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‘Mercado requer atenção do investidor’, diz gestora do Banco do Brasil

Mercado financeiro deve ser marcado pela liquidez no ano que vem, de acordo com Takahashi

Entrevista com

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2013 | 02h10

O presidente da BBDTVM, gestora de fundos do Banco do Brasil (BB), Carlos Massaru Takahashi, não vê facilidade no cenário de investimento. "A gente ainda olha o mercado com bastante volatilidade, o que requer atenção do investidor", afirma. A gestora de fundos é a maior do País, e administra R$ 483,29 bilhões - detém 20,61% do mercado.

Takahashi também é vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Apesar de a poupança estar com captação recorde neste ano, ele diz que a indústria de fundos ainda é competitiva. "Os fundos que estão disponíveis concorrem tranquilamente com a poupança."

A conversa com Takahashi faz parte de uma série de entrevistas do Estado com os principais gestores de recursos de bancos. A seguir os principais trechos da entrevista.

Qual sua expectativa para a taxa de juros?

Acredito numa elevação da taxa de juros (Selic) na casa dos 10% este ano por causa das últimas manifestações do Banco Central. E, no ano que vem, enxergo alguma coisa como 10,25%. Essa alta se deve a uma inflação, ainda sob controle, mas persistente num patamar de 6%, nível que a gente imagina que vá permanecer ao longo de 2014.

Por que a inflação vai se manter persistente?

Temos alguns cenários que nos levam a essa conclusão. O real deve ficar um pouco mais depreciado por causa da questão internacional e de uma 'reprecificação' do risco soberano do País. Ou seja, a pressão inflacionária deve continuar, assim como a necessidade de manter um aperto monetário maior. Mas não estamos falando de um choque amplo (na alta dos juros).

Qual é a avaliação da economia internacional?

Para o ano que vem, a gente continua acreditando no crescimento disseminado das principais economias, como é o caso dos Estados Unidos. A Europa vai continuar saindo da recessão. O Japão ainda deve ter um avanço interessante. E a China, com todas as medidas estruturais que estão sendo adotadas pelo governo local, deve ter um crescimento próximo de 7,5%.

Qual será o impacto da normalização da política do Federal Reserve, o Fed, banco central dos Estados Unidos?

A retirada dos estímulos pelo Fed deverá ser gradual, mesmo que ela comece em dezembro. Isso pode fazer com que se tenha um ajuste de fluxos (na economia mundial) um pouco mais tênue do que alguns analistas acreditam.

Diante desse cenário, como ficam os investimentos?

A gente ainda olha o mercado com bastante volatilidade, o que requer atenção do investidor. Em 2014, ainda vai se valorizar bastante a liquidez. E não é possível pensar num cenário de longo prazo sem ver um risco maior. Também enxergamos oportunidades nos prazos mais curtos. É onde temos procurado atuar. A gente tem buscado esse foco, com uma posição conservadora e pé no chão na renda fixa.

Quais são essas estratégias de investimento na renda fixa?

Faz mais sentido uma opção mais leve em juros prefixados e inflação. Nessa estratégia, há um enfoque muito forte na liquidez e estamos evitando posições sujeitas a um nível de volatilidade maior.

E no cenário de longo prazo da renda fixa?

Os fundos de crédito privado e os ativos vinculados à infraestrutura podem ser considerados uma oportunidade bastante interessante por causa dos incentivos tributários desses produtos.

Como o sr. analisa o investimento na renda variável?

De forma geral, na renda variável é preciso um enfoque na gestão ativa. Os fundos setoriais e de dividendos, por exemplo, continuam sendo boas alternativas, além dos fundos stock picking (estratégia de seleção de ativos). Com o crescimento das economias mundiais, também temos uma agenda exportadora pela frente, e as empresas do setor podem ser favorecidas na Bolsa.

Quais setores o sr. acha que podem se beneficiar?

A gente espera um cenário positivo para os setores de siderurgia, mineração e papel e celulose, porque são ligados à exportação.

E as apostas nas empresas focadas no mercado doméstico?

Tivemos uma safra de bons resultados no terceiro trimestre em termos de fundamentos de diversos segmentos. Mas chamou muito a atenção o desempenho do setor financeiro e de educação. Recentemente, os dois IPOs (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês) na área de educação - o da Ser Educacional e da Anima Educação - foram muito bem sucedidos. E, no setor financeiro, é possível notar nos balanços que as principais instituições conseguiram fazer um bom trabalho na questão da eficiência. Os bancos melhoraram bastante a estrutura de resultados.

Para 2014, o que muda da estratégia deste ano?

A gente faz uma contínua revisão da estratégia de investimento. Os ajustes em parte das nossas carteiras está sendo realizado e ocorreu especialmente neste segundo semestre quando passamos a ter uma nova perspectiva da Bolsa, com algum nível de recuperação.

A poupança tem batido recorde de captação este ano. Vale a pena investir num fundo?

No cenário que a gente trabalha hoje, vale com certeza. O investidor recorre à poupança por várias razões, mas, às vezes, ele não se dá conta de que a poupança tem aniversário. Então, se ele saca o dinheiro fora do aniversário, perde toda a rentabilidade. Ao contrário, na indústria de fundos, se o investidor saca depois de 15 dias, ele vai ter a rentabilidade do período, ainda que esteja sujeito a todos os custos que a indústria tem. Nesse patamar de juros, indiscutivelmente as instituições financeiras têm opções de fundos para conseguir preservar o capital do investimento e obter um retorno.

Mas os custos da indústria de fundo estão sendo reduzidos?

Já tivemos um movimento grande (de redução) no período em que houve uma sinalização de que a taxa de juros chegaria a 8,5% ao ano. Houve uma grande discussão no mercado sobre a competitividade da indústria de fundos em relação à poupança para manter o equilíbrio entre as duas alternativas. Naquela época, o governo implementou a sistemática do redutor. Mas hoje, com a taxa de juros atual, os fundos que estão disponíveis concorrem tranquilamente com a poupança.

Antes se falava no ganho de 1%. Qual é novo número que o investidor deve buscar?

Falava-se muito em 1%, fazendo uma conta fácil, porque o mercado acaba encontrando alguns números cabalísticos ou de referência para ficar mais fácil. O investidor espera sempre que a aplicação proporcione algo acima da inflação, tenha um prêmio de risco, além de uma terceira variável, que é a competência do gestor. Hoje, eu acho que o investidor tem de olhar todos esses aspectos.

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