Al Drago/The New York Times
Al Drago/The New York Times

Mercado tenso indica o retorno da volatilidade

Movimento que derrubou bolsas refletiu tentativa de adaptação a juros mais altos potencializado por algoritmos que comandam as transações

Cláudia Trevisan, correspondente, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2018 | 05h00

WASHINGTON - A queda de 4,6% do mercado acionário dos EUA na segunda-feira não foi o início de um processo de aversão a risco nem reflexo de pessimismo em relação à economia global, que vive um processo sincronizado de crescimento nos países desenvolvidos, avaliaram analistas ouvidos pelo Estado.

Para eles, o movimento refletiu a tentativa de adaptação a um cenário de juros mais elevados, que foi potencializado pelos algoritmos que comandam as transações feitas por computador e por perdas acentuadas em fundos que apostam na baixa volatilidade do mercado.

Depois do susto com a queda de 1.175 pontos na segunda-feira, o índice Dow Jones fechou em alta de 567 pontos ontem, com valorização de 2,33%. Mas a variação durante o dia chegou a 934 pontos, em um indício de que a baixíssima volatilidade registrada no ano passado pode ter chegado ao fim.

“Devemos ter mais um ou dois dias de grandes variações, até que as pessoas se ajustem ao que ocorreu. Depois disso, a volatilidade deve diminuir, mas não para os patamares recentes”, disse Peter Tchir, estrategista-chefe do banco de investimentos Academy Securities. Em sua opinião, o índice VIX, que mede a expectativa de volatilidade do mercado, deve ficar entre 12 e 13, comparado aos patamares de 9 a 10 registrados em 2017.

Segundo Tchir, o nervosismo começou no início da semana passada, com o aumento do rendimento de títulos de países desenvolvidos, como EUA, Alemanha e Japão. “Isso causou preocupação, porque a elevação dos rendimentos indica temor com a inflação.”

Emoções humanas. John Velis, vice-presidente de estratégia global da gestora de ativos State Street, também viu relação entre os rendimentos de títulos soberanos e o movimento nas bolsas: “Essa não foi uma liquidação global indiscriminada de risco. É um ajuste de preços em resposta a mudanças nos títulos de países desenvolvidos. O ajuste pareceu violento porque as cotações estavam excessivamente elevadas”.

O secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, disse em depoimento no Congresso que a queda de segunda-feira foi uma “correção normal do mercado, ainda que grande”. Mnuchin sustentou que o movimento foi acentuado pelos algoritmos que guiam os computadores, responsáveis por 90% das transações nas Bolsas americanas.

“Quando algum dado significativo muda, a estratégia dos algoritmos muda de comprador para vendedor muito rapidamente”, disse Tchir. Como todos seguem modelos similares, isso amplifica as tendências de alta ou baixa. Na segunda-feira, o Dow Jones caiu 800 pontos em 10 minutos. “Eles não têm emoções humanas. Uma vez que o modelo diga para eles venderem, eles vendem.”

Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics, afirmou que o mercado está em um período de transição para um cenário de crescimento mais sólido nas economias desenvolvidas. “O próximo passo é ir a patamares de juros mais compatíveis com esse cenário.”

Mas ela ressaltou que não há nada na volatilidade recente que indique fragilidades no sistema financeiro americano ou global. Para Monica, o mercado está corrigindo “exageros”, ao mesmo tempo em que busca um patamar de preços em linha com a alta de juros, que deve ser gradual. Ao mesmo tempo em que se beneficiam do maior crescimento das economias desenvolvidas, os mercado emergentes podem sofrer com a redução de fluxo de capitais decorrente dos mais elevadas nos países ricos, disse Bolle.

 

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