KAREN BLEIER/AFP
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Mercados emergentes são sinal para mercado financeiro?

A boa notícia é que uma crise da dívida global extrema ainda é relativamente improvável

Kenneth Rogoff, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2018 | 04h00

Taxas de câmbio e crises de dívida em ebulição na Argentina e Turquia são eventos localizados sem maiores implicações? Ou seriam os primeiros sinais de alerta para fragilidades mais profundas dos mercados de dívida globais que vêm sendo expostas à medida que o Federal Reserve americano continua o processo de recuperação das suas taxas de juro?

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O aumento dos juros é um teste da estabilidade de algumas economias avançadas também, especialmente a Itália, onde os eleitores, particularmente na região sul menos desenvolvida, optaram de modo contundente por um governo populista mais turbulento. Com uma economia dez vezes maior do que a da Grécia, um calote no caso da Itália explodiria a zona do euro. Na verdade, o governo de coalizão populista que agora assumiu o poder no país deu a entender que pretende cancelar parte do devido para o sistema do euro através do Banco Central Europeu que não está incluída na dívida pública oficial de mais de 130% do seu Produto Interno Bruto (PIB). 

A boa notícia é que uma crise da dívida global extrema ainda é relativamente improvável. Mesmo com a recente queda do desempenho europeu, a economia global no geral permanece forte, com muitas regiões do mundo ainda crescendo vigorosamente. Embora seja verdade que várias empresas do mercado emergente acumularam volumes preocupantes de dívidas denominadas em dólar, muitos bancos centrais estrangeiros mantêm uma grande reserva de ativos em dólar, especialmente na Ásia.

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O Fundo Monetário Internacional (FMI) também possui recursos suficientes para enfrentar uma primeira onda de crises mesmo que, digamos, o Brasil esteja incluído. A principal preocupação não é que o FMI não possa fornecer algum financiamento, mas que incorra no mesmo erro que cometeu na Grécia, não impondo um acordo realista para devedores e credores. No caso da Itália, as chances são de que a Europa encontrará uma maneira de garantir temporariamente um afrouxamento das regras orçamentárias que o novo governo pretende, mesmo que as autoridades da zona do euro não permitam, absolutamente, que a enorme dívida italiana simplesmente destrua a moeda comum.

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A razão mais importante para otimismo, não obstante todos os problemas políticos em torno, é que os juros reais no longo prazo ainda estão extremamente baixos. Mesmo com todo o drama em torno do aperto do Fed, as letras do Tesouro de 30 anos indexadas pela inflação estão pagando 1% – bem abaixo dos retornos reais no caso de títulos de longo prazo, que em média chegam a 3%. Enquanto essa situação dos juros globais for benigna, é difícil ver grandes ondas de calotes de dívidas no momento.

Guardião. É notável como o FMI, o guardião das crises financeiras e de dívidas do mundo, vem aumentando suas advertências. Depois de anos dizendo que os países avançados não precisavam mais se preocupar com os seus níveis quase recorde de dívida pública – e que chegam hoje a mais de 100% da dívida governamental geral –, o Fundo começou a alertar que muitos países poderão se encontrar numa situação fiscal apertada se tiverem de enfrentar nova recessão em breve. Os problemas não decorrem somente da dívida contabilizada, mas também das suas responsabilidades que não estão à vista, especialmente no caso de programas de assistência médica e de previdência – dívidas implícitas que em muitos casos são muito maiores do que os dados oficiais.

A evidência contundente extraída de pesquisa recente apoia a posição do FMI. Países com dívidas historicamente altas têm (em média) um crescimento significativamente menor face a choques importantes, e a relação a longo prazo entre uma enorme dívida pública e crescimento é claramente negativa. Isso, naturalmente, não diz absolutamente nada sobre as consequências econômicas de uma redução enérgica do peso da dívida governamental, popularmente conhecida como “austeridade”. As recessões profundas são o momento para se usar os fundos de guerra de um país, não para criar.

Certamente existem aqueles, seja da direita ou da esquerda, que acham que “desta vez é diferente” no caso das economias avançadas. Sem nenhum perigo real (em sua opinião) de uma grande guerra ou de crises financeiras no curto prazo, é loucura limitar muito a dívida pública ou os compromissos com as pensões. Esta é uma posição perigosa mesmo para os Estados Unidos apesar do maior escopo fiscal por ser o país emissor da moeda de reserva global.

Choques muito negativos podem ocorrer em qualquer economia e suas fontes podem não ser as melhores que normalmente tomamos em consideração. Por exemplo, os riscos decorrentes de ciberataques (especialmente por parte de atores estatais), pandemias, e certamente crises financeiras são maiores do que se admite. Com certeza não é difícil imaginar que uma desaceleração temporária na China pode agitar os mercados mundiais. E se algo completamente inesperado ocorrer, o que podemos prever é que governos com forte acesso aos mercados de crédito global terão opções muito melhores para reagir.

Alerta. Mesmo que a melhor aposta seja de que um colapso no mercado emergente envolvendo títulos da dívida esteja controlado, os temores hoje devem servir de alerta para as economias avançadas. Afinal, nenhum país, mesmo rico, deve apostar seu futuro na expectativa de que as atuais condições mais do que benignas na questão dos juros irão durar para sempre.

Economistas que nos garantem que a dívida das economias avançadas está completamente “segura” assustam tanto quanto aqueles que promoveram a “Grande Moderação – uma redução supostamente permanente da volatilidade cíclica - há uma geração. Em muitos casos são as mesmas pessoas. Mas, como vimos há uma década, e veremos inevitavelmente de novo, não estamos no Fim da História em termos de crises financeiras e de dívida globais.

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