Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Mercado se frustra com Bolsonaro, mas ainda mantém apoio

Setor financeiro considera que, além de presidente ganhar força com auxílio emergencial, ainda não há alternativa ‘viável’ para 2022

Fernando Scheller, Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2020 | 05h00

Se ainda tinha esperanças de uma agenda robusta de reformas, austeridade fiscal e privatizações daqui até 2022, o mercado financeiro perdeu de vez as ilusões durante a pandemia. A gota d’água em um copo já cheio de mágoas pelo não cumprimento de promessas de política econômica veio há duas semanas, quando o governo ameaçou dar uma pedalada fiscal para financiar o Renda Cidadã, programa de distribuição de renda que é a atual menina dos olhos do presidente Jair Bolsonaro. Ainda assim, o mercado reluta em desembarcar de vez do governo – seja porque a popularidade do presidente tem até crescido em meio à pandemia, seja pela avaliação de falta de opções, até o momento, para se apostar as fichas nas eleições de 2022. 

 “Ninguém, em sã consciência, vai comprar uma briga com um presidente com 40% de popularidade”, definiu um diretor de um grande banco brasileiro ao Estadão. A reportagem conversou com uma dezena de executivos de bancos de varejo, bancos de investimento e fundos, e a avaliação é que itens importantes da agenda econômica devem demorar mais a avançar do que o prometido. No entanto, tanto pela forte posição do presidente quanto pela indefinição de outros nomes com chances eleitorais que defendam um ideário liberal, a estratégia atual do mercado é a de esperar para ver. 

Furar o teto de gastos – mecanismo instituído em 2016, no governo Michel Temer, que limita o crescimento das despesas ao aumento da inflação – pode ser perigoso: ao ameaçar fazer isso, por meio da manobra do uso do dinheiro dos precatórios, o governo federal foi alvo de uma saraivada de críticas. 

Caso decida jogar a austeridade fiscal para o ar, bancos, financeiras e fundos de investimento não devem apenas elevar o volume das críticas. Vão cobrar ainda mais caro para rolar a dívida pública brasileira – deixando o governo enforcado. A falta de confiança deve levar a juros mais altos, inflação e, mais adiante, aprofundar a recessão, segundo avaliação do mercado.

Logo, ainda na definição de executivos de mercado, o governo Bolsonaro está em um dilema do tipo “o ovo ou a galinha”. Entendeu, graças ao auxílio emergencial, que distribuir dinheiro à população dá popularidade. De olho nesse capital político, o presidente pretende criar o Renda Cidadã, um programa de incentivo menor, mas permanente. A ameaça de furar o teto de gastos pode pegar mal com investidores, mas gastar mais tem ajudado na popularidade.

Agenda 

Outro tema de discussão em pauta no mercado é a dificuldade do ministro da Economia, Paulo Guedes, de entregar a agenda de reformas e competitividade prometida. 

Na visão do economista-chefe da Garde, Daniel Weeks, o ministro não tem conseguido convencer Bolsonaro que é “preciso cortar na carne para fazer ajustes”. Na briga com os articuladores políticos do governo – como o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR) –, Guedes parece estar em desvantagem. “O que vemos hoje é que a política está dando as cartas.” Se tudo continuar como está, diz Weeks, Bolsa e dólar vão continuar sob pressão.

Para Luiz Fernando Figueiredo, sócio da Mauá Capital, qualquer que seja a solução encontrada para o Renda Brasil, vai ser difícil para o governo tirar a dúvida do mercado financeiro sobre seu comprometimento com o controle de gastos. 

“E essa dúvida faz com que a dívida pública não pare de subir. O fato é que o País empobreceu. E não é possível que o setor público não entre com sua cota de contribuição (nos sacrifícios)”, diz Figueiredo. “Ou a gente cuida disso (contas públicas) ou o Brasil vai cair no precipício”, acrescenta (leia mais nesta página). 

Eventual saída de Guedes não é mais um tabu

A saída do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, não é mais um tabu entre os tomadores de decisão do mercado financeiro. Pelo contrário: pode ser até solução. “Se o Guedes estiver indo embora e o governo disser: estou trazendo dois nomes – um para o ministério e outro para a articulação política – que o mercado veja como capazes de empurrar as reformas administrativa e tributária, além das privatizações, todo mundo vai adorar”, disse um gestor de um fundo de investimento. 

A permanência do ministro, atualmente, é vista como um “bote de salvação” apenas para o teto de gastos – que é o mínimo para que o País continue a poder pensar em recuperação da economia em 2021 e 2022. Ficou claro, porém, que ele não deve conseguir empurrar uma agenda mais ousada. Dessa forma, avaliam economistas e gestores de bancos, o volume do clamor “fica Guedes” tem diminuído nos últimos meses.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.