Mercados: perspectivas para a semana

O cenário na Argentina e os sinais do ritmo do desaquecimento econômico nos Estados Unidos devem continuar no foco das atenções dos investidores na próxima semana. Internamente, a divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada nos dias 20 e 21 de março, podem atrair as atenções de analistas, assim como o relatório trimestral sobre inflação, que será divulgado pelo Banco Central (BC), na sexta-feira.De acordo com Júlio Ziegelmann, diretor de renda variável da BankBoston Asset Management, entre os dois fatores externos, a Argentina é o que mais preocupa. Nessa sexta-feira, das 13 medidas apresentadas pelo ministro da Economia Domingo Cavallo, 10 de caráter econômico já foram aprovadas pela Câmara e foram reunidas em um Plano de Competitividade que será apresentado ao Senado. As três restantes, que dão poderes especiais ao ministro Cavallo na implementação das medidas, devem ser avaliadas na próxima semana.Sylvio Bittencourt Rocha, diretor da corretora de Valores do HSBC Investment Bank, também concorda que o cenário na Argentina é mais preocupante, nesse momento. O executivo lembra que o vencimento de papéis da dívida argentina nos próximos dias revelará o grau de confiança dos investidores em relação aos rumos da economia do país e ao impacto que as medidas terão na resolução dos problemas. Nos Estados Unidos, será divulgado na terça-feira o índice de confiança do consumidor. Analistas apostam em uma queda no resultado. "As últimas baixas das bolsas de Nova York foram muito fortes e isso afeta o humor dos investidores, já que a maior parte da poupança da população norte-americana está alocada no mercado acionário", declara Ziegelmann. Perspectivas para o mercado financeiroA alta da taxa básica de juros - Selic - em 0,5 porcentual, decidida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na quarta-feira, deixou ainda mais instáveis os mercados no Brasil. "A decisão foi contra o que o BC vinha sinalizando há dias, de que a economia estava sob controle e não havia motivos para mudança na tendência de juros. A surpresa foi vista pelos investidores como um sinal de que as coisas não estão tão bem assim", declara Rocha. Para a próxima semana, os analistas evitam fazer projeções, já que as variáveis são muitas e qualquer fato novo, seja ele positivo ou negativo, pode reverter qualquer tendência. "A oscilação pode até diminuir um pouco, mas o clima de pessimismo vai continuar presente", declara Rocha. Em relação ao câmbio, Nicolas Balafas, diretor de renda variável do BNP Asset Management, acredita que as taxas de câmbio estão muito acima de um valor sustentável. "Um intervalo entre R$ 2,05 e R$ 2,10 seria mais razoável. As taxas atuais estão muito pressionadas devido às incertezas nos mercados, que provocam um aumento da demanda por dólares como forma de segurança", explica. No mercado de ações, alguns analistas menos pessimistas acreditam em uma possível recuperação de parte das perdas acumuladas nos últimos dias. "Mas uma pequena alta na Bolsa agora é somente uma correção de preços", declara Alexandre Malfitani, administrador de fundos de renda variável do Deutsche Bank. Rocha lembra que os preços das ações ficaram tão deteriorados que o melhor a fazer é ficar com as ações. "Vender os papéis é praticamente doar o ativo", justifica.E como fica o seu investimento?A alta da taxa Selic vem provocando uma escalada nas taxas de juros de contratos futuros. Isso significa que as aplicações em renda fixa prefixada - fundos ou Certificados de Depósito Interbancário (CDB) - podem incorporar ganhos expressivos, caso as taxas de juros voltem a cair. "Mas o cenário está muito nebuloso para que se faça uma aposta arriscada", afirma Eduardo Castro, diretor de renda fixa do ABN Amro Asset Management. Segundo o executivo, independentemente do período em que o dinheiro ficará investido, o momento é de cautela e a melhor indicação para quem vai fazer um investimento agora é o fundo pós-fixado (DI), que acompanha as taxas de juros. "O investidor precisa ser ainda mais cauteloso", aconselha. Ziegelmann não concorda com a avaliação de que o período não é mais uma variável importante nesse momento de forte instabilidade nos mercados. "O investimento em ações continua sendo indicado para quem pode ficar com o dinheiro investido por um período mais longo, de pelo menos dois anos", justifica. Ele explica que, caso a taxa de juros continue no patamar atual até o final do ano, o ritmo de crescimento da economia terá apenas uma pequena redução - de 4,5% para 4,3%. Nesse caso, as perspectivas de crescimento das empresas tendem a diminuir um pouco também, o que provoca uma ligeira diminuição das perspectivas de ganhos com as ações das empresas. "Mas essa redução é muito pequena e o investidor que tem tolerância maior ao risco e pode ficar com o dinheiro aplicado por um período maior deve continuar apostando em ações", afirma.Além disso, Ziegelmann acredita que uma melhora do cenário externo deve trazer de volta a tendência de queda das taxas de juros. Nesse caso, segundo o executivo, o ganho com os papéis de empresas tende a ser ainda mais significativo em relação às aplicações indexadas às taxas de juros.Com o dólar em patamares insustentáveis, os analistas recomendam o investimento em ativos atrelados à moeda norte-americana, como os fundos cambiais, apenas para quem tem dívidas em dólar ou para quem está economizando para uma viagem ao exterior. Vale lembrar que os fundos cambiais não são uma forma perfeita de proteção do dinheiro, já que sobre o rendimento há uma incidência de 20% referente à alíquota do Imposto de Renda (IR).

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