Mercado reage bem a acordo e euro sobe

Mercado reage bem a acordo e euro sobe

Mecanismo de urgência para países em crise, com participação do FMI, é recebido com otimismo e faz a moeda inverter trajetória de baixa

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

Não houve euforia, mas os principais mercados financeiros da Europa receberam com otimismo ontem o acordo celebrado pela União Europeia que criou um mecanismo de financiamento de urgência para países em crise, com participação do Fundo Monetário Internacional (FMI). Depois de sucessivas baixas, que o levaram a seu pior valor ante o dólar em dez meses, o euro inverteu sua trajetória de baixa.

A avaliação positiva se deveu, em parte, ao fim de dois meses de discussões entre chefes de Estado e de governo sobre a crise de liquidez da Grécia. O acordo foi possível graças a um entendimento bilateral entre o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, garantindo que o mecanismo só será acionado "como último recurso".

O plano misto de refinanciamento de dívidas prevê a participação majoritária dos 16 países da zona do euro, que realizariam empréstimos bilaterais equivalentes a cerca de 65% do montante total, combinada à atuação minoritária do FMI, que arcaria com os demais 35%. "Creio que a Europa provou sua capacidade de ação. Ela trabalhou pela estabilidade do euro e provou sua solidariedade para com um país que enfrenta dificuldades", afirmou Angela Merkel, ontem, na abertura do segundo dia da cúpula do Conselho Europeu, em Bruxelas.

Até a resistência à inclusão do FMI, que havia sido criticada na noite de quinta-feira pelo presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, diminuiu ao longo do dia. Após ter assegurado ao BCE um poder de veto sobre os socorros futuros, Trichet fez elogios ao plano. "Estou contente que haja este acordo", afirmou. "E estou confiante que o mecanismo decidido não será ativado e a Grécia recuperará progressivamente a confiança dos mercados."

Nos mercados financeiros, a repercussão acabou sendo positiva. Por volta das 22h de quinta, instantes antes do anúncio oficial do acordo, o euro era vendido a US$ 1,3277, seu pior valor desde maio de 2009. Ontem, por volta de 18h, era negociado a US$ 1,3391 - recuperando em um dia mais de um centavo, ou 50% de suas perdas nas últimas duas semanas.

Reação em Atenas. Outro indício do otimismo moderado foi o dia nas principais praças financeiras da Europa, que oscilaram próximo da estabilidade. A melhor reação ocorreu em Atenas, onde a bolsa subiu 4,12%. Entre os índices de bancos - beneficiados pelo plano, já que a primeira alternativa grega será o sistema financeiro -, o aumento foi ainda maior: 8,42%.

Um dos efeitos concretos foi a recuperação parcial do valor das ações europeias, que sofriam com a desconfiança dos investidores e com a indefinição em Bruxelas. "O acordo imediatamente permitiu às ações europeias recuperar seu atraso em relação às americanas", lembrou François Chevallier, economista estrategista do Banco Leonardo.

A expectativa do mercado agora se volta para a próxima captação de recursos da Grécia. Até maio, o país deve buscar no sistema financeiro entre ? 20 bilhões e ? 25 bilhões, oferecendo em troca títulos da dívida pública. Até o fim do ano, estima-se que Atenas precise de ? 56 bilhões para saldar seus débitos mais emergenciais.

Governo econômico. Um dos temas mais caros à França de Nicolas Sarkozy, a proposta de um governo econômico comum na União Europeia, provocou uma controvérsia em Bruxelas. A versão francesa do comunicado oficial do primeiro dia da reunião de cúpula do Conselho Europeu afirma que os líderes políticos devem "reforçar o governo econômico da União Europeia".

Já na versão em inglês, a expressão usada é "governança econômica da UE". A diferença é sutil, mas indica uma diferença de pesos: "governança" é menos forte que "governo". Às vésperas de uma eleição interna complicada e cioso de reafirmar a soberania do Reino Unido, o premiê Gordon Brown reagiu: "Eu insisto que o comunicado fala em melhorar a governança econômica da UE. Ele não fala de "governança econômica"".

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