Mercado já recruta 'executivo temporário'

Consultorias se especializam em profissional que chega às empresas para resolver questões transitórias, como processo de fusão ou oferta de ações

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2010 | 00h00

Foi-se o tempo em que trabalho temporário se resumia aos vendedores de shopping centers em época de Natal: as empresas hoje usam a contratação por tempo determinado para funções chave. Em época de implantação de projetos, um diretor financeiro, de operações ou até mesmo um diretor-presidente pode chegar a uma companhia com hora marcada para sair. Dependendo da consultoria que oferece o serviço, o tempo de permanência do executivo no cargo pode variar de 3 a 18 meses.

Desde fevereiro, a consultoria Robert Half oferece no Brasil o serviço que caracteriza a empresa no mundo: o fornecimento de profissionais qualificados para atividades como preparação para abertura de capital, facilitação de processos de fusões e aquisições e reestruturações administrativas. No mundo, 80% do faturamento de US$ 3,1 bilhões da Robert Half vêm da divisão de temporários, segundo Sócrates Melo, executivo da consultoria.

Para a atuação no País, a empresa adaptou o serviço às regras locais, limitando a contratação dos temporários a seis meses. Atualmente, tem 40 profissionais alocados em empresas, com salário mínimo de R$ 5 mil. Melo explica que o setor também desenvolve um sistema próprio de bônus. Sempre que um projeto é implantando antes do previsto, o executivo recebe um prêmio que pode representar o dobro do valor que teria a receber caso tivesse terminado o trabalho no prazo estabelecido.

De acordo com Sócrates Melo, a folha de pagamento da Robert Half tem hoje profissionais de 27 a 45 anos. "Tenho casos de pessoas que estavam em empregos fixos e aceitaram um projeto temporário, pois aprenderiam mais em seis meses desta forma do que em dois anos na companhia onde trabalhavam."

Cuidados. Nem todas as funções, porém, podem ser ocupadas por um funcionário temporário. Leonardo Toscano, sócio-fundador da Excelia, consultoria aberta em 2009 e especializada em contratos de até 18 meses, diz que a ferramenta do executivo temporário não se aplica às áreas industrial e de vendas, por exemplo. Mas ele defende que a gestão transitória funciona nos setores financeiro, de gestão e até mesmo para o CEO, dependendo do momento pelo qual a empresa passa.

Na visão de Toscano, o gestor temporário geralmente precisa estar preparado para fazer o papel do "vilão corporativo": muitas vezes, explica ele, as reestruturações envolvem corte de pessoal ou interrupção de uma linha de produção. "São decisões difíceis, e o executivo precisa estar preparado para ser assertivo e dominante em suas ideias", diz o especialista. "Além disso, precisa ter uma polivalência, estar preparado para navegar em diferentes setores, passando de uma empresa de varejo para uma industrial em um mesmo ano."

Embora o profissional abra mão da segurança que a estrutura do mercado oferece ao profissional de carreira, quem escolhe fazer trabalhos específicos leva vantagens em remuneração e flexibilidade. "Esse profissional desenvolve uma rede de relacionamentos muito grande. Terá a chance de aprender e evoluir, trabalhando com executivos de alto nível", afirma Melo, executivo da Robert Half.

Em ordem. O analista contábil Marcelo José da Silva, 39 anos, trabalha atualmente em uma empresa de agronegócio - foi contratado por 90 dias, após a empresa ter sido dividida em três divisões distintas. "Foram chamados profissionais para manter a contabilidade em ordem", diz.

Silva, que antes trabalhava em um escritório que presta serviços de contabilidade a várias empresas, diz que a nova função exige flexibilidade: "É preciso estar preparado para fazer qualquer trabalho, resolver problemas."

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