Mercados: Copom não surpreendeu

Os mercados esperavam uma alta de 0,5 ponto porcentual na Selic, a taxa básica referencial de juros da economia, e o governo não surpreendeu. Agora a taxa está fixada em 16,75% ao ano. A elevação ocorreu por conta das várias crises que assustam os investidores: energia, Argentina, Senado e inflação. Como o ambiente ontem foi de muita tensão e especulação, houve espaço para apostas mais extremadas. Assim, as cotações podem até se recuperar ligeiramente hoje, ajustando-se em patamares que reflitam a decisão sobre os juros.Mas a realidade é que não há muito o que comemorar no cenário econômico. A inflação, principal critério de política econômica no Brasil, está muito pressionada pelas elevações de tarifas e pela alta do dólar, ainda não totalmente absorvida. Além disso, os preços do petróleo no mercado internacional voltaram a subir, preocupando muito, especialmente com a forte desvalorização do real no ano. Isso sem contar que um dos principais efeitos da crise energética deve ser a redução das exportações e dos investimentos diretos estrangeiros, o que pressiona ainda mais o dólar. Talvez a queda na produção por falta de eletricidade seja compensada por uma queda no consumo, já que empregos serão perdidos. Neste caso, a crise energética não pressionaria a inflação ou as importações, mas a queda no crescimento econômico é certa. O pior é que ainda é cedo para avaliar todas essas conseqüências da falta de luz, já que o racionamento nem foi posto em prática.A situação argentina também contribui para a alta do dólar. Espera-se para hoje a divulgação dos detalhes completos da troca dos títulos da dívida de curto prazo do país. A operação deve ocorrer entre o final de maio e início de junho e a adesão dos credores será voluntária. Mas mesmo que tenha sucesso, a reestruturação da dívida, que alivia o caixa do governo nos próximos anos, pode sair muito cara e não resolver os graves problemas estruturais da economia. Resta o desafio de tirar a Argentina da depressão com o câmbio fixo sobrevalorizado, uma tarefa nada desprezível.Crise política aumenta a insegurançaE o governo Fernando Henrique Cardoso amarga grandes dificuldades políticas nessa última etapa do seu mandato. Enquanto parece cada vez mais próxima a cassação dos Senadores Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda por quebra de decoro parlamentar, os mercados temem pelo contra-ataque. Tendo ocupado posições-chave no governo, eles podem engrossar as denúncias contra o governo se cassados e humilhados. As conseqüências seriam muito graves.Ontem o relatório da Comissão de Ética foi aprovado e agora o presidente da casa, Senador Jader Barbalho, tem 15 dias úteis para comandar a sua votação em plenário. Uma vez aberto o processo, não serão mais aceitas renúncias e a decisão sobre a cassação será definitiva, com todas as suas implicações legais. Os mercados observam tudo com muita atenção.

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