André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Mercado vê sinais dúbios do BC na decisão de elevar taxa de juros

Aumento da Selic foi seguido pelo comunicado no qual afirma que o ciclo de alta deve ser tratado com parcimônia

O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2014 | 02h02

Para o mercado, o Banco Central emitiu sinais dúbios nesta quarta-feira, 3. Deu um passo à frente ao optar - por unanimidade - pela aceleração do ritmo de alta dos juros na reunião do Copom. Mas recuou, no comunicado divulgado logo em seguida, ao dizer que o ciclo de alta deve ser tratado com "parcimônia".

Para o superintendente do Departamento Econômico do Citibank Brasil, Marcelo Kfoury, o movimento não chegou a ser contraditório, mas, de certa maneira, complementar. A alta de 0,5 ponto porcentual tentou impedir que o mercado caminhasse para uma elevação de 0,75 ponto porcentual da taxa de juro na próxima reunião, em janeiro.

"O mercado começou a precificar 0,75 ponto. Se o Copom tivesse aumentado 0,5 ponto e sido lacônico no comunicado, o mercado poderia achar que o próximo passo pudesse ser de 0,5 e 0,75 ponto", disse.

No comunicado, o BC teria deixado a porta aberta para uma alta menor, 0,25 ponto, na próxima reunião, considerando a possibilidade de o governo aprimorar a política fiscal (política que trata da arrecadação e dos gastos). Isso eliminaria a necessidade de um choque de juros como ocorreu em 2002. "Mas um aumento de 0,50 ponto porcentual não está fora do jogo", ponderou o economista do Citibank.

O comunicado chamou bastante a atenção do economista-chefe do Banco J. Safra, Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro. Na sua interpretação, ao usar a palavra "parcimônia", o BC indica que pode reduzir o ritmo de aperto na próxima reunião ou fazer o ciclo de ajuste "não ser tão forte". Além disso, ao empregar o termo "neste momento", deixa a próxima decisão em aberto, diante de uma série de notícias e acontecimentos que podem surgir nesse período de tempo.

Na avaliação de Kawall, uma série de incógnitas pode ter levado o BC a ser "intencionalmente" dúbio: o ministro da Fazenda ainda não assumiu, há um forte embate no Congresso em torno da meta fiscal deste ano e, ainda, dúvidas jurídicas relacionadas à nova equipe e mudanças da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

A alta de 0,50 ponto porcentual para o nível de 11,75% ao ano, confirmou a previsão do economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Camargo Rosa. Ele fazia parte da corrente dominante do mercado financeiro que previa uma elevação de 0,5 ponto porcentual em dezembro. Em levantamento do AE Projeções, 41 das 62 instituições consultadas esperavam esse procedimento.

Mas o tom mais leve do comunicado o surpreendeu. "Imaginei que o BC fosse usar um tom mais hawkish (mais duro)", disse. O que lhe chamou a atenção foi o termo "esforço adicional". "Se é adicional, pode ser que ele já considerava o esforço realizado", afirmou, lembrando que o comitê também mencionou no texto os efeitos defasados da política monetária.

Desagrado. A economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, está no grupo que não gostou do tom dúbio do BC. A seu ver, para quem está preocupado com a credibilidade, ele deveria ter dado o aumento de 0,50 ponto e não ter se estendido no comunicado. "Por mais que eles (Copom) falem que não, a alta de 0,25 ponto na reunião de outubro surpreendeu e a justificativa foi o câmbio e o alinhamento dos preços relativos. Agora esse comunicado torna muito difícil entender com clareza o diagnóstico do BC e isso é muito ruim", reiterou. / CÉLIA FROUFE, FRANCISCO CARLOS DE ASSIS, FLÁVIO LEONEL

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