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Mercado vê lista de Fachin... e boceja!

Foco dos investidores continua sendo a tramitação da reforma da Previdência

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2017 | 12h31

Responda rápido: o que aconteceu com os políticos que constavam da primeira lista enviada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 2015?

Em março daquele ano, Teori Zavascki, o ministro do STF falecido em janeiro deste ano, autorizou a abertura de inquérito de 47 políticos, alguns dos quais também estão presentes na lista do ministro Edson Fachin, que ontem deu a luz verde para a investigação de 108 políticos e autoridades governamentais.

Talvez a resposta da pergunta acima explique, em parte, o porquê de os preços dos ativos brasileiros praticamente ignorarem hoje o impacto da lista de Fachin. Se a divulgação dos nomes dos investigados causou um terremoto em Brasília, no mercado financeiro não passou de um bocejo.

Às 9h39 da manhã desta sexta-feira, o dólar já estava operando em queda frente ao real, negociado a R$ 3,1356. A curva de juros apresentava leve alta, com o contrato DI para janeiro de 2019 a 9,40%, ante 9,38% no ajuste ontem, enquanto que o DI para janeiro de 2021 a 9,86%, de 9,83% no ajuste ontem.

Um importante participante do mercado brasileiro, em conversa com esta coluna, destacou alguns pontos importantes na avaliação do mercado sobre a lista de Fachin:

Primeiro, o tempo da justiça é lento no Brasil, haja vista o que aconteceu com os investigados da primeira lista do Janot. Segundo, o foro privilegiado dá tempo de reação aos envolvidos. E, terceiro, o presidente Michel Temer já tinha traçado critérios para demissão de ministros: para sair do governo, indiciado precisa virar réu.

"Mercado é pragmático e avalia que mesmo que a lista enfraqueça a capacidade operacional do governo, esses pontos (acima) mitigam o impacto da lista", explicou o interlocutor.

Em conversa com esta coluna, um renomado estrategista de câmbio disse que o mercado ainda tem a leitura de que a única saída para os envolvidos é a reeleição em 2018. "E, para isso, a retomada da economia é fundamental e isso só será possível com a aprovação das reformas", afirmou.

Com relação o comportamento da curva de juros, ele considera que a reunião do Copom, cuja decisão será anunciada hoje, também ajuda a ancorar a curva, pois o mercado está precificando um corte de 1 ponto porcentual da taxa Selic, "sendo que a opcionalidade é por mais cortes".

No fim das contas, o foco dos investidores continua sendo a tramitação da reforma da Previdência e as negociações entre o governo e os parlamentares para flexibilizar pontos da proposta original enviada ao Congresso.

Veja o Placar da Previdência do 'Estado'

A leitura do mercado é que a lista de Fachin não deve afetar a tramitação dessa reforma no Congresso.

E, mesmo sobre esse tema, o mercado não tem demonstrado estresse com as notícias de recuo do governo sobre pontos considerados essenciais para se preservar a espinha dorsal dos ganhos fiscais, como as regras de transição e a idade mínima de aposentadoria para homens e mulheres.

A percepção diante do comportamento dos preços dos ativos em relação a uma possível diluição maior do conteúdo da reforma é que os investidores já aceitariam reduzir o nível de exigência quanto ao que o governo conseguir aprovar em termos de mudanças nas regras de aposentadoria.

Antes, o mercado tinha um cenário de que o governo conseguiria passar de 70% a 80% da proposta original enviada ao Congresso. Agora, os investidores já não reagiriam negativamente se o texto final da reforma resultar em apenas 50% do que foi proposto.

O mercado quer uma reforma aprovada até o terceiro trimestre deste ano e parece não se importar que o texto final que passar no Congresso implique na necessidade de um novo ajuste nas contas da Previdência no médio prazo.

Com esse foco em mente, os investidores sequer se abalaram com o impacto da lista de Fachin, vista mais como um fator mais para moldar as candidaturas à eleição presidencial de 2018 do que emperrar o ímpeto do governo Temer de entregar alguma reforma.

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