Mercado na expectativa sobre barril do pré-sal

Sem definição de preço, Petrobrás não tem como manter capitalização para setembro

Lu Aiko Otta, Leonardo Goy, Renato Andrade, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

Corrida contra o tempo. Valor do barril deve ser aprovado esta semana para que data prevista pela Petribrás seja cumprida                

 

 

 

 

 

 

 

BRASÍLIA

Na noite da quarta-feira passada, o governo recebeu uma má notícia: ao contrário do que esperava, duas empresas certificadoras contratadas para calcular o preço do barril no pré-sal - uma para o governo e outra para a Petrobrás - haviam chegado a resultados muito diferentes. Seria preciso buscar um número de consenso.

A cotação do barril é a informação mais aguardada atualmente pelo mercado financeiro. Ela será referência para calcular o valor de um dos maiores contratos já assinados na história do País: a capitalização da Petrobrás pela União.

O aporte será no valor equivalente a até 5 bilhões de barris - o que, de acordo com informações extraoficiais obtidas pelo Estado, levaria a operação entre o governo e a estatal a algo entre US$ 25 bilhões e US$ 60 bilhões, dependendo de qual preço se utilize (US$ 5 ou US$ 12 por barril).

Há no governo uma divisão quanto à data a se realizar a capitalização. No momento, a informação oficial é que ela ocorrerá até o dia 30 de setembro, data defendida pela Petrobrás. Para que isso seja possível, porém, o valor do barril tem de ser aprovado esta semana pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Como a reunião tem de ser convocada com 48 horas de antecedência, ela ocorrerá na quarta-feira, na melhor das hipóteses. Mas, como os técnicos ainda não chegaram a um acordo, é grande o risco de a análise do CNPE ficar para a próxima semana ou mais adiante.

O adiamento viria ao encontro da ala política do governo, para quem o ideal seria não fazer a capitalização a três dias da eleição. Eles argumentam que as condições de mercado poderiam ser melhores após o pleito.

No fundo, porém, existe o temor de que o processo gere algum fato a ser explorado pela oposição. Há o risco, por exemplo, de a capitalização resultar em aumento da participação do governo na estatal, caso os minoritários não participem integralmente da operação. Isso daria munição para se criticar o aumento da presença do Estado na economia.

Olho do presidente. Até segunda ordem, a equipe de governo trabalha pesado para cumprir os prazos e concretizar a operação em setembro. Já na quinta-feira, técnicos dos ministérios de Minas e Energia, Fazenda, Casa Civil, Petrobrás e Agência Nacional do Petróleo (ANP) reuniram-se para comparar os cálculos utilizados por cada certificadora e buscar um número de consenso.

Os ministros de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, e da Casa Civil, Erenice Guerra, viajaram em segredo de Brasília para o Rio de Janeiro, para acompanhar as discussões. Erenice é apontada como o olho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas discussões.

Na sexta-feira, Erenice esteve reservadamente no Ministério de Minas e Energia. A praxe do poder é o ministro ir ao Planalto, e não o contrário. No mesmo dia, o presidente Lula e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, conversaram em São Paulo, no escritório da Presidência da República.

Chegou a circular a informação de que os dois teriam decidido pelo adiamento da operação, o que acabou não se confirmando, pelo menos até o início da noite de sexta.

As indefinições em torno da capitalização provocaram queda na cotação das ações da Petrobrás. Na semana, as ações ordinárias da empresa tiveram queda acumulada de 4,59%, enquanto as preferenciais caíram 3,18%.

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