Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Mercado teme pressão sobre Petrobrás

Desistência de grandes empresas do megaleilão e urgência do governo em arrecadar podem fazer com que estatal deixe de pagar dívidas

Cristian Favaro e Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 04h00

SÃO PAULO/RIO - O mercado acendeu um sinal de alerta para o megaleilão de petróleo e gás desta quarta-feira, 6. A preocupação é que a desistência de multinacionais – como a britânica BP e a francesa Total –, somada à pressa do governo em arrecadar no curto prazo, sobrecarregue a Petrobrás. O principal temor é que para comprar duas áreas – Búzios e Itapu –, pelas quais já demonstrou interesse, a estatal deixe de pagar dívidas e não consiga atingir a meta financeira do ano que vem. 

Os dois campos de interesse da Petrobrás custam cerca de R$ 70 bilhões. Esse valor deve ser completamente pago ao Tesouro até 26 de junho do ano que vem. Além do bônus de assinatura, quem ganhar também vai ter de compartilhar parte do lucro com a União em forma de petróleo. As demais petroleiras ainda vão indenizar a estatal por investimentos antecipados.

Na concorrência de amanhã, a 6.ª Rodada de Partilha, também de áreas do pré-sal, a expectativa é que a Petrobrás mantenha a postura agressiva frente aos concorrentes. O pré-sal da Bacia de Santos está no foco do seu investimento e a tendência é que ela não perca nenhuma oportunidade de estar mais presente na região.

Com tanto movimento simultâneo, até mesmo integrantes do governo estão preocupados com o fôlego da estatal e das demais petroleiras para investir no Brasil. Fontes que acompanham de perto a organização das duas licitações dizem que há receio de que falte cacife.

“A Petrobrás pode se sentir tentada a concorrer com apostas elevadas, o que resultaria na empresa fazendo altos desembolsos em bônus de assinatura (materialmente acima dos US$ 9 bilhões em créditos que possui com o governo). Isso atrapalharia a desalavancagem da empresa, pelo menos no curto prazo”, afirmou em relatório ao mercado o analista do Bradesco BBI, Vicente Falanga.

Desalavancar significa consumir menos caixa com o pagamento de dívidas, que hoje correspondem a duas vezes e meia o que ela gera de dinheiro. A meta é chegar a uma relação de uma vez e meia, nível compatível ao de empresas saudáveis.

Uma forma de reduzir essa conta mais rapidamente seria usando os R$ 34 bilhões que tem de crédito com a União, fruto de um acerto de contas por áreas adquiridas em 2010. Mas o presidente da companhia, Roberto Castello Branco, informou que vai usar todo esse dinheiro no leilão de hoje e que vai gastar mais um tanto na disputa. Na visão do mercado, essa estratégia pode retardar a recuperação financeira.

A presença da Petrobrás no leilão em si não é alvo do questionamento. O Credit Suisse, por exemplo, avalia que os ganhos superam as perdas e que a estatal é especialmente favorecida, por conta da compensação que vai receber das demais vencedoras. “Na nossa visão, há uma assimetria em favor da Petrobrás”, diz em relatório. Na mesma linha, o Bradesco BBI, aprova a estratégia, mas fixa em US$ 14 bilhões o limite de gasto para que suas finanças não sejam comprometidas.

A capacidade do governo de atrair investidores e transformar o desenho da indústria do petróleo no Brasil é outro critério de avaliação do sucesso das licitações. “Os investidores aguardam para ver o tamanho do apetite dos investidores estrangeiros e qual o tamanho desse mercado para atrair e estimular a concorrência e gerar fôlego no setor”, disse Raphael Figueredo, sócio da Eleven Financial. / COLABOROU NIVIANE MAGALHÃES 

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