Mercado subestima o risco Trump

 

Claudio Adilson Gonçalez*, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2017 | 19h24

Em 1984, o conceituado psiquiatra norte-americano Otto Kernberg descreveu um transtorno psíquico conhecido como narcisismo maligno. Diferentemente do narcisismo comum, o maligno é um severo distúrbio, caracterizado por certa falta de consciência, busca patológica de poder e grandiosidade e sentimentos de alegria sádica em ser cruel.

Bem, leitor, você não se enganou de sessão, este é um artigo de economia, evidentemente, não de medicina psiquiátrica. Mas não há como deixar de pensar em Donald Trump ao ler os sintomas dessa patologia descrita pelo doutor Kernberg.

Meu ponto, aqui, é ressaltar que o novo presidente dos EUA, pela sua insensatez e radicalismo, representa um enorme risco, não só para a economia norte-americana, como para a dos demais países do mundo, incluindose, evidentemente, o Brasil. Mais: o mercado está subestimando o risco Trump.

Seu governo pretende fechar a economia, expandir gastos públicos e cortar receitas, exatamente quando há claros sinais de que os EUA estão em pleno-emprego e com estagnação da produtividade total dos fatores de produção (PTF). Ou seja, o crescimento modesto do PIB norte-americano se deve mais a fatores relativos à oferta do que à demanda. Além da estagnação da PTF, a força de trabalho vem crescendo a taxas declinantes, em razão da aposentadoria da chamada geração "baby boomers", quais sejam, os nascidos durante a explosão demográfica do pós-guerra (1945-1964).

Em tais condições, protecionismo, combinado com expansão fiscal, tende a elevar a inflação e, consequentemente, os juros. Mas não deverá ser uma alta modesta, como o mercado vem precificando. A julgar pelas primeiras semanas de governo, Trump pretende radicalizar sua política econômica. Tudo o mais constante, juros nominais norte-americanos elevados fortalecem o dólar, derrubam preços de commodities e elevam o risco dos países emergentes. Para os EUA, o fortalecimento do dólar acaba por provocar aumento do déficit comercial, levando a um resultado exatamente oposto ao pretendido por seu governo.

Mais importantes do que o aumento dos juros são os retrocessos institucionais que Trump tende a provocar nos EUA. Suas ações diretas sobre empresas, num esquema de punição e recompensa, visando a "enquadrálas" em sua política protecionista, é um acinte ao livre mercado, um dos maiores valores não só da economia, mas da própria nação norte-americana. O mesmo se pode dizer de sua xenofobia, que, ao limitar a livre circulação de pessoas, aumentará o custo da mão de obra e restringirá o aproveitamento de talentos estrangeiros pelas empresas norte-americanas, também uma característica histórica da maior economia do mundo.

O mercado tem se seduzido por um esperado surto de crescimento decorrente da redução de impostos corporativos, de menores restrições ambientais para as indústrias e dos benefícios a serem auferidos pelos setores protegidos. Essa é uma visão míope, que dá peso excessivo aos efeitos de curto prazo. Protecionismo e expansão fiscal podem provocar surtos efêmeros de crescimento, mas são desastrosos no médio e no longo prazos, dados os danos que causam na produtividade da economia.

Para o Brasil, são secundários os efeitos decorrentes de oportunidades que podem surgir para nossas exportações em razão da saída dos EUA do Acordo de Associação Transpacífico (TPP) e das sanções ao México. Sim, tais oportunidades existem, mas o balanço de riscos é negativo, inclusive pelos prováveis obstáculos às nossas exportações para o mercado norte-americano (US$ 23,2 bilhões, em 2016). Mais importante que isso é que a maior economia do planeta, também centro nervoso do mercado financeiro global, deverá sair bastante enfraquecida do governo Trump. E isso não é bom para o mundo, tampouco para o Brasil.

*Economista, diretor-presidente da MCM Consultores, foi consultor do Banco Mundial, subsecretário do Tesouro Nacional e chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda

 

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