Mercado vê risco em captação da Petrobrás

Estatal ainda tem US$ 3 bilhões a receber do empréstimo tomado da China no ano passado; para analistas, o ideal é a capitalização, e não novos empréstimos

Nicola Pamplona / RIO, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2010 | 00h00

De acordo com as últimas informações disponíveis, a Petrobrás ainda tem US$ 3 bilhões a receber do primeiro empréstimo tomado da China no ano passado. Até 31 de março, diz o balanço trimestral da companhia, o Banco de Desenvolvimento da China (BDC) havia repassado apenas US$ 7 bilhões. Uma nova captação é vista com cautela pelo mercado financeiro, diante do risco de extrapolar os limites de endividamento da companhia.

"A Petrobrás tem de se capitalizar, e não tomar empréstimo", disse o analista de petróleo do Banco do Brasil Investimentos, Nelson Rodrigues de Matos. "A não ser que tenha tanta certeza da capitalização e já esteja negociando financiamentos para depois de concluído o processo." A preocupação do mercado refere-se ao nível de alavancagem da estatal, hoje em 32%, bem próximo do limite de 35%.

Nas contas de Matos, a empresa tem ainda uma folga para captar entre R$ 12 bilhões e R$ 14 bilhões antes de atingir o limite - o valor exato depende do desempenho financeiro da estatal no trimestre. No fim do primeiro trimestre de 2010, a dívida total da companhia estava na casa dos R$ 108 bilhões, um crescimento de R$ 8 bilhões com relação ao trimestre anterior.

"A empresa está investindo muito e precisa de novos financiamentos", pondera o analista da Ágora Corretora, Luiz Otávio Broad, que também vê com preocupação a questão do nível de endividamento. Ele frisou, porém, que uma captação, em si, não eleva a taxa de alavancagem, que considera apenas o endividamento líquido - ou seja, os recursos efetivamente gastos. Além disso, a nova dívida pode ser usada para rolar empréstimos antigos, com maior custo ou menor prazo.

Broad lembrou que os chineses têm demonstrado grande interesse em acordos com a Petrobrás, diante da necessidade de garantir suprimento de petróleo. E a própria empresa admite que não tem condições de cumprir o plano de investimentos proposto para este ano, de R$ 88 bilhões - no primeiro trimestre, investiu R$ 17 bilhões.

Para os próximos anos, o problema é ainda maior, daí o esforço para realizar a capitalização ainda este ano. Com investimentos previstos em até US$ 220 bilhões para o período de 2010 a 2014, a estatal vai necessitar de um grande aporte de recursos.

O principal risco ao processo, diz Mattos, é o péssimo momento do mercado global, com altos índices de aversão ao risco.

Sondas. Um dos investimentos previstos no período é a contratação de pelo menos 28 sondas de perfuração de poços petrolíferos, processo iniciado anteontem, com a abertura de propostas para duas unidades.

Ontem, nove consórcios apresentaram propostas técnicas para concorrer a até quatro pacotes de sete navios-sondas: Keppel Fels, Estaleiro Atlântico Sul, Engevix, Eisa Alagoas, Jurong, Mauá/Andrade Gutierrez, UTC/Odebrecht/OAS, STX e Alusa/Galvão.

As propostas financeiras serão abertas apenas em meados de junho. O mercado calcula que cada unidade custa em torno de US$ 800 milhões.

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