Mercados "devolvem" tensão gerada por troca de ministro

Hoje, o mercado financeiro "devolveu" a tensão gerada com a troca do ministro da Fazenda no começo da semana. Praticamente todos os preços dos ativos financeiros, que sofreram com a mudança de ministros ocorrida na última segunda-feira, já retornaram aos patamares observados antes do fato. Em alguns casos, os números hoje são inclusive melhores. A explicação é simples: o mercado assimilou a mudança. E algumas das preocupações imediatamente geradas, como a de uma mudança drástica na orientação da política monetária, estão por ora dissipadas. O dólar comercial encerrou o dia cotado a R$ 2,1650 na ponta de venda das operações, em baixa de 1,05% em relação aos últimos negócios de ontem. No fechamento da Sexta-feira da semana passada, antes da troca de ministro, o dólar estava em R$ 2,16. Hoje, durante o dia, a moeda norte-americana oscilou entra a máxima de R$ 2,1860 e a mínima de R$ 2,1620. Com o resultado de hoje, o dólar acumulou alta de 1,17% no mês de março.A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) fechou em alta de 0,46%, em 37.951 pontos. No dia de maior tensão, impulsionado também por um dia ruim no mercado externo, o Ibovespa fechou em 36.682 pontos. Neste mês, o mercado de ações acumula uma perda de 1,70%."Depois de um impacto inicial, os agentes do mercado perceberam que a mudança na Fazenda potencialmente afeta muito mais o médio prazo do que o curto prazo, sobretudo após garantida a autonomia de trabalho para o Banco Central", comenta o Superintendente Executivo de Tesouraria do BankBoston, Marco Antonio Sudano. "Junto com o balanço de pagamentos e os bons fundamentos da economia brasileira, isso permitiu que o mercado desse mais uma vez o benefício da dúvida ao governo e à sua orientação macroeconômica", acrescenta. "Passou o efeito do choque e agora entramos em um período de acomodação. A não ser que se volte a discutir mudanças de comando no Banco Central, possivelmente vamos ficar próximos de onde estamos, sem grandes oscilações para cima ou para baixo nos ativos, salvo novidades bombásticas ou uma mudança muito drástica nos mercados externos", reforça a economista Zeina Latif, do banco ABN Amro.Preocupação de curto prazo foi resolvida Neste processo de assimilação das mudanças, o fato de maior peso para a volta da tranqüilidade no curto prazo foi a indicação de que o BC teria autonomia em sua política monetária, com o seu presidente, Henrique Meirelles, reportando-se diretamente ao Presidente da República. Mas também foram importantes as sinalizações de continuidade dadas pelo novo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e a indicação de nomes com boa credibilidade para compor a sua equipe, como Carlos Kawall. "É importante que a equipe econômica de qualquer governo tenha uma mistura de bons teóricos com nomes experientes no mercado. Isso porque essa experiência é de extrema relevância para que, em momentos de crise, se consiga entender melhor a dinâmica dos mercados, justamente para contra-atacá-la", sublinha Sudano. Ao mesmo tempo, também colaborou a melhora de percepção nos mercados externos, que também passaram por ajustes no começo da semana, em função das dúvidas sobre o grau de aperto monetário em alguns países desenvolvidos, como os Estados Unidos e Japão. "Junto com essa melhora lá fora, a assimilação por parte do estrangeiro com a mudança aqui foi bastante rápida. Após a percepção de que a política fiscal seria mantida, e para o estrangeiro ela parece ter mais peso do que a monetária, esse investidor voltou a comprar Brasil", comenta o diretor do Multi Commercial Bank, Ricardo Simone Pereira. Preocupações futurasDe qualquer forma, os analistas e gestores ouvidos pela Agência Estado são unânimes em afirmar que, se de um lado as incertezas de curto prazo estão dissipadas, o mesmo não vale para o médio e longo prazo - leia-se a orientação da política econômica a partir de 2007, no caso de um segundo mandato petista. Lembram que há reformas importantes a serem realizadas e que muitas delas envolvem diretamente a área fiscal, para a qual a discussão interna no governo Lula está longe de representar consenso. "Ainda é muito cedo para o mercado precificar essa incerteza, mas isso deve acontecer em algum momento", diz Zeina Latif.

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