Sergio Moraes/Reuters
Sergio Moraes/Reuters

Mercado reage com aprovação a indicações para a Petrobras e ações sobem 5%

Especialistas apontam que o prazo até as eleições é curto e que a política de preços e a gestão devem ser muito semelhantes às que estão sendo implementadas até agora

Wagner Gomes, Beth Moreira e Denise Luna, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2022 | 12h12
Atualizado 07 de abril de 2022 | 19h45

RIO E SÃO PAULO - Os nomes indicados pelo governo para os principais cargos da Petrobras foram bem recebidos pelo mercado financeiro, que reagiu com alívio nesta quarta-feira, 6, depois de o governo indicar para a presidência da empresa o ex-secretário do Ministério de Minas e Energia José Mauro Coelho, e para a presidência do conselho de administração o atual conselheiro da empresa e ex-diretor da Petroserv Marcio Weber, executivos alinhados com o governo e defensores da atual política de preços da estatal. Tantos os papéis preferenciais como ordinários da Petrobras fecharam em alta de mais de 5%, confirmando a aprovação dos novos nomes, que ainda terão que passar pela Assembleia-Geral Ordinária da estatal, no próximo dia 13.

Além de técnicos e conhecedores do setor de petróleo e gás, a percepção é de que os novos futuros gestores da maior empresa brasileira não terão tempo de alterar as regras do jogo, ou seja, a política de preços dos combustíveis da companhia, de paridade com o preço de importação (PPI), e que se tornou uma das grandes dores de cabeça para a reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Acompanhando o mercado internacional, os preços internos dos combustíveis dispararam no Brasil junto com o petróleo, elevando a inflação para os dois dígitos, o que não acontecia desde 2016, quando foi implantado o PPI.

"São nomes que parecem atender os requisitos técnicos da Lei das Estatais e também o estatuto da própria empresa, além de terem experiência no setor", diz Gabriel Brasil, analista de riscos políticos do escritório Cone-Sul da consultoria Control Risks. “Parece improvável, a esta altura e a poucos meses da eleição, que uma nova diretoria consiga alterar significativamente políticas da empresa, inclusive com relação à sua gestão de preços", comentou após a divulgação das indicações da União.

O presidente Jair Bolsonaro decidiu demitir o atual presidente da Petrobras, general Joaquim Silva e Luna, depois de um novo aumento de preços dos combustíveis no último dia 11 de março. As primeiras indicações, do presidente do Flamengo Rodolfo Landim para o Conselho, e do economista Adriano Pires para a presidência, esbarraram no teste de conformidade da governança da estatal, e eles tiveram de desistir.

Os nomes dos dois executivos surgiram após dois dias de tensão e especulações no mercado. Na avaliação do consultor João Frota, da Senso Investimentos, a decisão é uma vitória de Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia, que preferia pessoas com perfis técnicos para os cargos. Segundo Frota, Coelho e Weber estão alinhados com as práticas de boa governança da companhia e agradam ao mercado, já que afastam o viés político de decisões, sobretudo em relação à paridade de preços internacionais.

"A eleição se aproxima, e esses nomes devem perdurar até completar esse ciclo. Ou seja, não vão inventar moda nesta altura do campeonato. O contraponto é que se trata da terceira gestão em apenas um mandato de governo (Bolsonaro), o que não é bom, principalmente em uma empresa com o porte da Petrobras", afirma.

Para Carlos Castrucci, sócio-fundador da HOA Asset Management, Coelho e Weber tendem a manter a companhia dentro do rumo que ela vem trilhando desde o mandato do Pedro Parente, que implantou a atual política de preços de paridade com a importação. Ele diz não acreditar que haverá mudança de preço ou de estratégia da empresa e afirma que a definição dos nomes “é um risco a menos para a companhia.”

Desafios

O Itaú BBA também considerou positivas as indicações para a Petrobras, e avalia que ambos atendem aos requisitos estabelecidos no estatuto da empresa e nos critérios da legislação. Apesar disso, o banco alerta que a companhia deve continuar enfrentando desafios no que diz respeito à convergência de preços com a paridade internacional, no contexto de preços elevados do petróleo. Depois de atingir US$ 139 o barril por causa da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, a commodity vem perdendo valor e nesta quinta-feira o barril do tipo Brent era negociado a cerca de US$ 100, um patamar elevado se comparado há um ano, quando operava entre US$ 60/U$ 70 o barril.

Em relatório, os analistas Leonardo Marcondes e Monique Greco, do Itaú BBA, destacam que Coelho é defensor de uma dinâmica aberta e competitiva no segmento de downstream (refino e distribuição), com outros concorrentes produzindo e importando combustíveis para abastecer o mercado interno, permitindo que a Petrobras se concentre no desenvolvimento do pré-sal enquanto desinveste de outros negócios. "Coelho também é a favor da autonomia da Petrobras para definir e executar sua própria política de preços, evitando a escassez de combustível no mercado interno", ressaltam.

Também o analista Pedro Galdi, da Mirae Asset, prevê que os novos dirigentes devem manter a política de preços dos combustíveis e dar continuidade à estratégia da companhia de desinvestimentos. "O nome (de Coelho) foi bem recebido pelo mercado, inclusive com elogio da escolha pelo atual CEO da Petrobras, Joaquim Silva e Luna. Ele atende os critérios impostos pelas regras de conformidade da empresa, além de ter bom relacionamento político e no setor de energia. Não aguardamos nenhuma mudança em relação à política de reajustes de preços da empresa e na sua estratégia de desinvestimentos", afirma.

Após as indicações, o UBS BB reiterou sua visão positiva para a Petrobras. "Nós acreditamos que as nomeações e o processo destacam a governança da empresa e independência, e reiteramos nossa visão positiva sobre a Petrobras, vendo o risco fortemente inclinado para o lado positivo, com rendimentos de dividendos trimestrais de 5% a 7%", destacam em relatório do UBS os analistas Luiz Carvalho, Matheus Enfeldt e Tasso Vasconcellos.

Eles lembram que Weber já era membro do Conselho da Petrobras e por isso o movimento era parcialmente esperado, com o nome do executivo mencionado por vários investidores esta semana. "Vemos que Weber pode contribuir para a continuidade da estratégia da Petrobras e proporcionar alguma estabilidade em um período de mudanças, especialmente antes das eleições", afirmam.

Para os analistas, Coelho se destaca por uma longa experiência no setor de energia,tendo trabalhado na Empresa Brasileira de Pesquisa Energética (EPE), como secretário de Petróleo, Gás e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia e como presidente do Conselho da Pré-Sal Petróleo (PPSA). "Dado seu histórico mais no lado técnico e papel no PPSA (que trata da comercialização da participação do governo no campos do pré-sal), não esperamos nenhuma interferência na estratégia e foco em andamento", avaliam.

O banco manteve recomendação de compra para as ações da Petrobras, com preço-alvo de R$ 44 tanto para o papel ordinário quanto para o preferencial, o que corresponde a um potencial de valorização de 26% e 36%, respectivamente.

Sem tempo para mudanças

Para o Bradesco BBI, até as eleições haverá pouco tempo para tentar implementar quaisquer mudanças na política de preços da Petrobras, e a abordagem deve ser muito semelhante às que estão sendo implementadas até agora. "Weber também é um nome altamente técnico, tendo trabalhado na Petrobras por 16 anos e tendo contribuído para o desenvolvimento da Bacia de Campos e nas atividades internacionais da Petrobras. Possui também sólida experiência no setor privado", apontam os analistas.

De acordo com o analista Ilan Arbertman, da Ativa Investimentos, "além de perfil técnico, o indicado para a presidência da Petrobras, José Mauro Coelho, dispõe de boa interlocução com o executivo, detendo bom relacionamento com o ministro Bento Albuquerque".

Ele considerou o desfecho da crise provocada pela desistência dos dois primeiro indicados “o melhor dos mundos”, por ser simples e não ameaçar a política de preços da companhia. Em 2021, a Petrobras teve o melhor lucro da sua história e anunciou dividendos de R$ 100 bilhões para os acionistas. “O governo finaliza os cargos vagos, o que diminui a dose de dúvida e assimetria que passamos nos últimos dias. Deve diminuir a volatilidade dos papéis da empresa ao longo dos próximos dias”, prevê Arbetman.

Segundo o coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), William Nozaki, Coelho deixou o Ministério de Minas e Energia sob pressão dos caminhoneiros, e defendendo a atual política de preços. Ele iz que assim como Marcio Weber, manterá seus votos alinhados à atual política de preços, dividendos e desinvestimentos. Para Nozaki, a atual política de preços da Petrobras é um cemitério de presidentes da companhia, referindo-se às sucessivas trocas nos últimos anos. O mais longevo presidente da estatal foi José Sérgio Gabrielli, durante o governo do Partido dos Trabalhadores, de 2005 a 2012.

"Não adianta mudar a presidência se não mudar a política. Passaram pela Petrobras nos últimos anos Pedro Parente, Ivan Monteiro, Roberto Castelo Branco e Joaquim Silva e Luna e a inflação de combustíveis só piorou. Esse caos provoca perdas para o mercado e para os consumidores", conclui Nozaki.

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