Mercados financeiros inquietos

O presidente americano encontrou um adversário à altura: os mercados financeiros americanos

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2018 | 04h00

Os dirigentes das grandes potências pouco a pouco entenderam que Donald Trump é um indivíduo de cabeça dura. Seu prazer é se contrapor a tudo. Em poucos meses derrubou reformas e projetos que muitas vezes já estavam aprovados. Por exemplo, o acordo de Paris sobre o clima, o firmado com o Irã, todos ratificados por Washington e jogados no lixo por ele.

Quanto mais numerosos os adversários mais ele fica feliz. Alguns vêem nisso a marca do seu gênio, do seu poder. Seu máximo prazer foi no encontro do G-7 em Toronto, quando se colocou sozinho contra todos e partiu bruscamente da reunião. Um psicanalista poderia nos explicar talvez esse bizarro mecanismo erótico.

Observamos também que seu contentamento parece ainda maior quando se opõe a alguém que finge gostar. E aí está a desvantagem do francês Emmanuel Macron. Ele, que se acredita um sedutor irresistível, mobilizou todo o seu arsenal de amabilidades para seduzir o americano: apertos de mãos, olhares cintilantes, tapinhas nas costas, beijinhos, brincadeiras de garoto. Mas Trump não mudou, mostrando um prazer malevolente de recusar com desdém todos os pedidos do francês. Macron não perde a coragem. Continua obstinado e insiste em seduzir.

O método adotado por Trump se apoia em suas virtudes e seu talento. Mas também no poder espantoso dos Estados Unidos. Há algumas semanas, contudo, parece que o presidente americano encontrou um adversário à altura. Os mercados financeiros americanos. Enquanto o crescimento do país continua excelente, os mercados tremem e às vezes vacilam.

Para Trump, os mercados estavam radiantes, com Wall Street abrindo garrafas de champanhe. Em 2017 e no primeiro semestre de 2018, a bolsa americana contabilizou um ganho de 80%. Mas então foi lançada a guerra comercial, iniciada por ele ao aumentar drasticamente as tarifas aduaneiras sobre produtos vendidos nos Estados Unidos, especialmente esses insuportáveis carros alemães que se exibem nas ruas e campos dos Estados Unidos, mas também sobre toda a indústria do Velho Continente. E mais recentemente a China, com a publicação de uma lista de produtos que sofrerão um aumento do imposto de importação de 25%. Está claro que Trump privilegia o protecionismo e os mercados tremem.

No caso da França o índice da bolsa, o CAC, despencou. Em 2017 registrou um ganho de 10%. Em 2018 nos primeiros seis meses ainda se mostrou robusto, com uma alta de 6%. Mas em poucos dias esses ganhos debilitaram e chegaram a apenas 0,21%. E o temor é de uma piora.

Claro que a queda não é uniforme. Um setor que faz prova de resistência e de uma agressividade ainda maior é o de “luxo”, velha tradição francesa que vive uma primavera suntuosa. A companhia dirigida por Bernard Arnault abrange 60 marcas, entre elas as de bebidas alcoólicas e vinhos (Chateau d’Yquem Moet et Chandon, Veuve Clicquot), ou as bolsas Luis Vuitton, as grifes Kenzo, Givenchy, Guerlain no campo da alta costura, jornais como Les Échos, Rádio Classique, sem esquecer as butiques emblemáticas como Bon Marché, e os hotéis de luxo.

O grupo segue sua trajetória triunfal. Insensível aos caprichos e melancolias da Bolsa, ele vem aumentando seus ganhos: 30% nos doze últimos meses. O grupo LVMH vale hoje 45 bilhões de euros, ou seja, 10% da capitalização do índice.

Mas no segmento de artigos de luxo ainda há algo mais espantoso. Hermès, por muito tempo a jóia da família, entrou tarde na turbulência das bolsas, e não correspondia ao gênero ultra chique, discreto, um pouco aristocrático a e afetado da casa. Em 1966, houve uma pequena revolução: a marca entrou na Bolsa. No início sua ação era cotada a 300 francos franceses (47 euros). Hoje supera os 520 euros. No primeiro trimestre de 2018 contabilizou um ganho de 17%. 

Poderíamos citar várias outras histórias de sucesso francesas ligadas ao segmento do luxo ou grande luxo.

Como entender isto? Primeiro a excelência dos artesãos franceses desse setor, sem dúvida por causa do seu vínculo original quase genético com as monarquias francesas. Mas há também o aspecto conjuntural. No caso de produtos da marca Vuitton ou Gucci, seu avanço fulgurante é explicado pelos batalhões de senhoras milionárias chinesas que caminham a passos largos pelas calçadas parisienses em busca de uma bolsa Vuitton ou de uma echarpe Hermès, que, ao retornarem ao seu país, oferecerão para outra milionária.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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