Mercados aguardam definições na Argentina

A situação argentina continua na pauta do mercado financeiro nesta quinta-feira. O aparente equilíbrio das cotações do dólar depois do fim da paridade cambial não é motivo suficiente para que os investidores abandonem o clima de cautela. Além das restrições bancárias, que impedem uma demanda excessiva por dólares, o que pressionaria as cotações, as empresas argentinas também estão obrigadas a pedir autorização ao Banco Central (BC) sempre que necessitam de moeda norte-americana para honrar suas dívidas. Ou seja, não se pode dizer que o dólar flutua livremente no mercado cambial argentino.A Argentina precisa de recursos e ainda não há uma solução para este problema. Sem o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), que vincula a liberação de mais recursos a um programa de corte de gastos, o ministro da Economia da Argentina, Jorge Remes Lenicov, retornou ontem de sua viagem a Washington. O problema agora é onde cortar gastos, como fazer isso, e onde obter apoio a estas decisões. A população já iniciou suas manifestações contra a manutenção de gastos públicos e possíveis cortes de recursos em áreas sociais. Ao mesmo tempo, segundo apurou o correspondente em Buenos Aires, Ariel Palacios, divergências dentro do partido Justicialista (Peronista) causaram o adiamento do debate e da votação do Orçamento Nacional para a próxima semana.O principal ponto da polêmica dentro do partido é a pesificação das dívidas de grandes empresas pela paridade de um peso para um dólar. Se a operação fosse realizada desta forma, o governo assumiria uma dívida em torno de 50,23 bilhões de pesos, ou US$ 25,1 bilhões - de acordo com a cotação de ontem. O presidente Eduardo Duhalde justifica a pesificação por esta paridade, pois afirma que é preciso "defender" os empresários "porque deles dependem centenas de milhares de trabalhadores". Mas o fato é que um aumento da dívida do governo pioraria ainda mais a imagem do país perante os organismos financeiros internacionais. Além disso, há suspeitas de favorecimento ilícito às grandes empresas por parte do governo argentino. Outras manifestações marcaram o dia ontem em Buenos Aires (veja mais informações sobre o país vizinho nos links abaixo).Brasil sofre influênciasO mercado interno tenta manter o equilíbrio perante o agravamento da situação argentina. Grande parte deste cenário já era prevista por analistas. Mas, segundo o diretor-executivo responsável pelo Asset Management do West LB Banco Europeu, André Reis, o mercado brasileiro ainda pode sofrer as influências da Argentina.Segundo ele, o investidor estrangeiro ainda não sabe qual foi o seu prejuízo com a crise argentina. "Quando estes valores estiverem claros, é muito provável que haja alguma reação. E o Brasil vai sentir os reflexos disso", afirma.Além de serem países emergentes, com fortes relações comerciais, o contágio da situação argentina para o Brasil se dará por meio do mercado financeiro efetivamente. "O investidor estrangeiro, perdendo dinheiro em um país emergente, reduz os recursos para este mercado. O Brasil precisa de financiamento externo, ou seja, precisa de dólares. A redução nestes recursos pode pressionar para cima as cotações da moeda norte-americana", diz o executivo do West LB Banco Europeu.Perspectivas de oscilações no mercado financeiro internoMesmo que seja um contágio pontual, Reis prevê que a perspectiva para os próximos dias é de muitas oscilações nas taxas de câmbio. "Mesmo que a tendência não seja de alta para o dólar no mercado interno, o sobe-e-desce das cotações será percebido diariamente", afirma. No mercado de juros, as perspectivas também são de oscilações no mercado interbancário - entre investidores. Já a definição da Selic, a taxa básica de juros da economia, é vinculada ao cumprimento das metas de inflação que, muitas vezes, acaba sendo influenciada pela alta do dólar. Neste ano, a meta é de 3,5%, com possibilidade de alta ou baixa de dois porcentuais. Um relatório divulgado ontem pelo Banco Central (BC) mostra que os analistas do mercado financeiro acreditam que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência para as metas de inflação, deve ficar em 4,8% neste ano.A Selic será reavaliada na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), nos dias 19 e 20 de fevereiro e a perspectiva da maioria dos analistas é de manutenção dos juros no patamar de 19% ao ano. O próximo índice de inflação será divulgado na sexta-feira pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Trata-se do resultado da primeira quadrissemana de fevereiro do Índice de Preços ao Consumidor (IPC).Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), as oscilações também são previstas. Para Reis, sem fatos novos na Argentina, o mercado acionário brasileiro continuará seguindo a tendência das bolsas de Nova York. Em tempo: o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior adiou para hoje a divulgação do saldo da balança comercial relativo à segunda semana de fevereiro. O anúncio estava previsto para ontem, mas, em função do feriado de carnaval, foi transferido para hoje. Na primeira semana, que teve apenas um dia útil, a balança comercial registrou um superávit de US$ 16 milhões - exportações de US$ 196 milhões e importações de US$ 180 milhões.Não deixe de ver no link abaixo as dicas de investimento, com as recomendações das principais instituições financeiras, incluindo indicações de carteira para as suas aplicações, de acordo com o perfil do investidor e prazo da aplicação. Confira ainda a tabela resumo financeiro com os principais dados do mercado.

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