Mercados: Fed surpreendeu, mas Copom não

Ontem foi um dia cheio para os mercados financeiros. À noite, o Comitê de Política Monetária (Copom), em sua reunião mensal de reavaliação da política monetária, decidiu elevar a Selic, a taxa básica referencial de juros da economia, de 15,75% para 16,25% ao ano, o que não surpreendeu os analistas. Algumas horas antes, em reunião extraordinária, o Fed - Banco Central norte-americano - havia baixado o juro básico dos Estados Unidos, causando euforia nos mercados do mundo inteiro. Hoje, os mercados devem digerir esses acontecimentos.Selic subiu por causa da inflaçãoJá se esperava uma alta da Selic, e ela veio no tamanho previsto. A principal justificativa do Copom foi a recente elevação da inflação, provocada pela persistente alta do dólar, que pressiona os preços de importados e produtos brasileiros exportáveis, que variam com a moeda norte-americana. Para especialistas, a previsão é de que a tendência prossiga, e que os índices mostrem ainda mais intensamente a elevação dos preços a partir de maio. Para garantir o cumprimento da meta de inflação do ano, o governo eleva os juros, encarecendo o crédito, o que desacelera a economia e reduz as remarcações, além de marginalmente reduzir a procura por bens importados, reduzindo a cotação do dólar.Em entrevista à editora Cláudia Ribeiro, o ex-diretor de política monetária do Banco Central (BC) e sócio-diretor da MCM Consultores, José Júlio Senna, afirmou que mais importante do que a variação em si é a sinalização que o Copom dá aos investidores. Para ele, as taxas de juros futuras já estão bastante altas, provocando o efeito de desaceleração da economia desejado pela equipe econômica, o que torna uma pequena variação na Selic, como a de ontem, inócua do ponto de vista técnico. Mas a indicação de que o governo não abre mão do controle da inflação e, em última instância, do cumprimento de suas metas, é importante para manter a calma dos investidores, especialmente em momentos de muita instabilidade, como o atual. Dado que houve muita especulação no final da tarde de ontem, é possível que as taxas no mercado de juros futuro sofram uma pequena redução nos negócios de hoje.Euforia nos EUA com queda nos jurosOutra medida que ainda não foi totalmente digerida pelos investidores e que talvez possa contrabalançar o pessimismo do cenário é a queda nos juros norte-americanos. Em grande parte, a retração dos mercados deve-se à continuação da desaceleração econômica dos Estados Unidos. Muitos temem que uma recessão possa estar a caminho, embora a maioria dos analistas acredite numa recuperação a partir do segundo semestre de 2001. Os seguidos cortes nos juros promovidos pelo Fed pretendem reaquecer a economia e evitar a recessão. Daí o otimismo dos negócios ontem. O Dow Jones - Índice que mede a variação das ações mais negociadas na Bolsa de Nova York - fechou em alta de 3,91%. Desde o dia 3 de abril, a valorização acumulada é de 11,91%. E a Nasdaq - bolsa que negocia ações de empresas de alta tecnologia e informática em Nova York - fechou em alta de 8,12%, acumulando alta de 26,89% desde 4 de abril. Esses números, em especial a tendência de recuperação das bolsas, pode ter um efeito positivo nos mercados brasileiros, principalmente se a economia argentina começar a dar sinais de recuperação. Mas, por enquanto, o clima ainda é de muita cautela.Argentina e noticiário do Senado pressionam dólarA alta do dólar, que não era prevista nessa magnitude pelos analistas reflete as incertezas e temores dos investidores. As atenções estão centradas na grave situação da Argentina, há 33 meses em recessão e lutando para evitar um colapso da economia. Já é consensual que o peso está sobrevalorizado, prejudicando a competitividade dos produtos argentinos. Mas uma desvalorização sofre obstáculos legais e teria efeito desastroso, dado o forte endividamento em dólar do governo e das empresas. Sem crescimento econômico, a receita de impostos cai, trazendo muita dificuldade ao controle do déficit público. Como um desastre no país vizinho afeta diretamente o Brasil, os mercados têm sido muito sensíveis ao noticiário.Também preocupa muito os investidores a possibilidade, bastante concreta, de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), no Brasil, para investigar denúncias de corrupção no Executivo federal, o que pode afetar a governabilidade do País. A interminável briga entre os Senadores Jader Barbalho e Antônio Carlos Magalhães agrava a situação, especialmente com o escândalo de violação do painel de votação do Senado.Veja no link abaixo a tabela resumo financeiro com os principais dados do mercado.

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