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Mercado vê corte de gastos com ceticismo

Analistas dizem que previsão de receita é otimista e há pressão política por mais gasto

FÁBIO ALVES, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2013 | 02h10

O esperado anúncio de um corte ao redor de R$ 12 bilhões nas despesas previstas no Orçamento deste ano para atingir a meta das contas públicas é visto com ceticismo por analistas e não deverá melhorar o sentimento de descrença com a política fiscal do governo. Com os cortes, o governo quer atingir um superávit primário (economia para abater os juros da dívida pública) de 2,3% do Produto Interno Bruto em 2013.

"Um contingenciamento de despesas de R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões talvez não seja suficiente para dar uma alta probabilidade à meta de um superávit de 2,3%", disse o economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos.

"Isso porque o Ministério da Fazenda parece que continuará a trabalhar com um número de crescimento da economia de 3% este ano, extremamente otimista, o que significa que daqui para a frente o governo pode ter uma frustração no lado das receitas. E, depois, virá uma pressão muito grande por mais gastos, quer seja pela sociedade, quer seja pelo Congresso."

Segundo apuraram os jornalistas do Grupo Estado, o novo bloqueio de despesas do Orçamento será acompanhado pela redução oficial da estimativa de avanço do PIB neste ano, de 3,5% para 3%. Contudo, no último boletim Focus do Banco Central, os analistas revisaram suas estimativas para o crescimento do PIB deste ano para 2,34%, o que, se concretizado, torna o orçamento otimista.

"Até que ponto o governo vai resistir às demandas por mais gastos num contexto de atividade bem mais fraca?", ressaltou Ramos. Nas projeções dele, o superávit deverá ficar entre 1,5% e 2% do PIB neste ano. "E, talvez, o ponto mais importante é: qual será o superávit primário em 2014, pois até agora o governo tem sido cauteloso em revelar qual será esse número?"

Inflação. Outro objetivo do governo ao anunciar os cortes de gastos para este ano é ajudar o BC no combate à inflação e no controle das expectativas inflacionárias, limitando a necessidade de uma maior alta dos juros. Conforme o boletim Focus, os analistas esperam que o BC eleve a taxa Selic até 9,25% ao fim deste ano. Eles estimam uma inflação de 5,71% em 2013 e de 5,9% em 2014.

Na opinião do consultor e especialista em contas públicas Raul Velloso, num primeiro momento o "mero" anúncio de corte de gastos poderá ter um efeito psicológico positivo, mas depois, quando os analistas fizerem uma avaliação com lupa, poderá haver frustração. "O governo nunca diz quando faz tal anúncio, mas o corte é sobre as intenções de gastos e não sobre a execução prévia."

Para ele, redução nas intenções de gastos não é suficiente para acalmar o mercado. Velloso disse acreditar ser difícil atingir um superávit primário de 2,3% do PIB neste ano. "A não ser que surjam receitas adicionais, como a do leilão do campo de Libra."

Na semana passada, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) fixou o bônus mínimo de assinatura para o campo de Libra em R$ 15 bilhões, enquanto o mercado esperava R$ 10 bilhões. Libra será a única área ofertada no leilão do pré-sal marcado para 21 de outubro.

"Se o governo não fizer algo diferente do que vinha fazendo, a política fiscal continuará frouxa", afirmou Velloso. "Se for contar com a receita do leilão de Libra, é uma vez só, ou seja, receita não recorrente. O mais provável é que o governo adote medidas emergenciais, como a de Libra. Não consigo ver medidas mais profundas num quadro em que o governo está pressionado para gastar mais por causa das manifestações e pelo clima de campanha eleitoral."

Confiança. Em nota enviada a clientes, a estrategista do RBC Capital Markets em Toronto, Irina Skrylev, disse que o iminente anúncio de corte de gastos provavelmente não vai melhorar a confiança do investidor no Brasil e, por tabela, dar mais suporte para o real.

"A pressão sobre o governo para aumentar a confiança do consumidor em meio aos protestos sociais e seu impacto potencial nas eleições presidenciais do próximo ano é um maior obstáculo para a manutenção da estabilidade fiscal", disse Irina na nota aos clientes.

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