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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Mercado teme queda de crescimento e alta de inflação nos EUA

Queda do crescimento e alta da inflação nos Estados Unidos. Esses dois fatores, que estão interligados, são focos de obsessão dos mercados e devem gerar mais volatilidade nas próximas semanas até que surja um quadro mais claro dos rumos da maior economia do mundo. Por enquanto, ninguém vê a luz no final desse longo túnel da turbulência nos mercados financeiros. Os mercados emergentes estão ancorados nesse clima de incerteza, principalmente aqueles com contas correntes frágeis, como a Turquia e a Hungria, que precisam do financiamento externo para se manterem à tona. Já o Brasil, com os fundamentos considerados mais sólidos, é visto como um porto um pouco mais seguro. Entretanto, se a situação no mercado mundial se azedar de vez, analistas alertam que o ajuste no Brasil poderá ser um dos mais dolorosos. Ou seja, segundo eles, um "pouso suave" nos EUA seria digerido pela economia brasileira, mas um "pouso forçado" aumentaria os riscos de instabilidade financeira, principalmente no câmbio."Querer demais"Gene Frieda, estrategista-chefe para mercados emergentes do Royal Bank of Scotland, acredita que a possibilidade de uma desaceleração gradual da economia norte-americana é o cenário mais provável. Mas alerta que as próximas semanas deverão ainda ser marcadas por incertezas. Ele não concorda com a aposta de alguns analistas que os mercados viverão uma forte recuperação a partir da próxima terça-feira, após o feriado do dia do trabalho nos Estados Unidos. "Tem gente falando num muro de dinheiro esperando para retornar aos mercados", disse Frieda à Agência Estado. Ele lembra que na terça-feira será divulgada a ata da última reunião do comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), além de novos indicadores considerados importantes ao longo da semana.Henry Stipp, estrategista do fundo de investimentos Threadneedle, observa que o mercado está "trancado" nas incertezas com a economia norte-americana. "Neste momento, o maior foco é na desaceleração do crescimento, mas se novos indicadores mostrarem uma inflação elevada, os temores de recessão vão aumentar", disse Stipp. Ele explica que uma desaceleração econômica acompanhada de inflação em queda permitiria ao Fed baixar os juros com maior rapidez, acelerando a perspectiva de uma retomada econômica. Mas uma queda na atividade aliada a inflação elevada requeria a manutenção por mais tempo de juros elevados - talvez até mais do que os atuais - o que poderia desaguar numa recessão econômica. "Enquanto estivermos nesse impasse, não vejo espaço para uma recuperação sustentada nos mercados", disse. "Os investidores querem saber o que terão pela frente: um cenário benigno ou um derretimento global."BrasilEm meio ao clima de incertezas, o temor de uma nova onda de aversão ao risco, como a ocorrida em maio passado, volta a rondar os países emergentes. Mas, no geral, os analistas apontam o Brasil como um dos melhores posicionados para superar sem grandes problemas esse período, desde que o cenário externo não se agrave acentuadamente. "Os investidores estão diferenciando muito os emergentes nesse momento", disse Henry Stipp, estrategista do fundo Threadneedle. "O Brasil, cujos fundamentos são positivos, está bem posicionado nesse processo." As volumosas exportações e as exíguas necessidades de financiamento externo reduzem a vulnerabilidade do País um período de ambiente externo adverso. "O mesmo não acontece com a Turquia e Hungria, cujas contas externas são mais frágeis e dependem mais dos fluxos externos para se manterem equilibradas", disse o analista. Segundo ele, até mesmo a África do Sul, que conta com a classificação de risco de "grau de investimento", preocupa mais alguns investidores do que o Brasil, cuja rating é inferior. Gene Frieda, estrategista-chefe para mercados emergentes do Royal Bank of Scotland, avalia que entre os países emergentes "high beta" - ou seja, de maior risco e potencialmente voláteis - Turquia, Indonésia e Brasil são os mais vulneráveis a uma desaceleração do crescimento econômico nos Estados Unidos. "Mas consideramos o Brasil o melhor posicionado entre os três devido a sua exposição à China, seu crescimento do PIB tradicionalmente menos volátil e seu positivo balanço de pagamentos", disse Frieda. "Isso não significa que o real se valorizará em termos absolutos, mas a moeda brasileira se torna mais atraente do que a da Turquia, país mais vulnerável entre os high beta."No entanto, o analista ressalta que sua preferência pelo real brasileiro depende da confirmação de uma desaceleração modesta no crescimento mundial. "Quanto maior a desaceleração, mais provável que o real corrija sua performance acima da média dos últimos anos", disse. Segundo o analista, a vulnerabilidade do Brasil a uma crise é baixa, mas sua fragilidade diante de uma correção externa está aumentando. "O crescimento no País está fraco apesar dos fluxos de investimento direto estrangeiro do passado e a queda das taxas de juros, a moeda está fortemente valorizada por causa do intenso crescimento global e o superávit em conta corrente poderá muito bem desaparecer no próximo ano, apesar do vigoroso superávit na balança comercial", afirmou. "Uma queda do real poderia ser o sinal mais visível de uma reviravolta desfavorável sustentada do ciclo de negócios globais." Ele observa que não acredita que esse cenário possa se materializar em breve. "Mas os mercados certamente irão avaliar essa questão enquanto a extensão da desaceleração nos Estados Unidos e o grau da queda da atividade no restante do mundo continuarem incertos", disse. "Se a queda nos EUA for acima da prevista, o Brasil será um dos mais vulneráveis entre os emergentes."

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