022, vai ter impacto na demanda, pode ter no câmbio e isso pode ser repassado para a inflação”, afirma. 

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Celso Ming
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Celso Ming: Copom aumenta os juros, mas continua atrasado

O Banco Central continua deixando de lado o impacto secundário da inflação de custos no País

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 19h55

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central voltou a aumentar os juros básicos (Selic) em 0,75 ponto porcentual, para 4,25% ao ano, mas continua atrasado no processo de controle da inflação, porque manteve a dose prometida, mesmo surpreendido pela inflação mais alta. 

Na reunião de 6 de maio, o Banco Central reconheceu que estava deixando o trabalho incompleto. O termo usado no documento foi o de que o ajuste procurava a “normalização parcial”. Ao mesmo tempo, deixou como favas contadas nova alta dos juros de 0,75 ponto porcentual na reunião desta quarta-feira. A inflação de maio surpreendeu para cima, ficou no 0,83% e, no período de 12 meses completados em maio, em 8,06%, acima do esperado pelo mercado e pelo Banco Central.

Ficou entendido que o aumento dos juros (o 0,75 ponto porcentual decidido desta vez) calibrados para uma inflação mais baixa continuaria a ser normalização parcial se a inflação viesse mais alta, como veio e promete mais.

Por isso, número expressivo de analistas econômicos entendeu que, para enfrentar essa elevação mais braba de preços, o Banco Central teria de puxar os juros em 1 ponto porcentual. Mas não foi o que aconteceu. O Banco Central limitou-se a retirar a expressão “normalização parcial” do seu comunicado e a adiantar mais uma alta de 0,75 ponto porcentual na próxima reunião, agendada para 4 de agosto.

Ainda prevalece o diagnóstico do Banco Central de que o esticão da inflação não acontece por aumento da demanda interna, mas por choque de oferta. Inflação de demanda é a que acontece com aumento da procura por bens e serviços descasada de oferta equivalente. A atual inflação não se explica pelo aumento da demanda porque o desemprego continua alto (14,7%) e o consumidor brasileiro perdeu renda durante a pandemia. Ela é mais de custos do que de demanda porque vem empurrada pela alta das commodities decidida no exterior. Por isso, não caberia reforçar o aumento dos juros, que é reduzir o volume de moeda na economia, para conter a demanda.

Embora fundamentalmente correto, o diagnóstico do Banco Central do Brasil deixou de lado o impacto secundário dessa inflação de custos, num país em que ainda é forte a indexação (correção monetária).

E mais, nos próximos meses, ainda se esperam três pauladas sobre o custo de vida: a aplicação da bandeira vermelha sobre as tarifas de energia elétrica, em consequência da crise hídrica; a inevitável transferência da alta no atacado para os preços do varejo; e o aumento dos preços do setor de serviços que quase forçosamente se seguirá depois de outubro com o aumento da vacinação.

O que pode atenuar a inflação é o comportamento do câmbio. Nesta quarta-feira, as cotações do dólar chegaram a tocar nos R$ 4,99 (ver abaixo). Isso significa que os preços dos importados, especialmente os dos alimentos e dos combustíveis, enfrentarão importante fator de baixa.

CONFIRA

As cotações do dólar continuam em queda. Atingiram o pico de R$ 5,80 em 9 de março e, nesta quarta-feira, chegaram a resvalar para abaixo dos R$ 5. Mas fecharam a R$ 5,06, na ponta de venda. As causas desse movimento são conhecidas: é a grande abundância de dólares no mercado externo; o excelente desempenho das exportações; a alta dos juros que voltaram a atrair moeda estrangeira; e a relativa melhora da área fiscal. A valorização do real diante do dólar é fator que tende a segurar a inflação.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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Choques de custo desafiam política de juros do BC, diz ex-diretor de política monetária

Para Luiz Fernando Figueiredo, sócio da gestora Mauá Capital, decisão do Banco Central busca controlar as expectativas da inflação para 2022

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 19h15

Para Luiz Fernando Figueiredo, sócio da gestora Mauá Capital e ex-diretor de política monetária do Banco Central, o aumento da taxa básica de juros de 0,75 ponto porcentual está em linha com o processo de normalização dos juros iniciado pela entidade monetária no começo do ano. Segundo ele, esse nível de aumento indica uma posição de firmeza da autarquia, que busca elevar a taxa de juros para conter o aumento da inflação nos últimos meses. 

Em entrevista ao Estadão, Figueiredo afirma que o aumento da inflação tem relação com um choque temporário de custos, puxado principalmente pela elevação dos preços das commodities, que vêm afetando as empresas e consumidores em todo o mundo. É uma situação que deve levar um tempo para se normalizar, à medida que a economia dos países se recupera dos efeitos da pandemia, mas que tende a ser passageira. 

Nesse cenário, segundo ele, os bancos centrais e os governos precisam ficar atentos para reduzir os estímulos monetários e fiscais, para evitar um aumento maior da inflação. “As expectativas sobre a inflação ainda estão dentro do esperado, mas é preciso tomar cuidado para não descolarem da meta do ano que vem”, afirma. Abaixo, trechos da entrevista.

Qual a avaliação do senhor sobre o desafio do Banco Central em responder à pressão inflacionária?

Na minha visão, o aumento da inflação é um fenômeno que o mundo todo está vivendo. E esse fenômeno ainda não se encerrou. À medida que (a economia) vai normalizando, a demanda por alguns produtos e serviços cresce, e a procura por outros itens cai. Mas o mundo ainda vive um nível de desemprego muito elevado. Alguns lugares mais, outros menos. Uma vez que a economia se normalize completamente, é difícil acreditar que o processo inflacionário se mantenha forte.

Por quê?

Porque o desemprego é tão alto que impede um aumento de preços muito elevado. A dúvida que existe hoje é se o desemprego vai sumir rapidamente, devido ao excesso de estímulos. Se isso acontecer, realmente pode ter uma situação de superaquecimento da economia e um processo inflacionário mais vigoroso. O cenário de hoje não é este. É o primeiro cenário: o desemprego ainda alto e choques de preços intensos. 

Como o Banco Central pode responder a esses choques?

O Banco Central consegue ajustar a demanda, mas, sobre os choques de aumento de custo, não há muito o que fazer. Não existe instrumento para agir contra isso. Nenhum banco central no mundo tem. Só que esses choques tendem a ser temporários - desde que não haja uma barbeiragem dos governos. 

E como fica a situação do Brasil?

No caso brasileiro, diria que o desafio é maior porque os choques de preços foram mais acentuados do que no mundo em média, até por causa da nossa fragilidade fiscal. Mas, por outro lado, o nosso desemprego não tende a se reduzir fortemente. 

Por que não?

Porque o Brasil já tinha um desemprego alto antes da pandemia. Além disso, durante a pandemia, muitas empresas aprenderam a trabalhar com menos pessoas. E no Brasil o custo de empregar e desempregar é alto. O mercado de trabalho é rígido. A tendência é (a empresa) trabalhar o máximo que puder sem empregar mais, o que acaba postergando a recuperação do emprego. E também existe um risco fiscal que sempre está à espreita e acaba reduzindo a confiança das pessoas, dos empresários e por aí vai.

Nesse sentido, o risco de uma inflação mais acelerada é menor no Brasil?

O risco de superaquecimento da economia é menor. O risco é haver tantos choques de custos que isso acabe gerando um processo de bola de neve (nos preços dos produtos e serviços). As expectativas sobre a inflação ainda estão dentro do esperado, mas é preciso tomar cuidado para não descolarem da meta do ano que vem. Um desafio importante para o Banco Central é controlar as expectativas. Para que isso aconteça, a gente precisa ter choques menos frequentes e menos intensos. Nesse sentido, houve uma apreciação do câmbio. Os preços das commodities agrícolas interromperam a alta. Estão mais comedidos. Isso tudo pode ajudar. Mas a verdade é que, semana a semana, a gente vê as expectativas sobre a inflação se distanciando da meta do Banco Central. O desafio é controlar minimamente isso. 

Para Entender

Taxa Selic: o que é e como ela mexe com seu bolso

Principal instrumento de política monetária do país no combate à inflação, a taxa pode mexer em empréstimos, financiamentos e aplicações.

Como controlar essa expectativa?

Ficar dando choques (de aumento de juros acima do esperado) um atrás do outro é contraproducente. O Banco Central já surpreendeu o mercado várias vezes ao longo desse processo. Ele tem que se mostrar que está firme. Tem que se mostrar bem disposto a fazer o que for necessário. À medida que se mostra dessa maneira fica mais fácil controlar as expectativas. Lembrando que o que está acontecendo não é um fenômeno só brasileiro. Está acontecendo no mundo inteiro. 

Como avalia a resposta da política monetária ao aumento da inflação?

Tivemos tantos choques, e agora temos essa crise hídrica que trouxe mais inflação. E  parece que levará mais tempo para normalizar. Pode ser mais duradouro. É muito difícil um Banco Central controlar as expectativas quando você tem tanto choque um atrás do outro. O lado positivo é que o risco fiscal pelo menos no curto prazo baixou. O teto de gastos foi respeitado. Temos um orçamento que está mais para o responsável do que para o irresponsável. A arrecadação aumentou e o governo segurou gastos. Esse era um choque muito relevante que atrapalhava o Banco Central. 

O aumento da taxa Selic está em nível adequado?

O Banco Central tem que se mostrar muito firme. Como é a forma de mostrar? Não é aumentando o passo. Porque já está com o passo largo. Não é super extraordinário, mas está acima do normal. Vejo que o Banco Central pensava em normalizar a política monetária parcialmente. A meu ver ele vai ter que abandonar isso. Dado esse processo inflacionário, vai ter que normalizar completamente. O que quer dizer não dar nenhuma paradinha (no aumento de juros). Ir para 6,50%, 7% com uma certa velocidade. 

É onde ele deveria chegar?

Sim. Ele não estará surpreendendo o mercado. O mercado entende que é importante que ele faça. Já colocou isso no preço. Mas não precisa ficar surpreendendo o mercado toda vez. 

O Banco Central subestimou o cenário da inflação quando manteve o juros em 2%?

Agora é fácil dizer isso. Mas desde 2002 a gente não tem essa quantidade de choques (de custos). Era difícil supor que haveria esses choques quando a taxa Selic foi para 2%. A expectativa de inflação no ano passado era bem abaixo da meta. Ele se antecipou e começou um ritmo bem forte de alta. O Banco Central não brincou em serviço. Muita gente foi crítica, dizendo que o câmbio depreciou demais por causa disso. Minha opinião é de que o juro tem pouco impacto na taxa de câmbio quando a gente tem um risco fiscal do tamanho que a gente tem. Algum tem, mas é pequeno. 

O que mais é preciso ficar de olho nos próximos meses na inflação e que pode afetar a política monetária?

A primeira delas é a dinâmica da pandemia: o quanto a economia no mundo está indo ou não para a normalidade. Está cada vez indo mais para a normalidade. À medida que isso ocorre, fica cada vez menos correto continuar com o volume de estímulos fiscais e monetários que o mundo está dando. Tem que haver uma mudança nessas políticas. Quanto mais demorar para fazer essa mudança de política, maior risco a gente tem.

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Analistas mantêm foco em renda variável, apesar do aumento da Selic

Avaliação é que ambiente ainda não é favorável para investir em renda fixa, já que a inflação está acelerada; entre as recomendações de analistas, estão os títulos pós-fixados do Tesouro Direto

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2021 | 05h00

Em regra, quando a taxa básica de juros do País sobe, os investimentos em renda fixa ganham mais atratividade. Mas, apesar de o Banco Central (BC) ter aumentado a Selic pela terceira vez consecutiva, os analistas afirmam que o ambiente ainda não é favorável para o investidor de renda fixa, já que a inflação está acelerada. Por isso, eles dizem que os melhores investimentos continuam sendo em renda variável, como ações na Bolsa, ancorados na expectativa de um forte aquecimento da economia no segundo semestre com a aceleração da vacinação

O Comitê de Política Monetária (Copom) elevou na quarta-feira, 16, a Selic em 0,75 ponto porcentual. Com isso, a taxa básica de juros passou a ser de 4,25% ao ano – o maior patamar desde março de 2020. Já a inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), chegou a 0,83% em maio e acumula alta de 8,06% nos últimos 12 meses e de 3,22% nos cinco primeiros meses deste ano, segundo o IBGE

“Por mais que a gente esteja entrando num ciclo de alta de juros, é o mesmo patamar do início de 2020, ainda baixo se olharmos para nossa história. Abre-se espaço para que o investidor seja ativo em renda variável”, disse o analista da Guide Investimento Henrique Esteter

Entre as apostas dos analistas de corretoras de investimento, estão bancos e exportadoras de commodities, que vêm tendo bom desempenho desde o início de 2021 e tendem a permanecer assim até o fim do ano. Agora, os olhos também estão voltados para setores fortemente afetados pela pandemia, como turismo e varejo de vestuário, porque há espaço para forte recuperação no segundo semestre. Os setores elétrico e de construção civil estão sendo tratados com mais cautela.

“Quando os juros começam a subir, empresas ligadas ao consumo normalmente têm performance mais fraca, porque os consumidores tendem a poupar mais. Só que essas empresas ficaram com o preço em Bolsa tão defasado, por causa da pandemia, que o mercado está olhando com bons olhos no momento”, disse Esteter. 

“O setor de vestuário me agrada porque a maioria não tinha um e-commerce muito bem desenvolvido e tomou uma pancada. Havia uma depreciação muito grande aí, e a perspectiva de recuperação mais rápida faz com que essas empresas se valorizem num ritmo acelerado. Além de ser um setor muito pulverizado, com bastante exposição a shoppings e lojas de bairro. As empresas que possuem acesso ao capital de maneira mais fácil, como as listadas em Bolsa, têm espaço para fazer aquisição e aumentar seu market share. Até o próprio desenvolvimento do e-commerce abriu espaço para que nessa volta à ‘vida normal’ as vendas digitais possam ser um complemento”, disse ele. 

Para a analista da MyCap Julia Monteiro, além dos setores de consumo e varejo, que segundo ela vão se beneficiar da extensão do auxílio emergencial e da maior mobilidade para lojas físicas, tudo o que for relacionado a viagens tem potencial positivo. Por isso, ela aposta não só em companhias aéreas como em empresas de aluguel de carro e concessionárias de rodovias.

Por mais que não haja consenso se a crise hídrica vai atingir os investidores de companhias expostas ao setor elétrico, essa pauta está no radar. Esteter recomenda ficar de olho principalmente nas companhias geradoras de energia com maior exposição ao Sudeste – região onde o nível dos reservatórios é crítica.

A renda fixa, porém, não deixa de ter sua importância para a diversificação do portfólio do investidor. Um ponto forte desse tipo de investimento é a liquidez, necessária em momentos de imprevistos, em que o investidor precisa resgatar o dinheiro.

“Não existe uma regra que diga que é sempre bom ter determinado tipo de investimento na carteira, por exemplo. A questão é que há ativos que estão bem em um determinado momento, e outros que não”, disse Fábio Gallo, professor de Finanças da FGV-SP.

A recomendação de Rodrigo Beresca, analista da Ativa Investimentos, para os investidores mais conservadores é apostar nos títulos pós-fixados de longo prazo. Esses títulos são corrigidos por algum indexador, que pode ser a Selic, o CDI (Certificado de Depósito Interbancário, a taxa de juros cobrada nos empréstimos entre bancos) ou o IPCA, o índice oficial de inflação do País, que está em alta.

“Títulos pós-fixados no curto prazo ainda apanham. O mais interessante é o investidor manter por mais tempo os atrelados ao CDI ou fazer aportes em títulos que tenham correção pelo IPCA”, explicou. Veja o que o analista diz sobre diferentes tipos de investimento: 

  • Poupança. É a menos atrativa da lista de ativos disponíveis no mercado. O ponto positivo é que não há incidência de Imposto de Renda (IR) na hora do resgate. Mas, mesmo assim, ela acaba não sendo atrativa por causa da baixa rentabilidade. Não tem garantido nem a devolução do que o investidor perde com a com a inflação.
  • CDB. No curto prazo, o CDB (Certificado de Depósito Bancário) pós-fixado atrelado ao CDI não é uma opção interessante, mas no médio e longo prazos (acima de 18 meses), sim. Os atrelados ao IPCA também são interessantes, porque vão corrigir o retorno pela inflação e ainda dar um cupom de juros, gerando um ganho real nessa aplicação.
  • LCI e LCA. A vantagem desses instrumentos (Letras de Crédito Imobiliário e Letras de Crédito do Agronegócio) é a isenção do IR, portanto, há um retorno maior do que aplicando em outro ativo que não tenha essa opção, como é o caso do CDB. A lógica para as letras é a mesma: mais atrativo se for no longo prazo porque, com a previsão de novos aumentos para a Selic nos próximos meses, o investidor terá mais chance de embolsar um ganho real (acima da inflação). 
  • Fundos DI. Têm retorno baseado no CDI, que segue a Selic. Em momentos de alta dos juros, tendem a ser uma opção interessante. Mas é cobrada uma taxa de administração, o que diminui o ganho final.
  • Tesouro Direto. Os títulos pós-fixados como a LFT (Tesouro Selic) ou as NTN-B (atreladas à inflação) são os mais interessantes no momento. Os prefixados não são interessantes, por ora. 
  • Fundos imobiliários. Os juros altos tendem a ser desfavoráveis ao mercado imobiliário e seus respectivos fundos, que podem ser medidos pelo Índice de Fundos de Investimentos Imobiliários (Ifix). Mas o setor anda aquecido e pode ser uma boa alternativa. 
  • Fundos multimercado. São considerados uma porta de entrada para investimentos de maior risco, pois misturam renda fixa com renda variável no mesmo pote e podem se beneficiar tanto de produtos pós-fixados quanto dos atrelados ao IPCA.

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