Mercados: perspectivas para semana

O anúncio da Intel - líder mundial em chips para computador -, revelando um provável recuo em suas receitas no terceiro trimestre, assustou o mercado financeiro no final dessa semana e deve continuar influenciando os negócios nos próximos dias. A notícia sobre a companhia mostrou que a queda do euro diminui o poder aquisitivo dos países europeus e pode prejudicar o desempenho comercial das empresas exportadoras dos Estados Unidos. O resultado disso é uma baixa no faturamento das companhias e isso preocupa os investidores do mercado acionário, que podem iniciar um movimento de venda dos papéis, prejudicando ainda mais o desempenho da Bolsa. Além disso, a Intel faz parte do segmento de tecnologia, que constantemente apresenta oscilações no preço dos papéis. Trata-se de um segmento novo e o mercado ainda tenta acertar o preço justo das ações.Hoje, os bancos centrais dos Estados Unidos (FED), Europa, Alemanha, França, Inglaterra e Japão intervieram no mercado comprando moeda européia. Isso fez com que o euro fechasse em US$ 0,8766 em alta de 0,02%. De acordo com Júlio Ziegelmann, diretor de renda variável da BankBoston Asset Management, caso a estratégia dê certo, o euro pode interromper a tendência de queda que vinha mantendo desde 16 de junho. Nessa data atingiu a cotação de US$ 0,9660 e, desde então, apresentou apenas pequenos intervalos de alta. Com isso, as bolsas voltariam a reagir.Para o mercado acionário brasileiro, em um cenário mais pessimista, pode haver uma diminuição ainda maior do volume de negócios, em função da saída de capital estrangeiro. Isso porque o investidor estrangeiro vende suas ações no Brasil para cobrir prejuízos nas bolsas norte-americanas. Petróleo ainda preocupaO mercado financeiro também deve ser influenciado na próxima semana pela evolução do preço do petróleo. Os analistas são unânimes em afirmar que não há nenhuma certeza de que o final da instabilidade está próximo. Pelo contrário, há quem diga que a cotação do barril do produto deve continuar oscilando até o final do inverno no hemisfério norte.De acordo com Hugo Penteado, economista-chefe da ABN Amro Asset Management, a maior preocupação do mercado financeiro agora é a capacidade de refinamento do petróleo produzido. O economista citou um estudo da American Petroleum Institute, divulgado nessa semana, onde há a indicação de que essa atividade nos Estados Unidos está em 95,5% da capacidade total. O estudo mostra também que, no final de 99, a atividade estava em 89,7%."Mesmo que a produção do petróleo cru aumente, esse problema ainda vai persistir. Além disso, há a questão da distribuição dos derivados depois do refinamento. Isso significa que a falta de transporte rápido e eficiente pode atrasar a chegada dos produtos derivados ao consumidor, impedindo a estabilidade do preço do petróleo", explica o economista.Na próxima semana, os líderes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) vão se reunir em Caracas, na Venezuela, para um encontro de cúpula da Organização. De acordo com Penteado, essa não será uma reunião de reavaliação da produção do petróleo. "Eles querem apenas mostrar para o mundo o quanto são unidos", afirma. O próximo encontro para revisão da produção da Organização acontece no dia 17 de novembro. Porém, se o preço da cesta de produtos avaliada pela Opep ficar acima de US$ 28 por 20 dias consecutivos, a Organização tem o compromisso de elevar a produção diária em 500 mil barris do produto. No início desse mês, a Opep já aumentou a produção diária em 800 mil barris. Mas, de acordo com Penteado, a produção já estava elevada em 600 mil barris. Com isso, o aumento da produção foi, de fato, de 200 mil barris. O presidente norte-americano, Bill Clinton, determinou hoje o uso dos estoques estratégicos do país - cerca de 571 milhões de barris de óleo bruto - a fim de conter a alta dos preços. Na opinião de Ziegelmann, essa é apenas uma medida paliativa, já que o volume dessa reserva é limitado e o problema abrange o mundo todo, e não apenas os EUA. Preço dos combustíveis pode subirCom o petróleo em alta, o governo pode ser obrigado a elevar o preço dos combustíveis ainda esse ano. De acordo com Heron do Carmo, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas e Estatística (Fipe), vinculada à USP, isso deve acontecer se o preço do barril ficar acima de US$ 30. Ele destaca que a decisão do governo deve levar em conta também o cumprimento da meta de inflação estabelecida para esse ano - de 6% com possibilidade de alta de dois pontos porcentuais. Na opinião de Heron do Carmo, o governo deve esperar até o início de dezembro para aumentar os combustíveis. "Dessa forma, a equipe econômica saberia de forma mais precisa de quanto poderia ser o reajuste, sem que houvesse um comprometimento da meta", avalia o coordenador do IPC. Ele destaca que, para cada 10% de aumento no preço dos combustíveis, o IPC - Índice de Preços ao Consumidor -, calculado pela Fipe, sobe 0,3 ponto porcentual. Caso essa seja a decisão do governo, o economista explica que os efeitos diretos - alta de preços nos fatores que compõem o IPC - seriam percebidos ainda esse ano, enquanto os indiretos seriam percebidos no próximo ano, quando a meta de inflação é de 4%. Segundo ele, quando o governo definiu a meta para 2001, não havia no cenário econômico o problema com o preço do petróleo. A alta dos combustíveis pode provocar uma estabilidade das taxas de juros. Porém, os analistas não acreditam em uma alta dos juros por conta disso. Os mais otimistas, que projetavam a taxa básica de juros - Selic - para o final do ano em 15%, fizeram revisões em suas projeções. As apostas agora dividem-se em uma taxa entre 16% ao ano e 16,5% ao ano.Como fica o mercado financeiro?A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) deverá ser fortemente influenciada pelo desempenho das bolsas norte-americanas na próxima semana. A evolução da cotação do euro e as perspectivas para o faturamento das empresas dos Estados Unidos serão o foco das atenções dos investidores nesse mercado. Em relação às influências do petróleo sobre o mercado acionário, as perspectivas continuam boas a médio prazo. De acordo com Ziegelmann, isso deve começar a acontecer a partir do segundo trimestre do próximo ano. "Enquanto o preço do petróleo estiver acima de R$ 30, a Bolsa vai continuar oscilando. Acredito que a estabilidade só virá com o final do inverno no hemisfério norte, quando haverá uma diminuição da demanda pelo produto e o preço do barril pode cair", afirma. Porém, isso pode ser alterado em função de um cenário mais pessimista para o desempenho das empresas.Ziegelmann explica que, se no próximo ano, o preço do barril do petróleo ficar em US$ 23, a economia mundial deve crescer 3,4%. Caso a cotação fique em US$ 40, o crescimento cai para 2,6%. "O crescimento menor da economia afeta o desempenho das empresas, o que prejudica a valorização das ações. Além disso, o fluxo de recursos também diminui". A instabilidade também deve ser percebida no mercado de juros. As taxas devem continuar oscilando em função do cenário externo e das perspectivas para a inflação. De acordo com Gina Baccelli, economista-chefe da Lloyds Asset Management, com a pressão sobre os preços, o espaço para redução dos juros está cada vez menor. No mercado financeiro, o dólar é um dos fatores mais sensíveis à alta do preço do petróleo. Isso porque muitos investidores usam a moeda norte-americana como forma de hedge, ou seja, como proteção contra turbulências no cenário externo que afetam diretamente o mercado financeiro brasileiro. Essa perspectiva fez com que o dólar subisse % desde o início de setembro. Ziegelmann acredita que o Banco Central (BC) deve adotar estratégias para impedir a continuidade da alta forte do dólar. Exemplo disso já pôde ser percebido pela nova estratégia do governo em relação à sua dívida em títulos cambiais. No início de setembro, o BC tinha por objetivo resgatar 20% dos títulos cambiais e postergar o pagamento de 80%. Para não diminuir o volume de dólares no mercado e suprir parte da demanda, o BC optou por postergar 92% dos títulos cambiais que venciam ontem. Veja no link abaixo as recomendações de analistas para seus investimentos em um cenário de instabilidade.

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